Combo Por que política?
Este combo reúne obras fundamentais para pensar os desafios do presente: da análise da ascensão dos ódios políticos à potência dos feminismos favelados; da crítica ao colonialismo à reflexão sobre a liberdade e os usos da lei; até o convite de Nossas cabanas para imaginar novas formas de vida em comum. Juntos, esses livros oferecem um arsenal teórico e político para compreender as fraturas sociais e construir alternativas coletivas.
Ódios políticos e política do ódio
Ana Kiffer e Gabriel Giorgi
Lutas, gestos e escritas do presente
Na última década, com o crescimento da extrema-direita em boa parte do mundo, o sentimento do ódio adquiriu uma nova centralidade, substituindo o pacto civilizatório e instituindo a necropolítica em formas de racismo, violência patriarcal, sexismo e classismo. No entanto, o ódio é também uma complexa constelação afetiva que atravessa desejos emancipatórios, criativos e potentes presentes em nossas sociedades e insurgentes através dos discursos e práticas contemporâneas manifestas nos movimentos negro, periféricos, indígena, feminista, entre outros. Distinguindo ambas as formas contemporâneas do ódio, encontram-se nesta edição duas leituras complementares, que se iluminam mutuamente, de Ana Kiffer e Gabriel Giorgi, compondo um diálogo entre as diferentes lutas, gestos e escritas que se inscrevem através do ódio no cenário político contemporâneo.
Contra o colonialismo
Simone Weil
O pensamento engajado da filósofa francesa Simone Weil (1909–1943) é apresentado neste livro em duas séries de textos contendo sete ensaios inéditos em português sobre a questão do colonialismo, problemática que se impõe de forma central no debate contemporâneo. Refletindo sobre as condições de vida das populações oriundas das colônias francesas, a autora desafia os pilares fundamentais da cultura humanista de seu país, como a liberdade e a igualdade, numa contribuição inestimável para o pensamento contemporâneo desde o século XX.
Nos cinco artigos da primeira parte, a autora analisa, em tom combativo, o contexto de opressão, desenraizamento, violência e exploração vivido pelos colonizados, elaborando uma dura crítica à França da Frente Popular na esperança de ver surgir uma revolta do povo francês como resposta à situação colonial. Na segunda parte, em dois artigos escritos na iminência da Segunda Guerra, Simone Weil trata de forma premonitória da necessidade da resistência frente ao avanço da Alemanha. Reflexões atemporais sobre os povos e suas liberdades inegociáveis.
Feminismos favelados - uma experiência no Complexo da Maré
Andreza Jorge
O feminismo se materializa no Brasil a partir dos anos 1910, junto à fundação do Partido Republicano Feminino, encampada por Leolinda Daltro, se expandindo no século XX na luta por igualdade entre homens e mulheres, com pautas como direito à cidadania, liberdade e ao trabalho.
As heranças da colonização e da escravidão, no entanto, aprofundaram desigualdades para além daquelas de gênero; elas são também de ordem econômica, habitacional, educacional, e estão encarnadas, sobretudo, na vida das mulheres negras e afro-indígenas que chefiam famílias nas favelas brasileiras.
Nesse contexto, Andreza Jorge analisa as experiências de mulheres no ambiente do Complexo da Maré, conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro, mobilizando o conceito de “escrevivência corporal” e articulando relações comunitárias e ancestralidades. A abordagem, que une um consistente repertório conceitual à análise empírica do projeto de dança Mulheres ao Vento, se apresenta como um manifesto que reivindica a inclusão de pautas e vivências faveladas na agenda feminista para a construção de um feminismo inclusivo, plural e engajado.
Liberdade para ser livre
Hannah Arendt
Tradução e apresentação: Pedro Duarte
Tradução dos textos adicionais: Luciana Villas-Boas e Beatriz Andreiuolo
É bem conhecida a sentença de Hannah Arendt segundo a qual a liberdade é a razão de ser da política. Raras vezes, no entanto, ela falou de forma tão sintética e penetrante a esse respeito quanto na palestra “Liberdade para ser livre”, redigida em meados dos anos 1960.
Aqui, mais uma vez, a experiência das revoluções é tomada como ponto de partida da análise da pensadora alemã. Mesmo que as revoluções tenham deixado de ser frequentes entre nós, a reflexão de Hannah Arendt sobre elas é permeada de comentários que não envelheceram. Deve-se notar sua condenação das intervenções militares, que, até quando bem-sucedidas, em casos isolados, teriam sido incapazes de preencher o vácuo de poder, uma vez que nem mesmo a vitória substituiria o caos pela estabilidade, a corrupção pela honestidade, a decadência pela autoridade ou a desintegração pela confiança no governo. Nada legitima o poder, a não ser a política.
Contudo, até na ausência da política, homens e mulheres podem, pela simples presença no mundo, encarnar seu significado. Tempos sombrios contam com algumas iluminações, como aquelas vindas dos pensadores Waldemar Gurian e Karl Jaspers. Os textos sobre eles incluídos neste volume dão testemunho dessa visão. Ambos inéditos no Brasil, assim como a atualíssima análise sobre a liberdade. Uma reflexão essencial para o momento em que buscamos entender os sentidos da política.
Uma lei para a história
Simone Veil
Em 24 de novembro de 1974, Simone Veil, então ministra da Saúde, discursou na Assembleia Nacional francesa colocando em votação a legalização do aborto, que naquela época obrigava cerca de 300 mil mulheres a procurarem saídas clandestinas, humilhantes e perigosas para interromper a gravidez indesejada. Com o discurso apresentado em Uma lei para a história – A legalização do aborto na França, livro publicado pela primeira vez no Brasil, Simone Veil garantiu esse importante direito às mulheres na França.
Siderar, considerar
Marielle Macé
Tradução e apresentação: Marcelo Jacques de Moraes
Marielle Macé se lança, a partir das experiências recentes da crise migratória na França, em uma reflexão sobre a precariedade da existência desses homens e mulheres sem lugar, costurando um pensamento entre os domínios da literatura, da filosofia, da poesia e das ciências sociais. Diante desse cenário contemporâneo, a autora opõe duas posturas: a de siderar, ser acometido de estupor e imobilização diante do terror, e a de considerar.
Como caminho possível para a construção de uma vida comum, de um “nós”, Marielle reivindica uma atenção e um cuidado em relação a essas formas de vida. É o que pode então ser resumido no movimento de considerar: olhar atentamente, ser delicado, prestar atenção, levar em conta, tratar com cuidado antes de agir e para agir.
Nossas cabanas
Marielle Macé
Tradução: Isadora Bonfim Nuto
Depois de Siderar, considerar: migrantes, formas de vida, de 2017, Marielle Macé retomou, numa perspectiva mais ampla, o esforço de referir e reverberar ideias e estratégias para enfrentar nosso “mundo degradado” e imaginar novas maneiras de vivermos nele, novas possibilidades de constituirmos laços, ou “nós”, mais ou menos estreitos, com os demais viventes.








