Por Heloisa Teixeira
Todo o resto é muito cedo, quinto livro de Luiza Mussnich, me pegou pelo pé. Li rápido. Reli. Além de me encantar, essa poesia me intrigou. Me seduziu, particularmente, uma certa obsessão, não compulsiva, mas reflexiva, para o inventariar, enumerar, guardar, prender e o listar, uma marca que atravessa todo o seu livro anterior, Tudo coisa da nossa cabeça. Listar teria a ver com o medo de perder o tempo das coisas, teria a ver com a pergunta: que espaço é o espaço que temos? Metafísicas à parte, as listas de Luiza são memoráveis. Este listar prende a leitora que espera, com ansiedade, alguma coisa que nem ela sabe o que é. Mágico. Sobre o que falam essas listas que se fazem e se desfazem com a intervenção do humor?
Todo o resto é muito cedo trabalha a estrutura do inventário de forma menos evidente. Mas o listar está lá. Vejo Luiza, a poeta, ansiosa, sempre atenta, registrando sinais, tensões de seu próprio espaço de amar, andar, viver. Diz um verso: “Toda minha obra/seria baseada/nas canetas largadas às pressas em Chernobyl”. Ela quer reter o tempo mesmo sabendo que o está afastando. E lança mão de uma poesia urgente que anota, que reescreve, que despista o tempo todo o que é importante e o que não é.
Estávamos em tempos de pandemia. Similares ao tempo das guerras. Esses poemas falam do sentimento de guerra. Como em Chernobyl. E tempos incertos são tempos de fazer balanços, listar memórias, projetar listas de possibilidades acumuladas. Ponto alto: a procura de dizer a paixão, expressar esse sentimento tão instável e intimidante como a própria poesia. Luiza mostrou, claramente, que tem instrumentos para dar conta disso. Reconheço ali traços de poetas da minha geração como Chico Alvim, Ana Cristina, Paulo Leminski, finos tradutores de seu (nosso) tempo. Hoje, lendo Todo o resto é muito cedo, me encanto com a originalidade e a expertise poética de Luiza que traduz o seu tempo de maneira perspicaz.
*Texto de orelha da edição do livro publicada em agosto de 2024












