Por Julia Raiz
Comentário sobre traduzir Anne Carson traduzindo Sófocles
Eu perdi meu diário de tradução de Antigonick. Uma pasta cheia de arquivos de referência simplesmente sumiu do meu computador.
Baixei programas para tentar recuperá-la, assisti tutoriais.
Não dá para refazer um diário de tradução sem retraduzir o texto do mesmo jeito de antes.
Por isso o perdi para sempre.
Antigonick é uma tradução feita por Anne Carson de Antígona, de Sófocles.
Antígona foi encenada pela primeira vez quase 2.500 anos atrás.
Estou traduzindo um texto em inglês que é uma tradução do grego.
Não preciso de autopiedade.
Os estudos feministas da tradução me oferecem tipos diferentes de ferramentas, me agarro a essa ideia e a uso para desenterrar e enterrar corpos.
As ferramentas têm a ver com não querer entender tudo nem alguma coisa, mas outra coisa, fazer de outro modo. E nisso eu estou colada nas costas da Carson, assombrando ela como uma tradutora viva que tenta.
Carson não sabe que eu existo também nem eu gostaria de conhecê-la, para falar a verdade.
A pressão de ter que falar algo que preste me dá nervoso, prefiro assombrar.
Uma tradutora assombra a outra tradutora enquanto a traduz?
Essas ferramentas dos estudos feministas da tradução eu uso com o entusiasmo de alguém que nem sempre sabe o que está fazendo. Isso não é uma desculpa para não estudar, continuo estudando muito. Estou lendo agora mesmo um trabalho acadêmico sobre Antigonick.
O diário de tradução me faz falta.
Por sorte, fiz uma apresentação na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, a convite da professora Renata. Lá puxei um fio a partir do diário.
O fio é a triangulação entre as personagens Tradutora – Guarda – Mensageiro.
A linguagem inventiva do Guarda antecipa a previsão de Tirésias; um verso liga a Tradutora diretamente ao Mensageiro: vocês sempre exageram.
Uma chance para prestar atenção em uma tradução que se revela como tal e por isso faz pensar tradução, faz pensar o trabalho da tradutora, faz pensar o trabalho.
Do Mensageiro, do Guarda, da Tradutora, da Trabalhadora.
Minha formação marxista encontrando o Brecht de Carson e sua tradução feita para a cena.
Convidei Brenda, uma amiga poeta e atriz, para ler o texto inteiro enquanto eu escutava. O texto precisa caber na boca da atriz brasileira e ainda assim soar como tradução.
Carson posiciona uma expressão em inglês no núcleo duro da sua leitura de Sófocles: in the nick of time. Uma sinuca de bico para qualquer pessoa que fosse traduzir Carson para outra língua.
Uma pessoa chamada Nick, arapuca para deixar a tradução com cara de tradução.
“A tradução é inimiga da homogeneidade: tudo pode ser dito de maneira diferente.”
Escreve Nylcéa Pedra, a tradutora, junto com Nuria Barrios, a autora do livro A impostora.
E ninguém aqui está tentando apagar o fato de que o significado do nome de Antígona poderia ser traduzido de muitos outros jeitos.
Eu queria ter traduzido o nome de Antígona, de uma só vez, como “ao contrário de nascer” (como eu fiz) e “ao contrário de parir” (como eu não fiz).
O sufixo goné tem a ver com prole.
Antígona não vai parir nunca.
Não vai parir o neto de Creonte, isso é importante: a continuação da mistura suja entre famílias.
Creonte é um homem sem linhagem real.
É um homem contra a sujeira.
Ou a favor da limpeza.
Querendo manter a cidade limpa, ele a suja mais ainda.
Antígona querendo limpar o irmão, o suja mais ainda.
Ou seria o contrário.
Quem suja a pólis, os pássaros, o céu em tempestade, a linguagem?
Desde que traduzi o texto de Carson não consigo mais ver Antígona só como um “ícone de resistência contra poderes autoritários e tirânicos”.
