Por Renata Cazarini de Freitas
Há uma forma de escrever que é um modo de falar, e Anne Carson fala um ensaio, fala uma crítica, fala um poema, fala uma tradução. Se afastamentos e aproximações a um modelo dão a real medida do que é novo, isso não é um dilema para a Carson tradutora de Antígona. Como ela declara na linha final da carta dirigida à personagem mitológica feita por Sófocles para o amor, não para o ódio, a tarefa da tradutora é “impedir que você um dia perca seus gritos”.
Desde a primeira, em 2017, já são sete edições em livro de suas obras no país.1 Chega a oitava, que a intelectual canadense chama de tradução, sem convencer a todos. Assim, Antigonick é classificada por especialistas como uma recriação adaptativa (Gonçalves; Nascimento 2019: 81), um comentário da tragédia em forma dramática (Duarte 2022: 15) e, mais livremente, adaptação, reinvenção, reescrita.
O poeta e tradutor Paulo Leminski (1944–1989), que recriou Ovídio na sua Metaformose e colocou seu DNA na migração do latim ao português do Satyricon, de Petrônio, encarava traduzir de uma língua para outra como apenas um caso particular de tradução. Para ele, também levam o rótulo “tradução” as aproximações, como a paródia, a paráfrase, a adaptação e até a diluição de um protótipo em quase-similares (Leminski 2012: 285).
Nos versos livres, em mais de um sentido, de sua Antigonick, Carson inova com a persona muta Nick fazendo medições em cena, testemunha ininterrupta do que se passa no palco. Nada mais se sabe dele além do apelido (aliás, nickname, em inglês) de um Nicholas qualquer, sufixado ao nome da protagonista. Nomes importam para Carson.
As duas primeiras anotações de O método Albertine focam nesse nome próprio, com mais de duas mil ocorrências no romance de Marcel Proust, ainda que sendo incomum para uma menina francesa. Em “A tarefa da tradutora de Antígona”, que prefacia a tragédia traduzida, Carson recupera a etimologia de Ἀντιγόνη (anti / ἀντί / contra; goné / γονή / nascimento), para lançar a questão: “o que existe em vez de nascer?”, como se o nome negasse a própria existência.
Discutindo a prática tradutória no ensaio “Variações sobre o direito de permanecer calado”, o silêncio se apresenta tão importante quanto a palavra. Há dois tipos de silêncio, propõe Carson: o físico, exemplificado pela poesia fragmentária, portanto lacunar, de Safo; e o metafísico, intrínseco à palavra divina confiada em segredo. O exemplo é “móli” (μῶλυ), da Odisseia de Homero (canto 10, verso 305), planta medicinal sem contrapartida terrena dada por Hermes a Odisseu como antídoto para os feitiços de Circe: “Temos aqui quatro letras do alfabeto; podemos pronunciá-las, mas não podemos defini-las, nem possuí-las, nem empregá-las” (Carson 2023: 155).
O que fazer, então, das quatro letras de “nick” para que não se perca a palavra no silêncio? Nick é o grito mudo da tradução de Carson. O onipresente Nick mede distâncias e pessoas, como se vê na leitura dramatizada com a própria Carson no papel coletivo do coro de anciãos tebanos. Nick é também o momento oportuno, a ocasião exata, a hora H: “the nick of time”, que realmente consta da peça clássica (Ant. 386: εἰς δέον). Creonte é o sujeito que Sófocles associa à sincronia-simetria usando o termo ξύμμετρος tanto na Antígona quanto no Édipo Tirano. Daí surge Nick. Nessa fenda espaço-temporal, a tradutora se assume dramaturga.
Leitura dramatizada de Antigonick:
https://channel.louisiana.dk/video/anne-carson-performing-antigonick
No mesmo ensaio sobre a prática da tradução, Carson toma o julgamento de Joana D’Arc como um estudo de caso, observando que as vozes relatadas pela mártir, oralizadas em francês médio, foram transcritas em discurso indireto por um notário e vertidas ao latim jurídico por um juiz. Assim, a palavra divina segredada a Joana é tragada no processo judicial.
Cabe o paralelo com Antígona, que guarda os preceitos divinos acima das leis dos homens e cujo grito a burocracia de Estado em Tebas quer suprimir por meio de um decreto de Creonte, tal como ele “pregou todas as línguas no chão”, idiomatismo inglês mantido pela tradutora Julia Raiz em toda a sua visualidade.
Acredite: Carson concebeu Antigonick como história em quadrinhos, mas considerando impossível a missão de elaborar cinco mil desenhos, voltou para a lida com as palavras e chegou à versão que ela mesma chama de “anacrônica e acelerada”. Veio depois uma segunda tradução da mesma peça, encomendada para o teatro comercial.
Anne Carson sobre traduzir Antígona:
https://soundcloud.com/aragiauthors/anne-carson-on-translating-antigone-for-ivo-van-hoves-bam-production
Sobre a autora
Renata Cazarini de Freitas é professora de Latim e Literatura Latina na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), onde atua também na Especialização em Cultura, Língua e Literatura Latina (Lato Sensu) e no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura (Stricto Sensu). Traduziu do latim obras de Sêneca para a Editora Vozes. Pesquisa e orienta trabalhos sobre a recepção dos clássicos greco-romanos no teatro, cinema, quadrinhos, música e literatura contemporânea. É autora do blog Palco Clássico, onde comentou a recente montagem de Autobiografia do vermelho.
Referências
1 O método Albertine (2017); Autobiografia do vermelho (2021); Eros: o doce-amargo (2022); Falas curtas (2022); Sobre aquilo em que eu mais penso (2023); A beleza do marido (2024); Vidro, ironia e deus (2026).
CARSON, Anne. O método Albertine. Tradução de Vilma Arêas e Francisco A. Guimarães. São Paulo: Edições Jabuticaba, 2017.
CARSON, Anne. Sobre aquilo em que eu mais penso: ensaios. Tradução de Sofia Nestrovski. São Paulo: Editora 34, 2023.
DUARTE, Adriane da Silva. "Sobre a Antígone". In: SÓFOCLES. Antígone. São Paulo: Editora Madamu e Casa Guilherme de Almeida, 2022.
GONÇALVES, Rodrigo Tadeu; NASCIMENTO, Julia. "A tradutora e o diálogo intermidiático em Antigonick de Anne Carson". Classica, v. 32, n. 1, p. 79–91, 2019.
LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. 2. ed. ampliada. Campinas: Editora Unicamp, 2012.
SÓFOCLES. Antigone. Edited by Martin L. D'Ooge. Boston: Ginn & Co., 1893.




