Exercício de outridade, mosaico, biblioteca: notas sobre o ensaio "Escrever em país dominado", de Patrick Chamoiseau

Por Vanessa Massoni da Rocha

O ensaio Escrever em país dominado, do intelectual martinicano Patrick Chamoiseau (1953-), acaba de aportar em contexto brasileiro com tradução de Ciro Oiticica e Mariana Patrício Fernandes. Publicado originalmente em 11 de abril de 1997 pela renomada editora francesa Gallimard, o livro ancora em terras nacionais após vinte e oito anos. A edição primorosa da Editora Bazar do Tempo beneficia do apoio do Ministério da Europa e das Relações Exteriores e se vincula ao Programa de Apoio à Publicação 2024 Atlântico negro da Embaixada da França no Brasil e à Temporada Brasil-França 2025. Por um lado, a espera de quase três décadas testemunha da relação tradutória lenta que se imprime, por via de regra, em livros caribenhos francófonos traduzidos em português do Brasil. Por outro lado, a ancoragem por aqui se transforma em comemoração pelo trigésimo aniversário do livro, reiterando o frescor e a importância de uma obra atemporal que se tornou referência (acadêmica).

Escrever em país dominado foi escrito na ilha caribenha da Martinica, na comuna Favorite1 e teve seu desfecho em 4 de fevereiro de 1996, às 19h. A este respeito, é preciso mencionar que Patrick Chamoiseau compartilha com os leitores os marcadores geográfico e temporal de suas obras, registrando imediatamente após o término do livro, em itálico, e alinhado à direita, tanto o(s) lugar(es) de escrita quanto a data (dia, mês e ano ou mês e ano2) em que seus escritos estão aptos a ganhar o mundo. O procedimento se iniciou no romance Antan d’enfance, em 1990, e figura desde então em todas as publicações do autor, tornando-se uma marca registrada de sua identidade literária e ensaística. Ocorre-me pensar neste registro como um diário de bordo de escrita, ao mesmo tempo passaporte e bússola, através do qual o autor se permite acumular cidades e datas generosamente compartilhadas com seu público. Tal movimento valoriza a compreensão da escrita enquanto processo estendido no tempo e também friccionado a ele e, além disso, vinculado aos espaços que abrigaram o autor no desenvolvimento de sua empreitada. Escrever em país dominado é a única obra chamoiseana até hoje a ostentar a hora em que na página se grafa os últimos caracteres: 19 horas.

A iniciativa não me parece inocente; ela confere precisão, acena com uma escrita meticulosa e, principalmente, recupera a noite como momento possível para os povos colonizados e dominados de “Escrever a palavra da noite3” (Ludwig, 19944), a palavra da resistência entoada oralmente pelos escravizados. No ensaio, Chamoiseau provoca: “Um estupor faz lembrar a luz aprazível que dissipava a noite com tantas promessas e que, traidora, aí disposta em um anúncio violento, revela ao sonhador desarmado que o tempo passa também pelas eternidades. Quem, mas quem pode escrever ao meio-dia, hein?” (Chamoiseau, 2025, p. 128; grifo do autor). O questionamento dispara uma provocação e graceja o elitismo (branco e europeu) dos intelectuais, vivência muito distinta da realidade dos contadores de histórias crioulo (negros), submergidos em suas obrigações laborais no horário do sol inclemente. Como se sabe, a contação de histórias ocorria após o serão nas lavouras, à noite, quando os escravizados recuperavam de algum modo suas dignidades através do culto a seus antepassados, a suas histórias, aos seus imaginários. Chamoiseau recupera o surgimento dos contadores nas Américas durante as atividades noturnas e enfatiza sua capacidade de fazer pilhérias, dando a ver uma empreitada transgressora:

Então, o primeiro Contador aparece no engenho.

No prolongamento dos dançarinos e dos negros-feiticeiros.

Ouço suas primeiras palavras, em uma noite de dança em que o esgotamento armazena as energias, ou então ao longo dessas madrugadas em que se prepara a mandioca. A piada desce. As brincadeiras vêm. Zomba-se dos brancos. Zomba-se dos senhores.

(Chamoiseau, 2025, p. 155)

O autor insiste na constatação da noite enquanto momento propício à prática da contação de histórias, reiterando o vínculo profundo entre o cair do dia e o despertar da palavra oral que nutrirá as linhas da escrita, como demonstra o excerto a seguir:

O Contador crioulo orientava suas histórias ao grau dos saltos e dos silêncios. Sua Palavra parecia um galho sensitivo, curiosa e ávida. Um estado de alerta o despertava e acordava à sua volta. Ele precisava de outros Contadores em volta de sua Palavra. [...] A Palavra deles prometida à sua, e a sua se nutrindo da deles que o inquieta. Suas memórias se ativando uma a outra em uma espiral infinita, animada de alerta e humildade. Toda noite, em rivalidade solidária. Guerreiro, dessa maneira, multiplica o Escrever.

(Chamoiseau, 2025, p. 261)

19h. 4 de fevereiro de 1996. Patrick Chamoiseau tinha 42 anos. À esta altura, tinha publicado uma peça de teatro (Manman Dlo contre la fée Carabosse, 1982). Foi através do gênero dramático, aliás, que o autor encena sua estreia nas artes, aos 28 anos. Ele tinha igualmente transitado no âmbito do ensaio, escrevendo quatro textos ensaísticos, todos em parceria. Com o conterrâneo Raphaël Confiant publicou em 1989 Éloge de la Créolité5 (com a participação, ainda, do linguista Jean Bernabé) e, em 1991, Lettres créoles - Tracées antillaises et continentales de la littérature: Haiti, Guadeloupe, Martinique, Guyane: 1635-1975. Com fotógrafos franceses, Chamoiseau experimentou os entrecruzamentos entre texto e imagem, publicando em 1994 duas obras: em Martinique (com Michel Renaudeau e Emmanuel Valentin), o autor escreve sua ilha natal ao lado de imagens diversas que descortinam sua pluralidade, sua riqueza cultural e sua pluralidade. Em Guyane: Traces-Mémoires du bagne (com Rodolphe Hammadi), o martinicano se volta para a Guiana Francesa, explorando o fato de que o Departamento ultramarino francês6 se tornou uma importante colônia penal quando do período imperialista francês, entre os séculos XVII e XX.

