Os afetos e os livros

Por Ana Kiffer

Vou começar pelo fato mais recente: acabo de encontrar, na pequena caixa de correios do meu prédio, a agenda feminista 2026 do Clube F da Editora Bazar do Tempo. Penso na imensidão de mulheres que vêm participando dos encontros do grupo há 5 anos. Penso na quantidade de escritoras que não ouviria assim, de forma tão íntima e tão próxima das nossas questões se as mãos de tantas de nós – a equipe editorial da Bazar, as leitoras, as pesquisadoras e as escritoras brasileiras - não estivessem ali presentes – todas em uma só, uma só em todas. Abro a agenda e leio: “Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda”, Nise da Silveira.

De 2026 sou transportada ao início dos anos noventa quando, na faculdade de psicologia, líamos Nise, víamos Nise, ouvíamos Nise em sua casa cheia de gatos. Me lembro do impacto de ter visto Rubens Correa representando, no Teatro Ipanema Antonin Artaud, e do livro que depois escreveu com Nise, Lucchesi e Milton Freire: Artaud, a nostalgia do mais (Numen Editora). Muitos anos depois vou para a França para estudar, no doutorado, a obra de Artaud.

E agora, abrindo essa agenda, deixada na minha caixa de correios, vejo algo que nunca havia visto, me fazendo puxar um fio impensado: a Bazar, a Ciça – como ela gosta que a chamemos – não nos deixa arriar a cabeça, há algo nessa editora, nesse corpo editorial, que não somente publica mulheres, mas que nos faz sonhar mais, desejar mais, acreditarmos que podemos ser mais. Incidindo sobre o cuidado com as nossas feridas profundas, todas temos. Umas mais, outra menos, talvez. Mas o ponto não é esse.

O ponto é que juntas podemos reverter, somos nós as alquimistas, sempre fomos as feiticeiras que transformavam pedra em sabão, dor em potência, experiência em imaginação, pois essa é a nossa realidade, a nossa força, a transmutação a mais profunda. Não são necessariamente os sonhos cor-de-rosa com os quais quiseram nos pintar. São todas as possibilidades, todas as cores. Levando em conta que a cor - da pintura à racialização dos corpos - como nos ensinou Anne Lafont n’ A Arte dos mundos negros – história, teoria, crítica (livro publicado pela Bazar do Tempo), cria um mundo no qual a maior parte das mulheres, a começar pelas mulheres negras, foi simplesmente descartada. A Bazar olha para tudo isso como quem mexe no caldeirão do nosso tempo, buscando participar da pergunta cotidiana e ainda sem resposta: como reparar o irreparável?

Foi assim também o meu primeiro encontro com a Editora, quando ela me buscou para perguntar o que andava pensando, era 2018. Andava pensando em meter a minha mão no caldeirão do presente e buscar como diferir ódios, como entender as multipartições de um Brasil que se pensou sempre em harmonia e paz, e que ali era, mais uma vez, atacado pelo ódio mais extremo e monolítico: o desejo de matar o que julgam ‘indesejáveis’. Sim o desejo de matar mostrou a sua cara. Não exatamente o poder de matar, esse nunca parou. Mas havia nesse momento o pulular de muitas intensidades outras – que não era o mesmo ódio, como não há um só tipo de amor. Foi quando convidei o meu colega Gabriel Giorgi e escrevemos Ódios políticos e Política do ódio: lutas, gestos e escritas do presente.

Nessa mesma época propus a ela uma Coleção Glissant, estava na França pesquisando os seus arquivos e obra, e me deparei com belezas que precisavam entrar no Brasil. Glissant, para mim, era um autor que nos ofertaria caminhos. Não apenas de reflexão, mas de vida comum. Sem escamotear o conflito, a sua noção de Relação exigiria de todos nós outra postura, outra escrita da nossa própria história. E a Ciça topou!!!

Não por acaso, na mesma agenda do Clube F 2026 outra citação, de Heloisa Teixeira, amiga, mestra e autora estruturante da Bazar do Tempo diz: “sempre apostei no conflito especialmente como valor de transformação”. Eu também, e as mulheres que fazem isso, e dizem, e escrevem incomodam. Ainda incomodam. E ainda sofremos as consequências por incomodar. Mas quando uma estrutura como essa se abre e nos abre espaço, como é o caso dessa editora, nós passamos. Quer dizer: seguimos vivas!!!!!!

Hoje não conseguiria viver sem a escrita. É através dela que posso renascer outra, inventar e imaginar o que não teve lugar, nem pôde acontecer. Como aquela conversa imaginada com a minha mãe, e tantas outras mães que busquei para nos contarem do impossível. Uma ditadura-civil-militar que dura mais de duas décadas não se apaga, nem se dissolve como açúcar na água.

Quando fui até a Ciça dizendo que precisava publicar o romance No muro da nossa casa (mesmo sabendo que ainda não havia na Bazar uma linha editorial para romances brasileiros na sua editora) já faziam seis anos que me debatia com a sua escrita. A urgência se colocava pelo longo período dedicado ao livro (quando sabemos que um livro está pronto?), pelo fato de o livro dar testemunho de viradas íntimas e públicas, coletivas e pessoais, viradas que importam quando se trata de mulheres. Porque nós sempre estamos tendo que nos refazer, nos revirando. Um pedaço de carne que mostra o osso (como diria Artaud) ali estava exposto. Era 2024: 60 anos do golpe. A Ciça, antes de ler o livro, acolheu a minha angústia, e reconheceu o quão difícil ainda é valorizarmos a nossa literatura contemporânea e brasileira. Se os anos da ditadura não se apagavam, imaginem os traços da colonialidade...

Quando ela leu o livro me escreveu: acabei em prantos. Encontramos, sem precisar nos dizer, as nossas mães, as suas diferentes lutas, e nos demos as mãos que, se já andavam perto, ali se entrelaçaram.

No muro da nossa casa existiu (e existe) em sua mais profunda realidade: derrubando os muros da insensibilização imputada, das relações partidas, das mágoas e das vergonhas indizíveis. E também os da dignidade da luta de tantas mulheres, as que sobreviveram e as que morreram (e ainda morrem) sob as mais diferentes torturas.

É um livro de reencontros, que me trouxe uma infinidade de novos encontros (algo que eu não sabia que aconteceria), todos eles juntos contariam uma nova história, ainda por escrever.

Obrigada Bazar,

Obrigada Ciça!

Ana Kiffer
Março 2026


Ana Kiffer é escritora e professora de Literatura na PUC-Rio. Na Bazar do Tempo é autora de No muro da nossa casa, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2025, Ódios políticos e política do ódio (2019), com Gabriel Giorgi, e coordenadora da coleção Édouard Glissant.

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