Anotações de processo em torno de O lado de lá, entre 2013 e 2015.
Como se fossem páginas de caderno, estas notas acompanham o surgimento de uma voz, de uma forma e de um romance ainda em construção: imagens, dúvidas, referências, cenas, impasses e pequenos achados de percurso.
2013
NOVEMBRO
na casa: um casal, ela não trabalha, tem cabelo ruivo pintado, tem uma filhinha, “pra meninas eu gosto de tudo princesinha”, salto alto no avião, muito branco, pra filha, muito rosa, ela quer abrir uma loja, ele desconfia; ele é vice-diretor de um time de futebol.
uma moça: a religião é boa porque eles temem a Deus.
tenho dúvidas sobre o lugar das descrições e dos tipos; se esse é o caminho.
não tenho dúvidas de que eu tenho que ser personagem.
outra moça: intelectual de óculos com aros grandes; lendo “os miseráveis” na piscina; silêncios; tenta ser engraçada.
e o medo de que esse livro me faça mal.
também pensei que poderia ser um livro do tipo “o general em seu labirinto”, mas não.
às vezes tudo me dá tédio. acho que faz parte.
o que pensei também é uma cena do tipo “o anjo exterminador” e relacionado a isso, a ideia de fazer um romance como quem escreve uma peça de teatro. quem sabe então conseguir algo de humor. um outro distanciamento. o que melancoliza tudo o que eu escrevo é o ponto de vista – que é o meu.
o mais importante, talvez: um universo feminino. As mulheres mudas. As mulheres revoltadas. Um homem começaria se perguntando “o que quer uma mulher?”
agora, o que tudo isso tem a ver com Punta del Este? Será necessário?
e, ao voltar, a leitura de um texto de Paul Auster sobre Beckett me faz pensar que seria muito interessante ter um par de personagens ao invés de um só, uma dupla, dois amigos, quem sabe. Então a questão do ponto de vista talvez também encontre uma solução.
DEZEMBRO
e num avião: escrever em duas línguas, efetivamente, mas como? escrever duas versões? escrever uma parte numa língua e outra noutra. Ainda pensando em Beckett.
2014
JANEIRO
um par de personagens adolescentes, quem sabe. pensei nisso a partir do filme “La vie d’Adèle”. E também da exposição do Balthus: aquela indolência.
e ontem, passeio de bicicleta: os nomes dos prédios, as casas de vidro, Punta pobre e Punta rica.
várias pequenas anedotas que certamente irão emergindo: a única casa com muro, a tendência genética de brincar com carrinhos e assim por diante.
algo notável: as duas moças, a de novembro, e a de agora, muito mais discreta, com um sorriso plácido e lindas pernas, donas de lojas de roupa infantil, ao invés de “trabalhar”.
o meu olhar sobre as mulheres; os detalhes.
não sei se os recortes de jornal vão render muito, mas fiz o meu dever de casa: me interessaram principalmente uma matéria sobre prostituição de adolescentes e a obsessão com a segurança. Acabei descobrindo que os dois jornais que eu tinha eram de direita.
uma ideia que surgiu ontem: escrever o livro inteiro em espanhol.
e fazer uma seleção de romances e outros livros que tenham a ver com o tom do livro – pensando no humor, na sátira, na ironia – por enquanto: Bouvard et Pécuchet e todo Beckett.
FEVEREIRO
dois novos filmes: “a grande beleza”, pelo humor, pelas festas, pela cena da Fanny Ardant passando por ele, pela sátira, por Fellini e por Antonioni, em A noite; voltar a vê-los.
e “ninfomaníaca”, menos inspirador, mas com uma narrativa também muito interessante, e com muito humor, recortada por comentários alheios, feitos principalmente pelo interlocutor.
não me lembro se já anotei isto: escrever o livro em espanhol, e depois traduzi-lo para o português.
e mais um filme (a trilogia de fevereiro?): “o lobo de wall street” e ser o que se tem; a felicidade de ser rico; a violência de ser rico.
MARÇO
lendo Cândido e pensando muito sobre o que seria esse retorno a um gênero pré-moderno. Pensando em ler também Henry Fielding e outros. Depois da leitura do posfácio do Calvino, a dúvida de se não seria uma repetição de uma leveza como a que ele prega, ou algo assim, o que não faria nenhum sentido. Gosto certamente do humor e dos capítulos curtos. Gosto do descompromisso com o realismo. E, além disso, sinto que tudo isso pode me ajudar.
e mais importante de tudo: a informação de que Beckett adorava Fielding!
ABRIL
matéria louquíssima na veja sobre as babás dos ricos.
e o caetano: “não me amarra dinheiro não”.
como não tinha me ocorrido da outra vez que R. deve ser meu alter-ego, ou melhor, a narradora? há tanto nela de mim e tanto mistério ao mesmo tempo. poder estar na cabeça dela. uma outra e a mesma. a necessidade de mudar de foco, mas principalmente de lógica. e ela tem seu próprio humor, além de algo dessa superficialidade procurada.
AGOSTO
a narradora, quem sabe: Ana C., o nome me encanta, e que não seja um homônimo, ainda melhor.
o olhar dela sobre dois pares de homens. Ela é a irmã de um deles.
só não sei como seria possível que o olhar dela não se revele. Bioy é o caminho.