Dramaturgo, ensaísta..., mas sobretudo ficcionista – e com reconhecimento junto ao público e à crítica. Quando da publicação de Escrever em país dominado, o autor tinha assinado cinco romances, a saber: Chronique des sept misères, 1986; Solibo magnifique, 1988; Antan d’enfance, 1990; Texaco, 1992 e Chemin-d’école, 1994. Ele tinha igualmente sido laureado com o prestigioso Prêmio Goncourt em 1992, por Texaco e com o Prêmio Carbet de la Caraïbe no ano seguinte, por Antan d’enfance. Para que se compreenda a grandeza artística de Chamoiseau, é imperativo aludir ao fato de que ele foi o primeiro escritor martinicano reconhecido pelo Goncourt. Somente trinta e três anos mais tarde, em 2025, a martinicana Gaël Octavia ascende ao mesmo pódio literário, na categoria novelas, pelo livro L'étrangeté de Mathilde T. et autres nouvelles. Assim, recompor o contexto de publicação de Escrever em país dominado é se colocar diante de um intelectual maduro, prolífico, polivalente, premiado, prestigiado, influente, traduzido.

Insistindo um pouco mais nesta perspectiva, recorro ao dicionário sobre o itinerário poético caribenho, organizado por Caroline Bourgine e publicado em 2023. Nele, o nome do escritor se torna verbete e figura ao lado de alimentos, flora, fauna, lugares, músicas e termos em crioulo capazes de encarnar a simbologia e o imaginário das ilhas do Mar do Caribe. Bourgine enfatiza que se trata de um “grande autor caribenho7” (2023, p. 868); um autor que espelha a grandiosidade caribenha. Em outras palavras, a pesquisadora aponta para uma premissa notável: não se pode enumerar um campo semântico fiel ao Caribe e prescindir da presença de Patrick Chamoiseau. Como se vê, não configura exagero ponderar que o intelectual martinicano se amalgama ao patrimônio local. As honrarias, no entanto, não envaidecem o autor. Muito pelo contrário. Em 2017 tive a alegria de entrevistá-lo durante meu pós-doutorado. Naquela oportunidade, lhe perguntei como se sentia sendo um embaixador da literatura caribenha. Eis sua resposta afiada:

Eu não represento a Martinica, não represento o crioulo ou o francês, não represento o Caribe; represento a experiência particular de um jovem negro nascido em Fort-de-France, Martinica, em uma pequena colônia, que construirá sua presença no mundo, sua ética, sua estética a partir dos elementos que lhe são dados. Esses elementos básicos são infinitos, abertos à totalidade do mundo, e essa totalidade não é abordada com uma imaginação antiquada e arcaica, mas sim relacionalmente. Eu me construo dentro desse fluxo relacional de uma maneira completamente imprevisível e singular, o que significa que podemos ter um escritor X nascido na Martinica e outro escritor X nascido na Martinica, e os dois podem ter trajetórias diferentes: um pode decidir, em algum momento, escrever em espanhol e viver na Alemanha, e o outro pode se casar em Sainte-Marie e nunca mais sair das montanhas. Tudo é possível, o que significa que cada indivíduo está sozinho; cada obra hoje testemunha uma experiência, uma trajetória relacional dentro de uma totalidade mundial. Nesse momento, não existem embaixadores nem nada do gênero, porque eles deixaram de ser entidades coletivas9. (Rocha, 202110)

Voltemos à experiência chamoiseana em Escrever em país dominado. Ao falar de si/do escritor como “Marcador de palavras”, o autor apresenta as linhas de força do seu livro: “Compreender essa terra em que nasci tornou-se minha exigência. Eu estava nela, ela estava em mim. Entrar nela era entrar em mim em um círculo sem borda.” (Chamoiseau, 2025, p. 87). Se, por um ângulo, o status de embaixador das letras caribenhas ensejou um contundente rechaçamento; por outro, o escritor reivindica a escrita enquanto movimento de exigência, de urgência à guisa de promover um corpo a corpo com a realidade que o circunda, com sua Martinica natal. “Nós fazemos corpo com nosso mundo11” (Bernabé; Chamoiseau; Confiant, 1993, p. 39; grifo dos autores), nos lembra o ensaio Éloge de la Créolité12, estreia ensaísta de Chamoiseau ao lado de dois intelectuais conterrâneos imponentes. Ao retornar de uma temporada de dez anos de estudos na França, o literato elenca a potência de (re)encontros com um espaço acolhedor e revigorante:

[...] eu voltava. Tornava a instalar meu corpo em ganchos invisíveis. Tocava nos musgos mais antigos, pisava os degraus mais usados, reencontrava árvores antigas que davam ao ar permanências de eternidade. Havia aí cargas emotivas, murmúrios, tremores, pequenos risos amargos. Eu já não sabia se os recebia ou se os emitia. Havia uma familiaridade com essas rodas de moinho, canais de irrigação, esses tanques de mandioca, que me habitava sem esforço. (Chamoiseau, 2025, p. 114)

Escrever em país dominado, nestes termos, consiste em um livro sobre si, sobre o desenvolvimento de sua verve de escritor, sobre seus enlaces com os lugares, as pessoas, a família, as bibliotecas, os autores, os antepassados. Não nos esqueçamos de que o texto se tece na primeira pessoa do singular. Tal procedimento estava presente, de modo pontual, no ensaio Guyane, Traces-mémoires du bagne, publicado três anos antes, como se vê nos exemplos: “Eu, crioulo americano, canto as histórias contra a História. Canto as memórias contra a Memória13.” (Chamoiseau, 1994, p. 1614) e “Estou disponível para as sensações. Minha presença se faz emoção15” (Chamoiseau, 1994, p. 44). Elegi estas duas passagens porque delas se erigem vultos incontornáveis da dicção de Patrick Chamoiseau que incidem plenamente (também) em Escrever em país dominado: o embate das histórias contra a História, o duelo das memórias contra a Memória e o apreço pelas sensações e as emoções vividas em presença. Arrisco dizer que nestes excertos se desenham as linhas de força de seu olhar e de sua escrita, de sua identidade como cidadão e como intelectual combativo.

