Por Pedro Duarte
Falar da Bazar do Tempo é também falar da Ana Cecília Impellizieri Martins, sua fundadora e editora. Eu a conheci ainda quando ela trabalhava na Casa do Saber. Fiquei surpreso e feliz com a confiança que ela depositou em mim para dar aulas ali, quando eu era muito jovem. Vejo hoje que a confiança no que está começando é uma característica da Ciça. Ao longo do tempo, mesmo antes da Bazar, ela editou livros meus e se tornou uma amiga.
Parece-me que a amizade, ao invés de ser apenas a pessoalidade que a crítica sociológica por vezes apontou no Brasil, é uma ética capaz de tecer redes de contatos para ideias e práticas sem respaldo no mundo. Livros são exemplos disso, editoras pequenas também; daí os prognósticos sobre seu fim, aos quais, ainda bem, falta confirmação. Em meu caso, essa rede foi mediada pela figura-chave para a Bazar que é Eduardo Jardim, amigo da vida e autor de livros excepcionais editados pela Ciça. Quem não os leu, que o faça logo!
Livros são portadores de ideias, e a Bazar do Tempo sabe disso, especialmente quando se trata do mundo contemporâneo. Em 2020, no começo da pandemia de Covid-19, a editora convidou-me para escrever uma breve crônica sobre o que se passava. Eu, a partir dali, tive vontade de fazer um livro, proposta aceita pela Ciça. A pandemia e o exílio do mundo mistura o depoimento pessoal com a filosofia especulativa, passando pela canção popular e pela poesia, para entender aquela nova experiência da história na qual, apesar da doença e do isolamento, a vida resistia vivida em sua finitude.
Mais tarde, essas impressões desdobraram-se conceitualmente no livro Parar para pensar: temas de filosofia após a pandemia, que apontou como aquele momento definiu os desafios do século XXI para nós, por exemplo, sobre tecnologia e ecologia, exigindo coragem.
Minha participação na Bazar do Tempo teve ainda outras duas faces. Uma foi como tradutor, quando, junto a uma ótima equipe, pude verter para o português Pensar sem corrimão, livro de ensaios de Hannah Arendt cujo título anuncia o desafio atual: caminhar num mundo sem o auxílio seguro dos conceitos da tradição.
Outra foi como organizador do livro Objeto não identificado: Caetano Veloso 80 anos, reunindo ensaios e depoimentos sobre a obra do cantor e compositor no ano de seu aniversário, que apontavam desde sua dimensão metafísica até sua visão sobre o Brasil.
Hannah Arendt foi a pensadora mais importante da minha formação e Caetano foi o canto que constituiu minha sensibilidade na vida. Só posso agradecer a Bazar do Tempo pela oportunidade de fazer esses livros.
E podemos, todas e todos, agradecer a Bazar do Tempo por tornar disponíveis materiais tão preciosos como esses, recentemente com ênfase para duas vertentes de nosso tempo: a produção política e intelectual do feminismo e a reflexão sobre a natureza em meio à crise ecológica – a serem tomadas não como nichos, e sim como diálogos que caracterizam a existência de livros no mundo.
Como canta Caetano, “os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor tátil que votamos aos maços de cigarro”. Que possamos amar a transcendência das ideias na matéria tátil dos livros!
Pedro Duarte é doutor em filosofia na PUC-Rio e professor na mesma instituição, pesquisador do CNPq e da Faperj. Ocupou a Cátedra Fulbright de Estudos Brasileiros na Emory University (2020) e foi Professor Visitante nas Universidades Brown (2004/2006) e Södertörn (2012). É organizador e tradutor do livro Liberdade para ser livre (2018), de Hannah Arendt, publicado pela Bazar do Tempo. É autor dos livros A pandemia e o exílio do mundo (2020), Objeto não identificado - Caetano Veloso 80 anos (2022) e Parar para pensar (2025).






