O encontrado-perdido - Sobre Mário Cesariny de Vasconcelos

Por Maria Silva Prado Lessa

Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em Lisboa, em 1923, e lá mesmo faleceu, em 2006. Figura de proa na organização do Surrealismo português, é percebido, hoje, como o mais expressivo nome ligado ao movimento, em cuja obra se destaca a heterogeneidade de campos de atuação. Sua intensa produção escrita, atravessando a poesia, o teatro, o ensaio e a tradução, teve início na década de 1940 e fez-se, sempre, em simultâneo à atuação no campo das artes plásticas.

É possível datar a estreia pública de Cesariny na I Exposição dos Surrealistas, em 1949, em Lisboa, evento que precedeu em poucos meses a primeira edição em livro de sua poesia, com a publicação de Corpo visível, em 1950.1 O lançamento de seus livros fez-se acompanhar, assim, da participação em exposições coletivas e individuais. Foi sua obra plástica, aliás, que proporcionou a primeira aparição “oficial” de Cesariny no Brasil, a convite de Sergio Lima, durante a I Exposição Surrealista — XIII Exposição Internacional do Surrealismo em São Paulo, em 1967.

Alguns anos antes da estreia artística, Cesariny havia iniciado sua trajetória como colaborador no jornal A Tarde e nas revistas Seara Nova e Aqui e Além, com o que descreve como “artigos bastante maus” de crítica de arte. O interesse que então demonstrava pelo pensamento crítico voltado para um campo expandido das artes se refletirá, ao longo de sua trajetória, não apenas numa obra em que se cruzam práticas múltiplas, como também no empenho na organização de exposições em diálogo com o Surrealismo dentro e fora de Portugal.

O pendor crítico e ensaístico ressoa na organização de livros como Antologia surrealista do cadáver esquisito (1961), Surreal/Abjeccion-ismo (1963), A intervenção surrealista (1966) e Textos de afirmação e de combate do Movimento Surrealista mundial (1977), nos quais se evidencia a vontade de manter acesa a ideia de que o Surrealismo pulsa e está na vida, e não guardado “nas galerias de arte e nas estantes das bibliotecas boas”.

Desde o princípio, a obra múltipla que desenvolveu foi marcada pelo hibridismo de técnicas e linguagens. A partir de meados dos anos 1980, dedicou-se mais detidamente à atividade plástica, abandonando progressivamente a escrita de poesia e a edição de livros de poemas, ampliando, porém, a produção poética por meio de outros materiais, como os poemas-colagem e os pictopoemas.2

Em 2002, já com 79 anos, Cesariny foi contemplado com o Grande Prémio EDP, reconhecimento tardio da unidade de uma obra à qual se dedicara por mais de meio século. Críticos como João Lima Pinharanda insistem que “Mário Cesariny não se entenderá, se não juntarmos os dois universos, palavra e imagem”,3 enquanto Bernardo Pinto de Almeida caracteriza sua produção como “um todo absoluto”.4

A publicação de seus poemas tem uma história acidentada e tortuosa, especialmente problemática para aqueles que creem na possibilidade de uma organização definitiva da obra. A sucessão de livros, recolhas e reedições revela um constante movimento de migração de poemas, alterações textuais e reorganizações estruturais, tornando impossível falar em uma versão final e estável.

Como assinala Perfecto E. Cuadrado, “lidar com a obra de Mário Cesariny equivale a penetrar e a se perder num labirinto de danças e mudanças de palavras, versos, fragmentos, poemas e até livros inteiros”.5

Essa instabilidade estrutural não deve ser vista como falha, mas como elemento constitutivo de sua poética. Separar sua produção em categorias fixas — poesia, pintura, ensaio, tradução — seria não apenas impreciso, mas violento. Mário Cesariny merece, como sugere este texto, um livro impossível: um livro-vida.

* Texto publicado como apresentação do livro O navio de espelhos — Antologia poética, organizado por Maria Silva Prado Lessa e lançado pela Bazar do Tempo em 2024.


Notas

  1. Cesariny de Vasconcelos, Mário. Corpo visível. Lisboa, 1950. ↩︎
  2. Cf. Uma combinação perfeita (1995) e Tem dor e tem puta (2000). ↩︎
  3. Pinharanda, João Lima. Escritos críticos sobre Mário Cesariny e o Surrealismo português. ↩︎
  4. Almeida, Bernardo Pinto de. “Um todo absoluto”. In: textos críticos sobre a obra de Mário Cesariny. ↩︎
  5. Cuadrado, Perfecto E. Estudos sobre a obra de Mário Cesariny. ↩︎

Maria Silva Prado Lessa é Professora de Literatura Portuguesa da FFLCH/USP e doutora em Literatura Portuguesa pela UFRJ.
Mário Cesariny é o grande nome do Surrealismo em Portugal. Desenvolveu uma obra múltipla na qual se cruzam práticas diversas, tais como pintura, colagem, poesia, escrita, ensaio, teatro e crítica de arte.

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