Embates-histórias-memórias-sensações. Sobressai-se aí a filiação à pluralidade e à compreensão da riqueza de diferentes formas e versões. Estes termos sublinham, mais uma vez, a recusa à ideia de um intelectual apto e eficaz para representar um povo. Dito de outra maneira, somos convidados a buscar variadas representações à representação unívoca, a valorizar a polifonia no lugar da voz de autoridade que sufoca outras manifestações e a encorajar diálogos-sinfonias ao invés de apostar em monólogos. O princípio bebe na fonte do binômio “raiz única e rizoma”, que o martinicano Édouard Glissant desenvolve no campo da identidade a partir de noções de Deleuze e Guattari ligadas à construção do pensamento: “a raiz única é aquela que mata à sua volta, enquanto o rizoma é a raiz que vai ao encontro de outras raízes” (Glissant, 2005, p. 6116); “a raiz única exclui o outro como participante” (Glissant, 2005, p. 64). Nesta perspectiva, não percamos de vista a participação de Chamoiseau na criação do termo “diversalidade17” (Bernabé; Chamoiseau; Confiant, 1993, p. 54), concebido como postura “fora do Mesmo e do Um18” (Bernabé; Chamoiseau; Confiant, 1993, p. 54), oposta à “Universalidade, a chance do mundo difratado mais recomposto, a harmonização consciente das diversidades preservadas19” (Bernabé; Chamoiseau; Confiant, 1993, p. 54).

Nesta toada, compreendo que Escrever em país dominado se tece com ares de livro-inventário. Livro-inventário porque simula um diálogo de Patrick Chamoiseau com um personagem de grande magnitude: o velho guerreiro. O interlocutor figura já nas páginas iniciais do ensaio e se faz presente em mais de uma centena de inserções ao longo do texto. Trata-se de um negro, guia intelectual, símbolo da sabedoria, definido no livro nos seguintes termos:

[...] estranho personagem, um tipo de velho guerreiro, vindo de todas as idades, de todas as guerras, de todas as resistências, de todos os sonhos que os povos dominados puderam nutrir. Ele parecia carregar as chagas deste mundo e minhas feridas mais íntimas. Cicatrizes e olhos turvos. O querer firme, a vontade intacta. Vivente indomável que eu nunca pude descrever em uma página. Eu ouvia-o, rico de uma vasta experiência, me contar essas guerras passadas e as linhas de forças das batalhas que se anunciam. Sua voz, murmúrio trincado em meu ouvido, nutria-se do zumbido dos beija-flores que atravessam a varanda onde por vezes escrevo. Nunca claro, hostil às certezas, mas duradouro nas crenças com as quais brinca. Eu adquiri o hábito de anotar suas palavras com a ideia de fazer disso uma obra impossível que eu chamaria Inventário de uma melancolia… (Chamoiseau, 2025, p. 17)

“O velho guerreiro me sussurra”, eis uma espécie de fórmula mágica que dispara os ensinamentos do personagem. Suas falas aparecem destacadas no texto, como um tipo de deferência textual manifestada pelos que têm a honra de sorver suas palavras. Estas são reveladoras de um pensamento sensível, marcado pela experiência empírica, pelo comprometimento com a circulação de ideias e de histórias e pela transmissão dos legados. Espécie de mentor, professor, contador de histórias, entidade mítica... forjado pelas dúvidas, pelas inquietações, pela busca de respostas. Suas intervenções nunca se concluem, se suspendendo em uma espécie de refrão entoado à exaustão: Inventário de uma melancolia… Chamoiseau escreve com ele, para ele, a partir dele. A escrita se desdobra, caminha a passos firmes pelo espaço da colaboração. O autor parece nos sussurrar: “não se escreve sozinho...”.

Para além de livro-inventário, defendo que Escrever em país dominado constitui-se em livro-repertório. Nele, o autor cunha um de seus mais conhecidos conceitos: a sentimentoteca. Trata-se de sua biblioteca sentimental, que assume a natureza de congregação intelectual, constelação literata, panteão afetivo. Ela é composta por autores e autoras de diferentes línguas, origens e épocas. A iniciativa se inscreve na tessitura do ensaio de maneira similar às falas do velho guerreiro no que diz respeito à disposição de falas destacadas visualmente. Os ilustres da sentimentoteca costumam aparecer em pares, mas eventualmente estão dispostos sozinhos. Chamoiseau opta por não reproduzir citações fidedignas dos seus convidados do banquete ensaístico Escrever em país dominado. Ele nomeia o autor e em seguida evoca frases breves capazes de sintetizar seu universo. Um único brasileiro figura na reunião de convivas, João Ubaldo Ribeiro: “De João Ubaldo Ribeiro: O Lugar em espessuras de histórias, de forças de mitos e linguagem – ó irmão, de sagrada desmesura. – Sentimentoteca.” (Chamoiseau, 2025, p. 110; grifo do autor). A paráfrase chamoiseana evoca o romance Viva o povo brasileiro20, de 1984. A sentimentoteca retorna no universo do autor martinicano em obras como Irmãos migrantes21 (2026[2017]) e O contador, a noite e o balaio22 (2025[2021]), mostrando o fôlego da rede de leitura afetiva do autor. O procedimento do livro-repertório comunga da pluralidade observada no livro-inventário. Mais uma vez, Chamoiseau aposta todas as fichas em uma confraria de vozes, corroborando a noção da diversalidade e de outras vinculadas à pluralidade.

Neste sentido, Escrever em país dominado se consagra como um texto-colagem, polifônico, manifestação incontível de abertura ao outro, que entrecruza uma quantidade vertiginosa de figuras e de contextos. A Bíblia, o Alcorão e o Contador de histórias, por exemplo, figuram nesta sinfonia composta por mais de uma centena de vozes, algumas reincidentes, como os martinicanos Aimé Césaire e Édouard Glissant. Escrever em país dominado é um exercício de outridade. Um mosaico. Uma biblioteca.

