Por Clarisse Escorel
Minha avó paterna adorava Natal. Todo ano organizava um grande almoço no dia 25. No início de dezembro dava início aos preparativos me convidando para montar a árvore. Abríamos juntas caixas e caixas de enfeites com as mais diversas origens acumulados ao longo da vida. Depois disso, arrumávamos o presépio, instalado na entrada de casa. Era lindo o presépio que ele montava, supercaprichado: reis magos pintados à mão com capas multicoloridas, bichinhos de madeira, palha dentro da manjedoura. Terminávamos o nosso ritual com a estrela azulada no alto da árvore e o enfeite da porta.
Dona Sarah, mãe do meu pai, comprava presentes para toda a família: três filhas, dois filhos, respectivos genros e noras, netos, bisnetos. Embrulhava, um a um, com papel celofane colorido. Envolvia os embrulhos com fitas e escrevia o nome do presenteado numa etiqueta branca. O cardápio era sempre o mesmo e ai dela se ousasse mudá-lo. Nas vezes em que cogitou tal possibilidade houve protestos veementes. Peru, fios de ovos, farofa de miúdos, farofa de cebola, arroz branco soltinho, salada, empadão de camarão. De sobremesa, bolo de nozes com recheio de baba de moça e cobertura de glacê, torta de maçã quente, rabanadas, sorvete e cerejas.
Na casa dos meus pais nunca houve festa no Natal. Pinheiro, acho que só uma vez depois que eu e minha irmã fizemos uma campanha intensa. Minha mãe cedeu àquela “bobagem alienígena” e surgiu com uma árvore prateada horrenda. Conformadas com aquela releitura futurista, tão distante da árvore idealizada por nós, customizamos flocos de neve salpicando bolinhas de algodão e demos o caso como encerrado. Na verdade, houve outro Natal com direito a árvore. Estávamos na casa dos meus avós maternos em Poços de Caldas quando baixou uma inspiração divina – talvez um lampejo de espírito natalino – e minha mãe apareceu com um pinheiro natural maior que ela. Decoramos com bolinhas azuis, verdes e cor de rosa. Ficamos tão maravilhadas diante daquela árvore “a la Quebra-nozes” que no dia 25 acordamos ainda no escuro para ver se os presentes já tinham chegado. Levamos uma bronca da qual minha mãe se arrepende até hoje. Na casa dos meus pais não havia rebuliço na cozinha, decoração, ceia ou almoço. O Natal se resumia à materialização dos presentes ao lado das nossas camas na manhã do dia 25.
Talvez por conta dessa conjuntura, avó festeira de um lado, “pais geração 68 que não ligam para datas em geral” do outro, cresci fanática por Natal – por datas festivas como um todo – e por tudo o que ele pressupõe: estar com pessoas queridas, crianças correndo pela casa, boa comida, árvore enfeitada, presentes, verde e vermelho em excesso.
Eu não tinha completado dez anos quando a avó festeira mudou de casa. Fui conhecer o novo apartamento, menor do que o anterior, antes da mudança e logo detectei o problema. Entrei, passei os olhos pela sala e perguntei: “Mas onde é que vai ficar a mesa do Natal?”.
Minha avó foi ficando velhinha e desanimou. Nos últimos anos de vida cancelou o Natal. Me deu de presente os enfeites e as receitas. Peguei o bastão e transferi o almoço do dia 25 para a minha casa. Convidava a família toda. Árvore até o teto, enfeite na porta, peru, farofa, cereja, presentes. Foram tardes muito animadas. Quentes e animadas. Meus filhos, então pequenos, adoravam e lembram até hoje desses natais.
Com a morte dessa avó a família se dispersou e o almoço de Natal acabou de vez. E agora. Onde vai ficar a mesa do Natal? É o que me pergunto todo ano quando me dou conta de que já estamos em dezembro.
Clarisse Escorel é escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul), e lançará em 2026 seu primeiro romance, Sudoeste, pela Bazar do Tempo.