Por quê?
Uma outra coisa surgiu.
Esse é o primeiro texto da Carson que eu li na vida.
Eu gostava de dizer que Antígona era uma “mulher em desobediência civil”.
E é, não é?
O que é essa outra coisa, então?
Brecht, camarada, quero entender mais do que a Carson viu na sua montagem.
Preciso de mais do que já sei sobre Antígona.
A tradição é o chão em que se pisa e é também a encosta que desliza caindo em cima da sua cabeça e então eu com Antígona: soterrada.
Antígona grita por sob os escombros.
Me anima reler Antígona contada pelo Guarda e pelo Mensageiro. Quero conhecer Antígona de novo pelas palavras deles. E pelos cantos monstruosos das aves abarbarizadas.
Penso na ave Lira Soberba que imita os cantos de outros pássaros e, também, o alarme de carro, o clique da câmera fotográfica, o barulho da motosserra.
Anacronia.
Carson, Lira Soberba, uma cauda em leque com dezesseis penas parece o instrumento lira que acompanhava os gregos no cantar da poesia.
Um vai e vem da ave com os sons do mundo, um vai e vem, uma dinâmica calorosa entre uma irmã viva e um irmão morto perturba a linguagem do Guarda e do Mensageiro.
Como escolho reposicionar o texto traduzido no Brasil hoje: um naco, uma lasca de aqui-agora que jogo com Carson na grande pira do texto de Sófocles, o fogo nem treme.
Mas diante do fogo, o cenário ideal para contar histórias.
Antígona, uma matriz derivadora de histórias perturbadoras que assistimos caírem de si sobre si mesmas.
A tradução da gramática de Sófocles: formulações insistentes ressaltando a reciprocidade reflexiva das relações.
Quando a sujeira recai sobre quem suja?
Quando a limpeza recai sobre quem limpa?
Talvez essa seja uma das confusões da tragédia: não saber que ao limpar se está sujando.
Sujeira, matéria fora do lugar, condição da tragédia.
DIRTY é como a Antígona de Carson chama a própria família.
Depois aparecem mais nove vezes a palavra DUST, o pó que cobre o corpo e o pó que cobre tudo depois da trovoada que nasce dos olhos de Antígona.
Tempestade de Zeus anunciada pelo Guarda.
E se não for uma questão de intencionalidade?
E se ela se senta separada dos demais não por quem ela é ou intenciona ser, mas pelo que ela é capaz de fazer?
Ela é capaz de fazer.
Isso eu não perdi, não se perdeu de mim em relação à Antígona.
Creonte não é capaz de fazer a tempo e por isso ele acaba bem mal.
Gosto de um texto em que o poderoso não é invejável.
Ninguém inveja Creonte no final.
No final é ele que se senta longe dos demais enquanto Antígona vai ser chamada para estar junto debaixo da terra.
Carson a chama para junto quando escreve uma carta-prefácio, fala com ela, que está morta.
É uma carta para uma morta.
Uma das tantas tarefas impossíveis.
Isso não me passa batido.
Também não leio como metáfora ou apenas como recurso narrativo.
É uma carta para Antígona.
Ela que é triplamente diferente na sua maneira de existir: como morta, como pessoa-personagem, como capaz de fazer.
Antígona no vai e vem caloroso com Polinices ↔ Carson no vai e vem caloroso com Antígona ↔ Sófocles no vai e vem caloroso com Carson.
Eu nessa dança das cadeiras.
Bonito Benjamin falando que a tarefa-desistência da tradução é dar sobrevida ao texto.
Imagino Anne no meu colo, ela não é bebê, é a mulher adulta de agora.
Apoia sua bunda ossuda nos meus joelhos.
Dou comida na sua boca com uma colher.
A comida é mingau de papel.
Palavras que eu escrevi, picotei e molhei com leite até virar uma papa.
Alimento ela com a minha tradução.