“O colonizador dispunha das armas de sua vitória: uma Nação-Território, uma língua, uma pele, uma identidade, uma bandeira, uma expansão dominadora”. (p. 52), lemos em Escrever em país dominado. O texto apresenta uma minuciosa e poética descrição acerca da experiência violenta e sufocante da colonização:

Lustro ainda minhas armas, mas sei que enfrento um golpe simbólico. A ideologia no próprio vento que sopra. A propaganda sutil na água que banha a pupila. A influência no oxigênio. Doutrinamento em buquê de sabores. Domínios indiscerníveis...[...] Quando o modo de ser, o modo de pensar, o modo de se pensar, o modo de pensar seu pensamento, o modo de consumir, o modo de se distrair, o modo de se tratar, o modo de se emocionar… eram vistos como importados, não havia como considerar alguma fagulha criadora… (Chamoiseau, 2025, p. 102)

Paulatinamente, o texto evidencia o levante dos dominados e sua capacidade de enfraquecer a imperiosa dominação:

Um realismo dominado vai se instalar, predador de qualquer outro possível, e tratando a alternativa como utopia malsã: assim são limados os independentistas nesse país submetido. Esse imaginário dominado permanece indestrutível. Ele não tem muros. Nenhuma torre, exército ou munições. Ele não aparece em nenhuma parte e se ativa no todo. Os produtos que ele gera como obras do espírito ou como visão do mundo são julgados por ele próprio, e se inscrevem de todas as maneiras na trilha que ele imprime. O imprevisto é que, aí também, surgem as marronagens. Alguns vírus de vida, desviantes, retrorrebeldes, poetas-à-margem, artistas-feridos, que, mesmo sem a percepção do constrangimento, saem dos trilhos, se deportam, se atiram como drivadores, como oponentes irredutíveis, como agressivos sem causa, sonhadores sem ideal. Travando as batalhas de uma guerra que ignoram. Eu os vi. Eu os frequentei. (Chamoiseau, 2025, p. 258-259; grifos meus)

Creio que a escrita, para Chamoiseau, consiste em um jogo do arriscar-se, do comprometer-se, do empunhar armas-palavras contra inimigos (in)visíveis que insistem em controlar os imaginários. Eis outra definição de fenômeno da dominação:

A dominação silenciosa não nos predispõe às benesses da Terra religada, do mundo lançado nas relações; de maneira simbólica, ela põe rédeas no imaginário e encolhe as amplitudes de si sob a chapa dos valores que difunde. Ela insula da pior maneira possível. (Chamoiseau, 2025, p. 230)

Nesta perspectiva, escrever (em país dominado) significa despir-se das rédeas, valorizar as amplitudes, difratar, colocar-se em comunhão. Ao dissertar sobre seus primeiros escritos, aos vinte anos de idade, o martinicano se percebe em exercício combativo: “A literatura, o livro, a leitura, a escrita permaneciam em meu espaço doméstico, no centro de uma luta levada a meus cadernos e meus romances que resistiam a nascer” (Chamoiseau, 2025, p. 78). O campo semântico dos embates pulula ao longo de Escrever em país dominado. Já lemos nestas páginas termos como “armas”, “golpe”, “propaganda”, “influência”, “doutrinamento”, “predador”, “país submetido”, “exército”, “munições” etc. O desfile continua no excerto a seguir:

Na dominação, as eras se emaranham, arcaísmos sutis, primarismos furtivos, sangramentos desgastantes, com avanços, com recuos, e, a cada estágio, com a mobilização virtual das demais. Esteja atento, ó Marcador – eu dizia a mim mesmo –, ao emaranhado das eras, mas guarde isto em mente: o campo de batalha só está verdadeiramente aberto na era presente. Malditos os que escrevem contra a dominação da era passada: essas balas têm um passado grandioso, mas pouco amanhã. (Chamoiseau, 2025, p. 16; grifos meus)

Mais adiante, Chamoiseau pondera que

A luta contra as dominações do presente pode não ser espetacular. O simbólico escava seus atos mais profundos; as ondas psíquicas, seus assaltos mais amplos. Eu não estava certo de vencer (não havia nada a ser vencido), mas, no sistema mortífero em que meu país naufragou, eu procurava aumentar o imprevisível – esse grande celeiro das entropias. O Escrever irradia em seu entorno. Alguma coisa, nas dominações, é pressionada, modificada – e, espero, enfraquecida – em ínfimas variáveis cuja extensão não tem limite. (Chamoiseau, 2025, p. 255; grifos meus)

É importante observar que a ação de escrever é grafada numerosas vezes com letra maiúscula ao longo do ensaio. O mesmo ocorre no termo “Marcador de palavras” e para outros vocábulos como “Contador” e “Palavra”. Uma e outra expressão ascendem ao papel de protagonistas. Logo, escrever (em país dominado) quer dizer entrar na arena, cumprimentar o oponente, estudar seus passos, buscar antecipar seus movimentos, esquivar-se dos golpes, manter-se firme, desferir os contra-ataques. Na escrita em país dominado, o escritor irradia, fraturando (enfraquecendo, modificando, pressionando, para retomar o próprio Chamoiseau) a dominação de alguma maneira.

O livro aposta em uma vitória da insubmissão ainda nas linhas iniciais, como no fragmento literário que antecede seus três grandes eixos. Neste fragmento, lemos: “Assolar. Arrastar silêncios. Apagar sorrisos no branco das rendas. Os dias, vestidos com os ferros solares, se esforçam para superar a estação elevando-se até as fatalidades. Mas: permanece o dom.” (Chamoiseau, 2025, p. 11; grifo do autor). Desde este momento, antecipa-se o combate do livro e elege-se o “dom” como arma privilegiada para “superar” as violências coloniais de uma ilha que foi colonizada pela França por muitos séculos: desde 1635, quando da chegada do comerciante e aristocrata francês Pierre Belain d’Esnambuc, até 1946, quando houve a departamentalização. Quando o colonizador se dispõe a “assolar”, “arrastar”, “apagar”, o dominado investe em “superar” e, destituído de muitas de suas potencialidades sob o julgo da barbárie (pós-)colonial, tira partido do que permanece, do que não pode ser plenamente rasurado, dizimado: seu dom, sua resiliência, sua dignidade em ser quem se é e fazer frente, com valentia, aos desmandos e revezes que se impõem. De maneira emblemática, em língua portuguesa, o termo DOMinado contém em si o dom. Não me refiro, evidentemente, à etimologia da palavra. Proponho um jogo visual, espécie de espelhamento, leitura faceira de diferentes - sutis, até - manifestações de transgressão.

