Narrando nos limites da história: mulheres escravizadas e seus filhos

Por Maria Helena P. T. Machado

Durante os anos que pesquisei, analisei, planejei e escrevi a história de Geminiana, em parceria com Alê, permaneci, pode-se dizer, com as emoções à flor da pele. O desafio de escrever a trágica história de uma mulher afrodescendente, negra, escravizada (mais tarde, liberta) que perde dois filhos pequenos assassinados, como era a de Geminiana, exigiu que eu estabelecesse comigo mesma um compromisso íntimo e que eu definisse muitos limites e parâmetros.

Como havíamos, eu e o Alê, definido que havíamos de narrar a história dessa família com a máxima precisão histórica possível e a menor intervenção do jargão acadêmico, nos achamos em um território quase desconhecido. O objetivo era contar uma história, a qual, se bem conduzida e narrada, não necessitaria para ser compreendida de uma discussão teórica explícita. Narrar uma história, no entanto, nunca se limita a simplesmente contá-la. Urge constituí-la a partir de uma abordagem teórica e de um compromisso social.

O objetivo era que nossa leitora/leitor nos acompanhasse em uma narrativa que, ao contar a história de uma família, iluminasse os descaminhos da escravidão, da sujeição, da opressão e de suas resistências. Isso porque, por meio da narração da história de uma família de mulheres escravizadas e libertas, com seus filhos e filhas no momento do declínio da escravidão, contava-se a história da escravidão no Brasil e de seu entroncamento nos grandes movimentos da história global da expansão do capitalismo. A micro-história não serve apenas para contar a vida de determinadas pessoas ou grupos de indivíduos injustiçados socialmente, ela é muito mais ambiciosa. Ao enganchar as vidas vividas de pessoas anônimas nos grandes movimentos da história, ela permite o desvelamento dos grandes processos sociais em sua materialidade. Seria possível realizar tal tarefa? Como escutar as vozes daqueles que a história não pretendeu eternizar?

Não havia outra possibilidade que não a da pesquisa documental sistemática e a análise de texto minuciosa que permitisse localizar nas frestas do documento, que se apresenta ao historiador como um sólido edifício normativo, seus lapsos. Como historiadora, eu estava consciente das limitações da minha tarefa. Embora o caso de Geminiana e seus filhos oferecesse amplas fontes documentais, eu sabia que elas haviam sido escritas por homens detentores da palavra e do registro escrito, e que essa jovem mulher que tem seus filhos vendidos e assassinados só consegue ser ouvida se esgueirando por entre as páginas manuscritas, sempre dependendo da arrogância distraída dos detentores da tinta negra e do papel branco, para inscrever algo de sua versão do mundo. Embora estes agentes do poder do registro escrevessem sobre sua história, sobre seus filhos e sobre a tragédia que havia se abatido sobre sua família com o assassinato sob tortura de seus dois filhos pequenos, o interesse deles não era, de forma nenhuma, desvendar a história dela. Transformavam a tragédia vivida em uma narrativa guiada pela disputa política, construindo uma versão indiferente ao sofrimento, à morte e ao luto vivido por Geminiana, pela mãe dela, Simplícia, e, obviamente, desinteressada dos tormentos excruciantes a que foram submetidos os dois meninos, Inocêncio e Jacinto.

Mesmo assim, consciente dos meus limites, persegui quase obsessivamente cada detalhe dos volumosos documentos disponíveis, desfazendo e refazendo a estrutura normativa do processo criminal que oferece a base das informações sobre a história de Geminiana e de sua família. E a mesma coisa fez Alê. Como em um jogo de lego, no qual as peças que formam um castelo imponente poderiam servir para compor casas modestas, senzalas, pátios de igreja ou ainda as partes baixas dos sobrados senhoriais, formando alcovas onde viviam os escravizados e os animais de estimação. Tivemos que reconstruir a vida vivida nos lugares escondidos dos olhos do público e dos historiadores, que precisam buscar o contrapelo, o não-dito e o sugerido para se aproximar daquilo que não foi diretamente registrado.

Apesar de todos os esforços que eu e Alê despendemos em anos de trabalho, sempre soubemos que nossa tarefa se definia por um limite. Como escreveu Saidiya Hartman, se referindo a aspectos da escravidão que por sua violência física, social e simbólica brutais ultrapassaram todas as possibilidades de narração, permanecendo fora do que pode ser descrito, nosso desejo de tudo saber tocava as fronteiras do indizível.

Escrever Geminiana e seus filhos exigiu que encontrássemos parcerias. Amigas e amigos, colegas, alunas e alunos, pesquisadoras e pesquisadores de temas afins nos motivaram. É aqui que entra a editora: a Bazar do Tempo nos acolheu no companheirismo das autoras e autores que investem na aventura de desvendar territórios. O livro demorou para sair, mas saiu muito lindo. Foi com emoção que o recebemos e o colocamos no mundo. Foi com a mesma emoção que eu e Alê escrevemos. Se como intelectuais e pesquisadores, escrevendo uma história a partir de pontos de vista divergentes, nos preocupamos em nos manter nas bordas documentais, como pessoas, nos envolvemos: choramos e sofremos com Geminiana e seus filhos.


Maria Helena P. T. Machado é professora titular do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora da história social da escravidão e do pós-emancipação, com inúmeras publicações de livros e artigos. Pela Bazar do Tempo publicou, junto com Antonio Alexandre Cardoso, o livro Geminiana e seus filhos - Escravidão, maternidade e morte no Brasil do século XIX (2024), eleito o melhor livro do ano de 2025 pela Latin American Studies Association (LASA) e finalista do Jabuti Acadêmico 2025.

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