Por Dora Barrancos
Tradução de Elisa Menezes
Essa frase poderia ser a epítome de um dos romances mais fascinantes do admirável João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Muitas vezes coloquei esse livro entre os imprescindíveis caso eu me visse náufraga em uma ilha deserta, acompanhados de Três guinéus, de Virginia Woolf, e do colossal A escrita ou a vida, de Jorge Semprun, claro, desde que fosse obrigada a escolher apenas três textos. Eu me repreendo por não haver mais mulheres do que homens nessa minguada seleção, mas não se trata de uma acomodação estratégica da sensibilidade, e sim do puro transbordamento de sentimentos. Naturalmente, eu poderia, sem arrebatamentos ou pressões de urgência, elaborar uma boa nômina de livros que me comoveram desde que me entendo por gente, mas não é o caso.
Não surpreende que estas reflexões estejam ligadas ao bordão usado pelo protagonista de Grande Sertão, um profundo abismo nas concepções da existência. Nada pode ser tão perigoso quanto viver, já que, sem interrupção, até o penúltimo suspiro, devemos decidir, optar, aceitar, rejeitar, amar e detestar. Uma série verbal minúscula para o fluxo da vida. É verdade que boa parte dela permanece em imanência, essa deplorável condição para o existencialismo, que reivindica as rupturas e insurgências da transcendência, mas acredito que não existe ser humano que não tenha vivenciado ao menos um surto subversivo e, no fim das contas, é isso que significa transcender. Cada época que vivemos nos molda e também é moldada por nossas ações, cada época nos constrói e é construída por nós, mas nossa configuração subjetiva “vem de fora”, como Gilles Deleuze gostava de enfatizar, apontando a eficácia inexorável do contexto na configuração da nossa subjetividade.
Mas há ciclos em que viver é especialmente perigoso devido à magnitude das interpelações e à escala dos desafios, quando estão em risco os atributos vertebrais do nosso sistema de ideias e convicções, e às vezes a própria vida. O mundo está tomado por ameaças devido à desigualdade avassaladora e ao lento mas acentuado fortalecimento das extremas-direitas, cuja nomenclatura adequada é difícil definir dada a heterogeneidade de suas lideranças e de seus entornos. De minha parte, não tenho problema em atribuir a categoria de neofascismo a essas variadas formas autoritárias, obscurantistas, destruidoras de direitos fundamentais, que articulam a irracionalidade de seu discurso no odre pouco perturbável do senso comum, precipitando a criação de bodes expiatórios sobre os quais recai a responsabilidade do estado de coisas que consideram nefastas e que devem ser suprimidas.
Todas as extremas-direitas têm em comum o fato de terem colocado em conjunção herética os feminismos, as demandas por igualdade de direitos por parte das identidades sexo-genéricas dissidentes e a busca por uma distribuição equitativa de riqueza e reconhecimento. Como recentemente apontou a singular escritora norte-americana Siri Hustdvedt, em sua impactante comparação entre Trump e Hitler, é preciso contabilizar os avatares que afetam as subjetividades, sobretudo a onda de ressentimento decorrente da perda de status da nação mais poderosa. A ideia de Hustdvedt é que essas personalidades distópicas promovem a épica da Nação para restaurar uma épica significativa para existências subjugadas. Essa restauração do orgulho é inexoravelmente canalizada para a guerra, com mais colonização e espoliação. O incremento da crueldade está despojado de véus e sutilezas, é aberto, insolente, vulgar. Deve ser percebido para que o medo atordoe até os mais ousados.
E, como observa Rocco Carbone1, a extrema-direita tem o propósito de nos psicotizar, de nos fazer perder o rumo em seu tortuoso labirinto, e não há como desmentir essa classe diante da cruzada anti-iluminista que mina o próprio fundamento das ideias liberais. Permanecemos perplexos diante da destruição pretendida por esses cruzados esotéricos, negacionistas da redondez da terra, da era dos dinossauros, das mudanças climáticas, isso sem falar da disparidade sexo-genérica, cujas expressões agora estão sendo suprimidas. Basta ver os vocábulos banidos pela administração Trump, segundo reportagem publicada pelo jornal The New York Times em março de 20252. Essas proibições dizem respeito principalmente a propostas relacionadas à saúde, entre as quais se encontram expressões que aludem a questões de gênero e sexualidade, acompanhadas de termos como “inequidade”, “diversidade racial”, “desigualdade”, “oportunidades iguais”, “historicamente”. A censura institucional registrada na maioria dos meios acadêmicos norte-americanos e a autocensura são os desdobramentos infelizes dessas determinações autoritárias.
Não posso deixar de mencionar as atuais circunstâncias de sofrimento provocadas pelo governo de extrema-direita na Argentina, que inflige mais dor à já imensa crueldade associada à erosão dos direitos. É verdade que essa extrema-direita se distancia de Trump por seu absoluto rechaço ao Estado, sua fórmula “anarcocapitalista” é plenamente conhecida, sua aversão a qualquer intervenção estatal, o que levou a uma drástica redução de qualquer apoio à educação, à saúde, à previdência social e, além disso, às obras públicas destinadas a oferecer qualidade de vida à população. O setor público foi suprimido, incluindo a imprescindível participação estatal para sustentar o desenvolvimento científico e tecnológico, sem mencionar as obscenas políticas econômicas que permitem a concentração de recursos nas mãos de poucos agraciados, enquanto o sistema produtivo, o emprego e os direitos trabalhistas amplamente conquistados desmoronam.
O retrocesso em matéria de gênero é calamitoso, a ponto de as linhas de apoio às vítimas de violência mal conseguirem sobreviver e de fazer parte do vocabulário cotidiano daqueles que participam dessa administração afirmar que não é necessário fazer distinção entre os sexos no que diz respeito à violência. Também é chocante o abandono das posições historicamente fortes da Argentina em fóruns internacionais de direitos humanos. Para completar essas circunstâncias angustiantes, este ano marca o quinquagésimo aniversário da instauração da ditadura mais brutal que o país já vivenciou, e a postura da extrema-direita dominante é negar os desaparecimentos, o roubo de crianças, os exílios forçados, as perseguições. Essa negação deve ser entendida não apenas como uma recusa em admitir tais acontecimentos hediondos, mas também como uma legitimação, uma conivência com sua ocorrência.
É perigoso viver esse ciclo sombrio na Argentina, mas não podemos ser apenas testemunhas angustiadas. Reexistir, como defendem as frentes feministas, é o que nos é exigido, e resistir é o nosso conjuro.
Notas
- Rocco Carbone, Lanzallamas. Milei y el fascismo psicotizante. Penguin Random House/En Debate, Buenos Aires, 2024. ↩
- https://www.nytimes.com/interactive/2025/03/07/us/trump-federal-agencies-websites-words-dei.html ↩
Dora Barrancos é historiadora, socióloga e ativista feminista argentina. Atualmente é professora da Universidade de Buenos Aires e consultora do governo do presidente da Argentina Alberto Fernández. Pela Bazar do Tempo publicou História dos feminismos na América Latina (2022).