O livro se organiza em três eixos: “anagogia pelos livros adormecidos”, “anábase em digêneses segundo Glissant” e “anabiose sobre a pedra-mundo”. Anagogia é um termo que vem do grego anagogé (ἀναγωγή), que significa “elevação” ou “subida”; é o ato de olhar para algo comum ou um texto e enxergar nele um caminho para o divino ou para o destino final da alma humana. A anábase (do grego anábasis, “subida” ou “expedição para o interior”) refere-se a uma jornada do litoral para o interior de um território; é o movimento de quem, sem bússola ou leis externas, precisa inventar seu próprio caminho de volta para casa ou para a ordem. A anabiose (do grego ana = “de novo” e bios = “vida”) é um estado biológico de vida suspensa. É um mecanismo de sobrevivência extremo onde um organismo reduz o seu metabolismo a níveis quase imperceptíveis, tornando-se praticamente inativo para suportar condições ambientais adversas.

Escrever em país dominado representa um importante ponto de inflexão na trajetória de Patrick Chamoiseau, no qual ele inaugura uma dicção ensaística assinada somente por si, recrudesce uma voz insurgente - polêmica - e se espraia por mais de trezentas laudas, compondo seu mais extenso e mais denso ensaio. Refiro-me ao livro como ensaio, mas não posso perder de vista o hibridismo que lhe é característico. O pesquisador polonês Michal Obszyński identifica variadas formas neste texto: “o ensaio, o trabalho analítico, a narrativa autobiográfica e o poema em prosa23” (Obszyński, 2008, p. 9224). A esta enumeração, acrescentaria ainda o flerte do texto com a História, com a crítica, com a sociologia, com a antropologia, enfim, com as ciências que mobilizam a (pós)colonização, a escravização e as culturas em contato, temas caros ao texto de Chamoiseau. Escrever em país dominado consiste em um livro inquieto, que se bifurca em muitas direções, que se lança ao encontro com outras vozes, com outros textos, com outras cosmogonias.

Nesta perspectiva, a capa da edição da Bazar do Tempo, assinada pelo Bloco Gráfico, se torna primorosa. Nela vemos a reprodução da pintura acrílica sobre tela “Godorixá: Exu” do intelectual e ativista brasileiro Abdias do Nascimento (1914-2011). A obra faz parte do Museu de Arte Negra, cujo acervo está exposto no Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. O quadro de Abdias do Nascimento, pintado em 1970, em Middletown, durante seu exílio nos Estados Unidos, traz as cores fortes que caracterizam a pictografia do artista e ativista paulista: o vermelho, o preto e os tons terrosos. Nela se observa uma espécie de lanças ou flechas que irrompem de baixo para cima, atravessando o sol, cortando a paisagem. As lanças/flechas simbolizam as sete setas do orixá Exu, o que denota o poder de comunicação, dinamismo e abertura de caminhos. De maneira muito breve, as setas evocam o movimento, o progresso e o número sete diz respeito à expansão e às diferentes vibrações espirituais. Nas religiões de matriz africana, Exu evoca comunicação, movimento e equilíbrio, sendo um guardião. O orixá é símbolo de resistência política, comunicação e libertação da população negra. Exu subverte a ordem estabelecida, é insubordinado, perspicaz. Em um jogo de palavras com o título do livro, Exu trabalharia para implodir o país dominado, suas armas redesenham contextos, provocam levantes, rearrumam o jogo de forças e de poder. Em suma, Escrever é revolver o país dominado, confundi-lo, encará-lo (sob os auspícios dos antepassados e suas potências).

Gosto de pensar que Escrever em país dominado se tece de maneira cíclica, espelhando a espiralidade25 característica do Caribe. O ensaio apresenta um questionamento em sua epígrafe: “Jojo, esse velho guerreiro, me sussurra como única pergunta que importa: Teria o mundo uma intenção?” (Chamoiseau, 2025, p.9) e se inicia com uma série de perguntas: “Como escrever, se o teu imaginário se embebe, da manhã até os sonhos, de imagens, pensamentos, valores que não são os teus? Como escrever quando o que você é cresce fora dos impulsos que determinam tua vida? Como escrever, dominado?” (Chamoiseau, 2025, p. 13). Nas últimas linhas do ensaio, lê-se:

No coração dessas forças contrárias, busquemos construir nossas resistências, ou seja, nossos equilíbrios, para melhor guardar o espírito acima de nossa Terra, em sua ideia maravilhosa, tocada pelo rumor das Galáxias; e de lá, para nós mesmos, em um murmúrio de biguine lenta, fazer demoradamente a única pergunta que importa: TERIA O MUNDO UMA INTENÇÃO? (Chamoiseau, 2025, p. 297; grifos do autor)

Chamoiseau revela-se um ser atravessado por indagações e habitado pela ânsia de respostas: “Essas perguntas perseguiam minha escrita. Elas perturbavam o romance em curso, inquietavam meus projetos, paralisavam meus sonhos” (Chamoiseau, 2025, p. 17). No texto “O corolário das perguntas: a pesquisa, o literário e o enfrentamento26” (2024), de minha autoria, dediquei-me a analisar o papel das perguntas (no âmbito da pesquisa acadêmica). Naquela oportunidade, afirmei que o ato de perguntar estaria prenhe de curiosidade, de desejo de pôr em xeque o que nos afeta. E, assim, a formulação de uma pergunta se prestaria a melhor assentar o indivíduo em si e no espaço que o envolve, uma espécie de ordenação/desordenação que testemunha das complexidades e dos dilemas que nos transpassam. Em Escrever em país dominado, Patrick Chamoiseau apresenta uma quantidade superlativa de indagações: conta-se quase cento e trinta perguntas ao longo do ensaio. Elas balizam a entrada e a despedida do texto. Refiro-me à despedida e não ao final do texto justamente porque as perguntas protelam o fim, transformando a palavra final em dúvida que ecoará em ondas. Escrever em país dominado se constitui um texto que não termina, insistindo em burlar as premissas mais canônicas do gênero ensaístico. Ele procrastina o fim e se suspende, deixando no ar uma pergunta; a mesma, aliás, que já figurava ao longo do texto: aquela que interpela acerca da intenção do mundo. É importante darmos notícia de que a pergunta “O mundo tem uma intenção” circula na obra de Chamoiseau. Ela está presente, fazendo às vezes de epígrafe, nos livros L’Esclave vieil homme et le molosse27 (1997) e Un dimanche au cachot28 (2007).

