Por Milly Lacombe
Houve um tempo em que eu não sabia que futebol era esporte considerado masculino. Um tempo em que eu não conhecia o preconceito, a discriminação, a violência de gênero. Um tempo em que fui livre dentro de meus privilégios sociais. Eu tinha quatro, cinco, seis, sete anos. Meu mundo era uma bola de futebol e meu ki-chute amarrado nas travas ou na canela. Meu mundo eram minhas camisas do Fluminense, que eu podia tirar para jogar bola sem ser presa.
O preconceito me foi apresentado aos oito anos, numa escola de classe média alta de São Paulo. Eu estava jogando bola no recreio com os meninos e duas professoras vieram até a quadra. Me chamaram e disseram uma frase que nunca esqueci:
Você não pode mais jogar bola. Futebol é para os meninos. Você vai brincar de boneca.
Sem que eu pudesse me virar para trás elas me pegaram pela mão e me levaram para uma sala escura onde as meninas cantavam “parabéns pra você” diante de uma mesa com bolos artificiais, xícaras de chá sem nada dentro e simulacros de crianças feitas de plástico e de olhos arregalados. Talvez tenha sido esse o dia em que adquiri um profundo medo de bonecas. Até hoje não posso vê-las sem me deixar levar pela emoção.
Naquela sala escura, sentei num canto e chorei. Podia escutar os meninos correndo lá fora e chorei ainda mais profundamente. Ninguém ligou. Em casa, minha mãe quis saber por que eu estava triste. Não disse nada porque achava que ela era quem tinha mandado as professoras me tirarem da quadra. Ela nunca foi muito fã da minha falta de feminilidade se comparada a das minhas duas irmãs. Não chegava a ser um problema, ela jamais me proibiu de jogar bola ou de ir com meu pai ao estádio, mas a comparação com minhas irmãs eu registrava.
Então disse a ela que não era nada. Mas ela insistiu e insistiu e eu acabei contando. Ela fez uma expressão indecifrável e decretou que no dia seguinte eu não iria na van e seria ela que me levaria à escola. Essa talvez tenha sido a primeira noite em que tive a consciência de como as horas escuras demoram a passar.
De manhã, lá fomos nós. Ela e eu entramos e, antes que eu pudesse ir a minha sala, ela me pegou pela mão e disse que estávamos indo para a sala da diretoria. O que ela faria? Elogiaria as professoras por me ensinarem a brincar de boneca? O que seria exatamente brincar de boneca? Fingir que eu tinha uma filha? Alimentá-la? Celebrar seu aniversário bebendo xícaras vazias de um chá fictício? Como a vida pode mudar tão drasticamente de um dia para o outro? Eu só queria jogar bola.
Entramos e ela não deu bom dia. Pelo contrário. Olhando para uma das diretoras disse: minha filha vai jogar bola quando ela quiser. E se vocês voltarem e tirá-la da quadra eu vou fazer um escândalo. Ninguém retrucou e ela me levou pessoalmente à minha sala. Vendo ela descer a escada, concluí que minha mãe tinha cinco metros de altura.
Eu voltei a jogar bola, mas tinha sido definitivamente apresentada ao preconceito. Para compensar, também fui apresentada ao amor imponente e ingovernável de minha mãe. No mesmo dia, duas revelações.
O amor que sinto pelo futebol é a forma inaugural de amor em minha vida. É a matriz de todas as demais. Eu amei o Fluminense do final dos anos 70 de forma absolutamente incondicional. Eu amava na derrota, na vitória, no vexame, na glória. Eu sabia a escalação de cor, eu escutava jogos no rádio, eu consumia programas esportivos tarde da noite, eu recortava artigos de jornal, eu aprendi a ler para ficar mais perto do time. Eu existia para ver jogos de futebol e para jogar futebol. Eu decretei que seria jogadora profissional e que jogaria entre os homens porque, claro, não havia times de mulheres.
No final da adolescência, eu conheci outras mulheres boleiras. Montamos um time e saímos jogando. Não havia muitas, às vezes jogávamos com e contra homens, mas éramos uma trupe. Com trinta anos, comecei a comentar jogos na TV. Não havia mulheres comentando jogos e demorei a entender que tipo de pioneirismo era aquele. Assim como demorei para compreender a profundidade e a cristalização do preconceito no meio.
A chegada de mais mulheres aumentou a irritação dos homens com a invasão. O futebol era, até a gente chegar, o lugar onde eles podiam demonstrar afeto uns pelos outros, sem serem julgados ou ridicularizados. É permitido beijar, abraçar, dizer “eu te amo” no interior de uma arquibancada lotada quando seu time faz gol. E agora estávamos ali, testemunhando de dentro o que eles faziam quando não estávamos olhando.
Nos últimos anos, com a entrada de mais mulheres no meio do futebol, e com o crescimento do futebol feminino, a contra-revolução masculina se organizou mais fortemente. Eles não nos querem nesses espaços; o futebol é deles e eles farão o que for preciso para nos manter do lado de fora.
Mas não vamos a lugar nenhum. Seguiremos entrando e ocupando nossas cadeiras. O futebol é imenso e não pertence aos homens. Jogar bola é direito de todas, de todos e de todes. O que o futebol ensina sobre a vida não pode ser tirado daqueles grupos que estão mais dispostos a manter a vida sobre esse planeta. É verdade que amamos um esporte que ainda nos detesta. Mas resistiremos e um dia faremos com que o futebol seja verdadeiramente universal.
Milly Lacombe é jornalista, escritora, roteirista, feminista e colunista brasileira. Atuou em veículos como a Folha de S.Paulo, o UOL, a revista TPM e a revista piauí, além de ter sido roteirista do programa Amor & Sexo, da TV Globo. Foi uma das pioneiras da presença feminina no jornalismo esportivo. É autora dos livros Tudo é só isso (2012), O ano em que morri em Nova York (2023), Feminismo para não feministas (2024), Eu te amo, cretino (2026) e A terra é redonda (2026).









