Um romance para dançar

Por Yuliana Ortiz Ruano

Tradução: Larissa Bontempi

A questão é a seguinte: imagino uma vida sem vida, mas não sem música. Também não imagino uma vida sem dança. Febre de carnaval é uma urgência narrativa da festa, com tudo que envolve a rumba em um território de fronteira às margens do Pacífico negro. Quis escrever a música, o ruído, os gritos. Quis narrar os corpos no encontro desmedido da celebração, a partir do olhar de uma criança perto do chão. Um corpo que presencia todos os acontecimentos erguendo o olhar por força de sua estatura; talvez por isso viva subindo nas árvores, para ter uma visão mais clara e ampla do mundo que a cerca.

Ainhoa, a narradora protagonista, sai sempre da cena para nos conduzir, do alto, ao verdejar das árvores e à loucura da linguagem da casa de sua mami/avó Nela. Um lar repleto de Mênades e desproporções que esmagam a cabeça dessa menina em flor, menina donzela, como o verso de Filomena, esse arrullo (canto) do norte de Esmeraldas.

Febre de carnaval é o sintoma físico do que a rumba faz no corpo e nas massas proletárias negras. É a febre que ativa questões essenciais do ser, como a pergunta de mami Linda Leida, na canção Tumba: “Yo no sé si es mi cintura la que alborota mi cuerpo o mi cuerpo que alborota mi cintura”. Este texto tenta responder a essas questões, importantíssimas por serem inúteis — quero me casar para sempre com tudo o que atrapalha a funcionalidade das coisas. No romance, quis me sentar e pensar todos os dias se é minha cintura que agita meu corpo ou meu corpo que agita minha cintura.

Quis uma escrita sobre o alvoroço, sobre o barulho desenfreado dos tambores. Sobre humanos que colidem como planetas com o fervor do son, da champeta e da aguardente. De corpos que choram e parecem dançar, que dançam e parecem chorar. E assim formam uma espiral macabra onde a festa adquire uma dimensão difícil de expressar em palavras, mas que se torna visível em perguntas como a de Linda Leida: é minha cintura que agita meu corpo ou meu corpo que agita minha cintura?

A intenção deste projeto é gerar uma imersão definitiva no seio da festa, como quando você está no meio de um baile e não consegue continuar dançando, mas a multidão em festa move seu corpo involuntariamente. Também reconheço o capricho de fundir tudo o que gosto em um único espaço. Quis que Febre de carnaval fosse um romance que se move por si só, que convide ao movimento e à loucura, mas também ao lado macabro da fúria festiva, onde se passa por cima dos corpos sem agência.

Este livro não é senão um rumbeke ambulante, caprichoso, onde a violência e a algazarra são duas faces da mesma moeda.

Uma tentativa de festa portátil para quem dança/lê a partir de uma cidade atravessada pelo narcotráfico e pela ocupação militar. É possível festejar nesse contexto? Sim, porque dançar é ouvir com os pés e suportar o luto perene.

Dancemos.


Sobre a autora
Yuliana Ortiz Ruano nasceu em Esmeraldas, Equador, em 1992. Graduada em Literatura pela Universidad de las Artes, é professora na Universidade das Artes do Equador e DJ de música afro do Pacífico. Febre de carnaval, seu primeiro romance, foi publicado pela Bazar do Tempo em 2024. Em 2023 recebeu o Premio IESS Primo Romanzo (Itália) e o Prêmio Joaquín Gallegos Lara, concedido pela municipalidade de Quito, na categoria de melhor romance do ano.

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