Por Ana Cecilia Impellizieri Martins
Poderia ser um pouco intimidante estar pela primeira vez numa reunião de trabalho com Heloisa Buarque de Hollanda, que carregava um nome pomposo, fazia parte da bibliografia obrigatória das faculdades de comunicação, e assinava alguns dos meus livros favoritos de juventude, descortinando a poesia de Ana Cristina Cesar e outros poetas marginais. Mas diante de Helô, a sensação era de familiaridade imediata. Ela fazia questão de receber em casa, de forma descontraída, livros espalhados pela mesa de jantar e da sala, o vira-lata Bob se aconchegando ao lado no sofá, pessoas saindo e entrando do apartamento, cozinha aberta e uma energia contagiante.
Foi em 2017 que nasceu a ideia de reeditarmos um livro pioneiro de teoria feminista que Heloisa organizara nos anos 1990: Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. A maior parte dos ensaios da edição continuava atual e Helô estava mobilizada com a repercussão de uma nova onda feminista e com o curso que preparava na universidade sobre o cânone feminista. Outros nomes e textos de teóricas internacionais foram sendo acrescentados. Helô logo sentiu falta de apresentar a gênese dos estudos de gênero no Brasil. Assim, o projeto da reedição se transformava na coleção Pensamento Feminista, com dois primeiros volumes somando mais de 800 páginas.
A coleção e a sua aposta no feminismo fizeram nascer ali uma nova vocação para a jovem editora, criada dois anos antes, que passava a ter um catálogo com vários nomes de peso e uma bússola: Heloisa.
Editar era uma paixão declarada de Helô, que exerceu a função de maneira memorável tanto na Editora da UFRJ quanto na Aeroplano, que manteve durante anos com Elisa Ventura. Como autora, Helô também era editora: dividíamos escolhas sobre tipografia, formato, cor, papel. Ela buscava sempre o mais lindo, o surpreendente e o mais econômico. Queria, sobretudo, os livros circulando. “Repertórios para as novas gerações”, dizia.
O que era novo, desconhecido, o que estava por vir sempre atraiu Heloisa e guiou grande parte de suas escolhas e interesses. Com os livros, não foi diferente, e os volumes feministas que organizou em seguida falavam de pensamento decolonial, cultura queer, políticas de identidade — este último, tema do quinto livro da coleção, que deixou pronto, organizado com Mary Castro.
Helô tinha uma clara noção da finitude e por isso os livros, esses objetos mágicos que guardam o tempo e a experiência, se tornaram, nos últimos anos, um assunto ao qual se dedicava ativamente. A vontade de reeditar edições esgotadas, de registrar, de contar o que viu, o que reuniu, o que achou, o que guardou foram dando forma às suas obras mais recentes: Feminista, eu? e Rebeldes e marginais. E veio quase um pedido: documentar a sua própria produção, a sua trajetória intelectual; uma missão assumida por André Botelho e Caroline Tresoldi e cumprida em tempo recorde com Helô Teixeira: crítica como vida, lançado em dezembro. Em uma das últimas fotos de Helô, ela está lendo o livro na sua rede.
A rede, o café, os cachorros cruzando a sala, a mesa posta, os livros espalhados, as plantas, o entra-e-sai de pessoas, o sorriso e o afeto, a porta da casa sempre aberta. A Helô é esse aconchego, é um pouco a família de todo mundo que teve a sorte de conviver com ela.
Era leve, desapegada. Nunca relia o próprio texto. “Mexe em tudo, vai ficar ótimo!”; “Leva esse livro pra você! É a sua cara.”
Os últimos tempos foram também de grandes acontecimentos. Dois documentários sobre sua vida, a eleição na ABL e uma cerimônia de posse diversa como nunca: travestis, pagodeiras e quebradeiros dividiam o espaço nos salões com a comunidade universitária e literária. No discurso, curto e objetivo bem ao seu estilo, Helô não se furtou de usar a linguagem neutra, talvez pela primeira vez oficialmente na instituição, e ainda arrancou gargalhadas ao chamar o presidente da casa de Merval Teixeira, evocando o sobrenome materno que adotara pouco antes.
Uma vez acadêmica, levou para a ABL a Universidade das Quebradas, a sua paixão mais acessa e uma história que ficou para ser contada.
Como falar mais da Helô neste momento, se os verbos não conjugam este estado de permanência de quem está em tudo o que fazemos e sonhamos? Helô não partiu. Helô não nos deixou. Helô é esse motor. Nossa bússola, um farol apontando os caminhos.
“Temos uma longa estrada ainda a ser percorrida ate que todas as mulheres se sintam iguais e articuladas na defesa de seus direitos. Mas essa é também uma estrada bela. Vamos a ela”, ela nos diz em Feminista, eu?.
Obrigada por tanto, sempre, Helô.
Heloisa Teixeira e Ana Cecília
Ana Cecilia Impellizieri Martins é fundadora da editora Bazar do Tempo.