É notório que as perguntas inquirem os leitores, implicando-os, provocando-os, compartilhando com eles dúvidas (retóricas ou não). Elas demonstram que escrever (em país dominado) exige certa provocação e a ousadia de querer, como brada a expressão idiomática, “colocar os pingos nos is”. A pergunta deflagrada traz para a superfície o desejo do embate, do acerto de contas, da revanche. Ela acua o dominador, mostra a valentia do dominado e permite a um dominado de compor coletividade com outros dominados que se reconhecem e se veem contemplados no corolário de perguntas. Na mesma direção, a antropóloga brasileira Lilia Schwarcz alega: “Dizem que perguntar é uma forma de resistir” (2019, p. 2429).

Em meu ensaio sobre as perguntas, explanei igualmente que os vínculos entre a indagação e a resistência mereceram a atenção do médico e intelectual martinicano Frantz Fanon nos idos de 1960. Em Os condenados da terra (2022[1961]), ele analisa os imaginários da relação entre colonizadores e colonizados e a postura deste último diante dos recuos do adversário: “[...] corre-se o risco de, a todo instante, ver o povo se perguntar, diante da menor concessão feita pelo inimigo, as razões do prolongamento da guerra30.” (Fanon, 2022, p. 138). O povo, cansado do combate prolongado, se indaga sobre a duração de seu engajamento bélico. Logo, cada questionamento carrega junto a si a possibilidade de romper um continuum, desencadear novas decisões, trazer à baila novas possibilidades, rearrumar a ordem que está posta. A assertiva de Fanon estreita os elos entre “risco” e “pergunta”, enfatizando a formulação desta como ação de potencial disruptivo. Neste contexto, os partidários do conflito armado deveriam desencorajar as perguntas, desarmá-las, esvaziá-las para que tudo permanecesse no rumo em que estava.

Patrick Chamoiseau coloca em prática um procedimento de vaivém entre seus textos que defendi como sendo ilustrações de sua “escrita espiralada” (Rocha, 2022). Para que se tenha uma ideia, Escrever em país dominado é referenciado pelo autor em obras como o romance autobiográfico À bout d’enfance31 e o ensaio O contador, a noite e o balaio, publicadas, respectivamente em 2005 e 2021. No caso desta última, é relevante pensarmos em como tal citação reinsere o ensaio em texto mais contemporâneo, reatualizando-o em alguma medida. Ao friccionar o ensaio a textos posteriores, o autor lhe confere novo fôlego apresentando-o a uma nova leva de leitores e criando uma rede relacional em seu universo de escrita. Em À bout d’enfance, a referência ao ensaio ocorre em nota de rodapé, propondo uma expansão da temática do vínculo do autor com os livros, sobretudo os guardados embaixo do guarda-roupas (Chamoiseau, 2005, p. 33). No ensaio de 2021, temos duas inserções: de início, ele repete a piscadela em nota de rodapé, convidando o leitor a aprofundar leituras sobre o Guerreiro e “as velhas identidades que ainda nos movem32” (Chamoiseau, 2025, p. 34). Em seguida, ele define Escrever em país dominado, “uma obra que esboça meu percurso de consciência33” (Chamoiseau, 2025, p. 40).

Como já mencionado, estamos às vésperas do trigésimo aniversário de Escrever em país dominado. Quando do aniversário de vinte anos de sua publicação, ao longo de uma entrevista, tive a oportunidade de propor que Patrick Chamoiseau formulasse uma espécie de balanço da publicação do livro e da maneira como suas principais temáticas tinham visto o passar do tempo. Estava curiosa para saber a opinião do martinicano sobre a atualidade de um ensaio tão emblemático. Estas foram as perguntas que formulei à época: “Em seu ensaio de 1997, Escrever em país dominado, você denunciou o sentimento de opressão silenciosa vivenciado por escritores caribenhos. Esse sentimento ainda está presente? Você ainda escreve em país dominado? Que mudanças você identifica mais de vinte anos após a publicação do livro?” Reproduzo na íntegra sua longa resposta:

Talvez não me caiba dizer quais são as mudanças. Talvez antropólogos, sociólogos… O problema é que na Martinica não temos um observatório independente. Sempre defendi um observatório sociológico que possa realmente observar a evolução das mentalidades e imaginações, etc. Temos um déficit muito, muito significativo em pesquisa interna, e isso nos coloca em desvantagem. Tenho intuições, mas não é assim que podemos realmente dizer como a Martinica está.

Outro elemento é que, em seus primórdios, a colonização sempre foi uma dominação brutal. Na minha infância, vi policiais antimotim, cassetetes, gás lacrimogêneo; vi conflitos muito violentos, reivindicações de independência para nações e línguas — tudo isso violência colonial. E então tudo se suavizou; nos tornamos um departamento francês, reconhecemos a língua crioula, e há até um programa de certificação em língua crioula em desenvolvimento. Percebemos que as coisas não são mais tão violentas, mas ainda existe uma influência generalizada, uma dominação ocidental. Uma mentalidade colonial persiste nas relações entre povos e civilizações a tal ponto que hoje nos falta soberania política. Não quero dizer que a soberania política seja necessariamente imprescindível nessas relações; não temos soberania, mas temos responsabilidades. É uma forma de violência que não é suficientemente explorada nos textos de Fanon, que são textos importantes que nos permitem compreender o fenômeno da dominação. Mas a colonização foi em grande parte violenta, com a forma de dominação que enfrentamos, com um motivo colonial oculto, um resquício do pensamento colonial; é uma forma muito mais insidiosa, muito mais sutil, atenuada pela ideologia neoliberal.

