Uma editora-desejo

Uma editora-desejo

por Luiza Mussnich

Não me lembro exatamente quando foi que notei a existência da Bazar do Tempo. Se acompanhei notícias do nascimento da editora na mídia, se foi a beleza de uma capa, a publicação de um autor que eu queria ler. Já não sei. O ano era 2016, quando eu também nascia como uma autora publicada e lançava meu primeiro livro por uma editora de livros de arte.

O que posso afirmar, em retrospecto, é que de repente havia uma editora que publicava muitas autoras mulheres, como se isso fizesse parte de sua agenda (como, depois, entendi: fazia mesmo). E além de um posicionamento quase político sobre a escolha do catálogo, os livros que chegavam às estantes das livrarias eram quase objetos de arte, com um trabalho editorial primoroso, da capa à escolha papel, da autora à revisora. Os projetos gráficos, as tipografias, a design das capas, os nomes escolhidos para as orelhas, prefácios e posfácios — tudo isso fez a Bazar entrar no meu radar de editoras-desejo, que conseguem entregar livros muito bem acabados, títulos por que muito se espera e textos impecáveis.

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Já a minha história pessoal com a Bazar do Tempo começa muitos anos depois de toda essa admiração, quando o catálogo da editora já era extenso, muitos de seus livros faziam parte da minha biblioteca, e eu já havia publicado outros dois livros depois daquele primeiro. Nós nos acompanhávamos no Instagram até, certo dia, eu receber uma mensagem: “a gente adoraria publicar um livro seu!”. Essa adorável frase chegou à minha caixa de mensagens em outubro de 2022, quando eu já organizava um novo livro, ainda sem destino.

Meu coração galopou, sorri e respondi algo como “e eu adoraria publicar um livro pela editora! Vamos conversar?”. Eu não sabia quem havia me escrito, e mesmo se aquela mensagem realmente poderia dar em alguma coisa. A Bazar do Tempo publicava autoras como Marguerite Duras, Hannah Arendt, Audre Lorde, Anne Carson, Susan Sontag; havia pouca poesia no catálogo e eu era uma autora jovem, buscando meu lugar no mundo.

Acabei descobrindo que a mensagem havia sido enviada pela própria Ana Cecília Impellizieri Martins, a fundadora da editora, e que havia um projeto de trazer literatura brasileira contemporânea para a Bazar do Tempo. Parece que eu estava no lugar certo, na hora certa. Como é bom estar no tempo certo.

Em março do ano seguinte, a conversa migrou para o email, com a presença da minha agente literária Marianna Teixeira Soares. Ciça e equipe leram os originais e, em julho, assinamos o contrato para publicar o meu Todo o resto é muito cedo no ano de 2024. Seria o primeiro livro de um novo momento da editora, de publicar autoras brasileiras contemporâneas. Alguns traços da Bazar que mais admiro são a coragem de apostar no novo e o compromisso em enaltecer a potência feminina.

Estávamos em agosto de 2024 e eu mal podia esperar para que meus poemas reverberassem por aí. Era a estreia de um novo tempo para a editora, que começava com o livro de uma jovem poeta, com orelha e posfácio de duas admiráveis mulheres — a saudosa pesquisadora e pensadora Heloísa Teixeira e a poeta e professora Prisca Agustoni.

E, como acredito que há coisas maiores que coincidências, a designer responsável pelo projeto gráfico de Todo o resto é muito cedo era Violaine Cadinot, francesa radicada no Brasil com quem eu já tinha uma enorme afinidade: ela havia feito o projeto gráfico do meu livro de 2016, um dos seus primeiros trabalhos aqui no Brasil.

No mês seguinte ao lançamento de Todo o resto é muito cedo, a professora e ficcionista Ana Kiffer, com quem eu havia acabado de ter aulas no programa de mestrado em literatura na PUC-Rio, publicaria, nesse novo caminho que a Bazar traçava, seu belíssimo romance sobre memória e resistência, com fortes personagens mulheres. As tais coincidências.

O lançamento pela Bazar do Tempo fez meu livro ressoar por muitos circuitos, veículos de mídia e, mais importante, chegou a leitoras e leitores de todos os cantos do país — até cruzou o oceano, encontrando espaço e alcance em Portugal.

Desde a publicação, tive a oportunidade de participar de eventos para ler poemas e falar sobre poesia em programações paralelas na Flip e outros festivais literários, como a Bienal do Livro, a Fliti e o Poesia no Centro, ao lado de autoras que admiro, como Micheliny Verunschk, Adriana Lisboa, Lilian Sais, Luiza Leite, Stephanie Borges e Sara Ramos, entre outras.

Colocar um livro no mundo é querer partilhar um olhar, uma experiência, entregar uma coisa muito íntima ao coletivo — quando isso acontece, a escrita passa a ser mais do leitor do que nossa. Sou muito grata à editora, com toda sua equipe; aos leitores e livreiros que continuam fazendo meus versos circularem e ecoarem por aí.

Mais de um ano e meio depois do lançamento e com uma reimpressão na praça, Todo o resto é muito cedo continua sendo descoberto por novos leitores, ganhando leituras e encontros.

Torço para que nas próximas décadas, a Bazar continue apostando em novos talentos, publicando autoras e comprometida com a circulação do pensamento e da escrita de mulheres — e cujos livros são um deslumbre. Vida longa à editora! Parabéns pelos 10 anos.


Luiza Mussnich nasceu no Rio de Janeiro, em 1991. É poeta, com dois livros publicados: Lágrimas não caem no espaço (2018) e Tudo coisa da nossa cabeça (2021). Todo o resto é muito cedo é seu primeiro livro na Bazar do Tempo.

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