NOVEMBRO
um tema: o dinheiro. E o livro de Alejandra Laera. Mas é possível escrever sobre algo assim? Me interessa? Interessa?
pesquisa, observação, dispositivos. Fazer da exterioridade um dispositivo. De novo: Bioy.
no avião: eles riem muito. Bebem muito. São grosseiros e falam coisas nojentas. “Não tem lugar. Vou me sentar no trono”. Botox e bronzeamento artificial.
ao tentar entrar nesse mundo, a sensação de enjoo.
um outro começo: “É impossível não ser feliz nesta casa”. Toda uma fala sobre o privilégio de sermos como somos. Nossa família. Nossa casa.
a questão é a distância que a narradora pode tomar disso.
a dúvida é: é ela mesma a narradora? Ou R.? Acho que poderia ser uma espécie de fusão.
na piscina, ouvindo o jogo de futebol pelos alto-falantes, a percepção de que talvez a experiência do som possa ser importante, já que Ana C. vive com os fones de ouvido.
Frase um pouco antes de sair da casa: “- Como é a pobreza aqui? – A pobreza aqui é mais estética”.
e no avião: os haitianos que falam várias línguas e estão dispostos a trabalhar dobrado, porque precisam. Os empregados que colocam as manguinhas de fora.
2015
JANEIRO
uma cena: o dono do banco gosta de novela e todos são obrigados a assistir junto com ele na TV da casa.
duas meninas, meio boterianas, conversando e olhando o celular, comentando posts. “Acho que ele posta pouco”.
mas o que surgiu de principal, estando ainda em Buenos Aires, foi a história do crime da menina Lola: um crime bárbaro e sobre o qual não se tem nenhuma clareza. A ideia é juntar material sobre isso, procurando na internet. Pensei que é uma entrada possível, como uma sensibilidade mais próxima, e também um tema mais próximo.
surgiram de novo os alto-falantes da piscina, agora no momento da novela com o dono do banco. Conversando sobre essa cena com C. ela me fez ver o quanto é teatral. Ela já tinha me falado que eu devia escrever o livro como se fosse uma peça. Depois encontrei isso aqui mesmo. A ideia de uma menina escutando essas novelas do lado de fora me parece muito boa, mas vai numa outra direção. Tudo ainda está muito indefinido.
ideias na piscina: cenas de som, o som da TV, o abafado da piscina, o som do piano. A ideia de escrever uma peça de teatro é tentadora, mas talvez seja apenas um jeito de não escrever o romance.
MARÇO
a voz é a da menina. O corpo é dela. A menina e o cachorro. A caseira que se torna política. A escritora engajada. O Brasil está na televisão. O ventríloquo é o Brasil. E a TV está sempre ligada. Pequenos capítulos. Tudo em torno da piscina.
e o título: “Banda oriental”.
Eis que começa, quando março já está indo embora.
M.E. me fez ver que talvez a menina ache a piscina “linda”. Quem sabe dedicar o livro pra ela.
ABRIL
nomear os capítulos a partir de lugares, coisas ou pessoas. comecei com “a piscina”.
um novo capítulo chamado “o convidado”. talvez ele pudesse ser quem assedia a menina. ver “Lolita”. apenas insinuado neste momento. uma relação que pode ser de simpatia num primeiro momento. quem sabe ele poderia querer adotar a menina.
e de repente: por que contar esta história?
e de repente: “beijar-se os próprios lábios”
um número: 30 semanas X 5 = 150 p.
OUTUBRO
passaram os meses e nada, mas de repente a coisa começa a andar de novo: graças à peça e à menina. A menina está lá, linda, magrinha, amedrontada. Minha menina. H. foi assistir e disse algo incrível: a sua menina, para você que não tem uma menina. O livro dos meninos é o blog. Aqui, as meninas. Isso, de um modo comovente, resolve a questão da minha conexão com ela e com o livro.
Essa menina. A violência exercida sobre ela. A violência ainda exercida sobre as mulheres. Ou sobre qualquer corpo frágil. Nesse sentido também o cachorro.
E aí a peça parece ter tanto a dizer! O modo como a menina aparece, querendo ser escritora. O modo como o cachorro aparece, falando diretamente ao público. Os múltiplos assassinatos da menina. A menina sendo violentada uma e outra vez. O suicídio da menina. A menina que atravessa o rio da Prata a nado.
Muita vontade de apresentar isto como work in progress no “Em obras”. Falando justamente deste processo, do teatro que se transforma em narrativa. Das mudanças que o processo sofreu, até o momento de ver a peça e me convencer de que a menina é quem guia o romance.
Só que de repente todo o peso de fazer isso de um modo que não seja violento demais para todo mundo. Um desabamento realmente nesse sentido. Como fazer algo que vá expor completamente um ódio?
Um ódio? É isso? M.E. tem razão de novo ao dizer que isso precisa ser trabalhado.
É engraçado que ela goste de dar sugestões: por que não fazer uma espécie de diário, ficcional, com todas estas questões? Por que não fazer uma espécie de narrativa caleidoscópica, com todas as opções à vista?
* O livro O lado de lá foi lançado em espanhol, com o título La banda oriental, na Argentina (Ed. Tenemos las Máquinas, 2021), na Espanha (Paripé Books, 2021) e também no Chile (Bastante, 2023).