Tornamo-nos colônias do consumo, consumidores. Os indivíduos são cada vez mais autônomos na construção de si mesmos. Esta é uma outra realidade que nada tem a ver com o imaginário ou a estética que reinavam na literatura da descolonização e mesmo na literatura, que se manteve muito próxima da luta contra o colonialismo do passado. Nessa relação, tudo é novo. É um campo de batalha completamente novo. É por isso que me autodenomino um “guerreiro da imaginação”, para dizer que o problema não é mais a polícia de choque no fim da rua (claro que existem países onde isso ainda existe e continuará existindo). O problema é que a dominação se silenciou; são as nossas imaginações que são formatadas, transformadas, ressecadas ou organizadas segundo uma lógica que não é soberana, ou pelo menos não uma lógica que dependa de nós. Elas são organizadas em torno de uma lógica que depende dos dominadores. O Ocidente continua a dominar o mundo. Apesar das mudanças e da imprevisibilidade das relações, do surgimento de múltiplas presenças, da imprevisibilidade das trajetórias individuais, o mundo tornou-se mais crítico e o centro menos centralizado34. (Rocha, 202135)

Um mundo mais crítico e menos centralizado... É neste caminho que devemos compreender a ousadia de Escrever em país dominado.

Abril de 2026


Notas
  1. Às vezes grafada como La Favorite, é o local de residência do autor situado na comuna do Lamentin, a 9km de Fort-de-France, capital da Martinica.
  2. Em obras como Texaco (1992) e L’empreinte à Crusoé (2012), Chamoiseau amplia o procedimento, indicando também os marcadores geográfico e temporal do início da escrita, como vemos respectivamente: “Morne Rouge, Fort-de-France, La Favorite, agosto de 1987 / janeiro de 1992” (Chamoiseau, 1992, p. 497) e “Favorite, março de 2008 – julho de 2010” (Chamoiseau, 2012, p. 275). Tal iniciativa supre a curiosidade dos leitores acerca do processo de escrita da obra, iluminando o intervalo temporal de sua concepção. Através destas informações, temos notícia da velocidade de escrita de Chamoiseau, nos tornamos mais cúmplices de sua escrita graças ao acesso a (supostos) pormenores que não necessariamente deveriam nos ser destinados. Penso também que tal cumplicidade com o leitor depõe sobre o ofício de escrita enquanto labor árduo acalentado por um tempo bastante significativo. Além disso, ele testemunha do tempo de edição decorrido entre o ponto final no texto e o lançamento do livro.
  3. “Écrire la parole de nuit”. São de minha autoria as traduções para o português de textos referenciados em francês.
  4. LUDWIG, Ralph. (org.) Écrire la parole de nuit – La nouvelle littérature antillaise. Paris: Gallimard, 1994.
  5. A edição brasileira do ensaio está prevista para 2026, pela Editora 34, com tradução de Henrique Provinzano Amaral.
  6. A Guiana Francesa possui diferentes estatutos em sua realização com a França. É um departamento ultramarino (DOM), uma região ultramarina (ROM) e, do ponto de vista administrativo, uma Coletividade Territorial (CTG).
  7. “auteur majeur caribéen”
  8. BOURGINE, Caroline. Dictionnaire des Caraïbes – un itinéraire poétique. Fort-de-France: Caraïbéditions, 2023.
  9. “Je ne représente pas la Martinique, je ne représente pas la langue créole et la langue française, je ne représente pas la Caraïbe, je représente une expérience particulière d’un petit négrillon qui est né à Fort-de-France, en Martinique, dans une petite colonie et qui va construire sa présence au monde, son éthique, son esthétique à partir des éléments qui lui sont donnés. Les éléments de construction sont infinis, ouverts à la totalité monde et cette totalité monde n’est pas abordée avec un imaginaire à l’ancienne, archaïque, mais de manière relationnelle. Je me construis dans ce flux relationnel de manière complètement imprévisible, singulière, ce qui fait qu’on peut avoir un écrivain X qui est né en Martinique et un autre écrivain X qui est né en Martinique et les deux ont deux trajectoires différentes : on peut en avoir un qui à un moment donné décide d’écrire en espagnol et d’habiter en Allemagne et un autre qui se marie à Sainte-Marie et ne sort pas des mornes. Tout est possible, ce qui fait que chaque individu est seul, chaque œuvre aujourd’hui témoigne d’une expérience, d’une trajectoire relationnelle à une totalité-monde. À ce moment-là, il n’y a pas d’ambassadeur ou quoi que ce soit parce qu’ils ne sont plus des entités collectives.”
  10. ROCHA, Vanessa. Entretien avec Patrick Chamoiseau – 1ère partie. Pluton Magazine. Disponível em: https://pluton-magazine.com/2021/08/14/bresil-vanessa-massoni-da-rocha-entretien-avec-patrick-chamoiseau-1ere-partie/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=bresil-vanessa-massoni-da-rocha-entretien-avec-patrick-chamoiseau-1ere-partie
  11. “Nous faisons corps avec notre monde”
  12. BERNABÉ, Jean; CHAMOISEAU, Patrick; CONFIANT, Raphaël. Éloge de la Créolité – In praise of creoleness. Edição bilíngue. Paris: Gallimard, 1993.
  13. “Moi, créole américain, je chante les histoires contre l’Histoire. Je chante les mémoires contre la Mémoire”
  14. CHAMOISEAU, Patrick; HAMMADI, Rodolphe. Guyane, Traces-mémoire du bagne. Paris: CNMHS (Caisse nationale des monuments historiques et des sites), 1994.
  15. “Je suis disponible pour les sensations. Ma présence se fait émotion”
  16. GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversalidade. Trad. de Enilce Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
  17. “diversalité”
  18. “hors du Même et de l'un”
  19. “l'Universalité, la chance du monde diffracté mais recomposé, l'harmonisation consciente des diversités préservées”
  20. RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
  21. CHAMOISEAU, Patrick. Irmãos migrantes. Trad. de Prisca Agustoni. São Paulo: Editora 34, 2026.
  22. CHAMOISEAU, Patrick. O contador, a noite e o balaio. Trad. de Henrique Provinzano Amaral. São Paulo: Editora 34, 2025.
  23. “l’essai, de l’ouvrage analytique, du récit à valeur autobiographique et du poème en prose”
  24. Obszyńsk, Michal. Le poétique et l’idéologie. Écrire en pays dominé de Patrick Chamoiseau. Cahiers ERTA nr 1, 2008, p.91-96.
  25. A este respeito, sugiro a leitura do ensaio de minha autoria “A escrita espiralada em Patrick Chamoiseau”, publicado em 2022 no livro Caribe, Caribes: tessituras literárias em relação. O livro, organizado por Margarete Santos e Vanessa Massoni da Rocha, está disponível gratuitamente em https://loja.editoracrv.com.br/produtos/caribe-caribes-tessituras-literarias-em-relacao/?srsltid=AfmBOoq81nWyE1aoIla0F_DlB9me48ClOXcRECjXNTie4D18KOltJnAb
  26. ROCHA, Vanessa Massoni da. O corolário das perguntas: a pesquisa, o literário e o enfrentamento. In: Vanessa Massoni da Rocha. (Org.). Literatura em movimento - volume 16. 1ed. Rio de Janeiro/Niterói: Pangeia/EdUFF, 2024, v. 1, p. 9-22. Disponível em: https://editorapangeia.com.br/pt_br/product/ppg-uff-capes-literatura-em-movimento-pesquisa-e-investigacao-16-pdf/
  27. CHAMOISEAU, Patrick. L’Esclave vieil homme et le molosse. Paris: Gallimard, 1997.
  28. CHAMOISEAU, Patrick. Un dimanche au cachot. Paris: Gallimard, 2007.
  29. SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
  30. FANON, Frantz. Os condenados da terra. Trad. de Lígia Fonseca Ferreira e Regina Salgado Campos. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
  31. CHAMOISEAU, Patrick. À bout d’enfance – une enfance créole III. Paris: Gallimard, 2005.
  32. CHAMOISEAU, Patrick. O contador, a noite e o balaio. Trad. de Henrique Provinzano Amaral. São Paulo: Editora 34, 2025.
  33. CHAMOISEAU, Patrick. Op. Cit.
  34. “Les changements, c’est peut-être pas à moi de les dire. Peut-être des anthropologues, des sociologues… Le problème, c’est qu’en Martinique nous n’avons pas d’observatoire autonome. J’ai toujours plaidé pour un observatoire de sociologie qui puisse véritablement observer les évolutions de mentalités et d’imaginaires, etc. On a un très très grand déficit en recherche intérieure et ça nous pénalise. Moi, j’ai des intuitions mais ce n’est pas comme ça qu’on peut véritablement dire comment se porte la Martinique. L’autre élément, c’est vrai que la colonisation, dans les premiers temps, a toujours été une domination brutale. Dans mon enfance, j’ai vu des C.R.S, des matraques, des gaz lacrymogènes, j’ai vu des conflits très violents, des revendications d’indépendance de nations et de langues, tout ça était des violences coloniales. Et puis tout ça s’est adouci, on est devenu un département français, on a admis la langue créole, il y a même une agrégation créole qui est en train de se faire. On s’aperçoit que les choses ne sont plus aussi violentes mais qu’il y a quand même une prégnance, une domination occidentale. Il y a un esprit colonial qui demeure dans les rapports entre les peuples et les civilisations à tel point qu’aujourd’hui nous n’avons pas de souveraineté politique. Je ne veux pas dire que dans la relation il faille avoir nécessairement de la souveraineté politique, nous n’avons pas de souveraineté mais nous avons des responsabilités. C’est une forme de violence qu’on ne trouve pas suffisamment dans les textes de Fanon qui sont des textes importants qui nous permettent de comprendre le phénomène de domination. Mais la colonisation était très largement violente avec la forme de domination que nous affrontons, avec une arrière-pensée coloniale, un reste de pensée coloniale, c’est une forme beaucoup plus insidieuse, beaucoup plus subtile, atténuée par l’idéologie néolibérale. Nous sommes devenus des colonies de consommation, des consommateurs. Les individus sont de plus en plus autonomes dans la construction d’eux-mêmes. C’est une autre réalité qui n’a rien à voir avec l’imaginaire ou l’esthétique qui régnaient dans la littérature de la décolonisation et même dans la littérature, qui sont restées encore très proches de la lutte contre la colonisation ancienne. Dans la relation tout est nouveau. C’est un champ de bataille complètement nouveau. C’est pourquoi je me dis « guerrier de l’imaginaire » pour dire que le problème n’est plus le C.R.S au bout de la rue (bien sûr qu’il y a des pays où ça continue à exister et ça va toujours durer). Le problème est que la domination est devenue silencieuse, ce sont nos imaginaires qui sont formatés, transformés, desséchés ou organisés en fonction d’une logique qui n’est pas souveraine, en tout cas qui n’est pas une logique qui dépend de nous. Ils sont organisés autour d’une logique qui dépend des dominateurs. L’Occident continue de dominer le monde. Même si les choses sont en train de changer et que l’imprévisibilité de la relation, l’émergence de beaucoup de présences, l’imprévisibilité des trajectoires individuelles font que le monde est devenu plus critique et que le centre est moins centralisé.”
  35. ROCHA, Vanessa. Entretien avec Patrick Chamoiseau – 1ère partie. Pluton Magazine. Disponível em: https://pluton-magazine.com/2021/08/14/bresil-vanessa-massoni-da-rocha-entretien-avec-patrick-chamoiseau-1ere-partie/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=bresil-vanessa-massoni-da-rocha-entretien-avec-patrick-chamoiseau-1ere-partie

Vanessa Massoni da Rocha é professora de Literaturas Francófonas na graduação em Letras e na pós-graduação em Estudos de Literatura na Universidade Federal Fluminense. É autora dos romances Cama de gato (Editora Coralina, 2022) e Dias Porosos (Patuá, 2024).

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