Lucinda Spera
Università per Stranieri di Siena
Interrogar os arquivos, desde os documentos mais elementares (cartões postais, telegramas, bilhetes) até os manuscritos de obras, é uma operação que permite que os documentos dialoguem com o seu contexto autoral, histórico e social, de maneira a recompor retratos biográficos mais definidos ou a reler os textos e a sua recepção a partir de pontos de vista inéditos. Trata-se de uma perspectiva que se impôs no decorrer das últimas décadas à consideração dos estudiosos mediante uma atenção aos arquivos de escritores (mas sobretudo de escritoras) do século XX como talvez não tenha ocorrido da mesma forma no passado. Outra vantagem desse espelhamento é ter motivado a adoção de diversas linhas de estudo: desde o âmbito bibliográfico, passando pela publicação da correspondência do autor até a edição de um volume. Longe de privilegiar apenas as implicações filológicas, esse direcionamento de pesquisa vem se tornando um instrumento cada vez mais refinado para a interpretação crítica da produção literária.1 Acompanhar a passagem de um texto da criação do autor ao produto editorial permite, de fato, uma verdadeira reinterpretação crítica do objeto de estudo:
Le carte d'archivio conservano le tracce di questo passaggio, la mediazione editoriale, che si fa preminente in un secolo in cui le case editrici erano luoghi di cultura, punto di riferimento e d'incontro di intellettuali collaboratori della macchina editoriale, un secolo in cui l'editoria cercava di essere non solo mercato ma anche progetto.2
Portanto, é necessário ter em conta esta natureza dupla dos documentos: a primeira consiste no fato de serem testemunhos, documentos históricos do que foi definido como o "campo cultural" de um autor, capazes de transmitir nomes, relações intelectuais e situações; a segunda é a capacidade de se apresentarem como peças adequadas para reinterpretar a colocação editorial das obras enquanto estudo de caso: "Acompanhar os documentos no seu desdobramento de acontecimentos e relações inéditas nos permitiu acompanhar os movimentos de alguns dos nossos escritores de maior prestígio à luz do século em que se achavam escrevendo".3
A série de pressupostos aqui enunciados é ainda mais instigante quando adotada com relação a escritores que desempenharam um papel de destaque nos processos decisórios das editoras, colaborando ativamente na sua atividade programática: notadamente, foi esta a dupla frente de compromisso intelectual de Pavese, Vittorini e Calvino, mas também (infelizmente com menos sucesso) de algumas escritoras: o estudo de caso ao qual vou me referir é, portanto, o de Alba de Céspedes (Roma 1911 --- Paris 1997), autora e consultora da Mondadori durante muitos anos.4
O Arquivo de Céspedes, como se sabe, é conservado pela Fundação Arnoldo e Alberto Mondadori (FAAM), em Milão. Trata-se de documentos que acompanham a escritora ítalo-cubana no decorrer de toda a sua existência, variada e laboriosamente acumulados em todas as áreas das suas diferentes residências, iluminados pela sua vontade de deixar um rastro do seu amplo e diversificado compromisso artístico e intelectual: de Roma, primeiramente na via Tirso e mais tarde na via Eleonora Duse, os documentos foram transferidos em 1968 para Paris, inicialmente na rue de Tournon, depois no número 31 do quai de Bourbon, para finalmente regressarem a Itália, mais precisamente para Milão, após a sua morte, aos cuidados da Fundação Badaracco por decisão dos herdeiros (o filho Franco Antamoro e o companheiro Stefano De Palma) e, finalmente, a partir de 2009, como previsto, sob a guarda da Fundação Mondadori. Tenazmente construído, protegido e conservado, o arquivo guarda documentos familiares e pessoais, rascunhos de obras, manuscritos datilografados, recortes de imprensa, diários, cadernos de anotações e, por fim, toda a correspondência da escritora. Já se observou várias vezes, mas vale a pena repeti-lo aqui, que a literatura se manifesta nesses papéis como o tema central de toda uma existência. E tem seu espelho no Arquivo Editorial da Mondadori e também nos arquivos dos intelectuais, homens e mulheres, com os quais de Céspedes se manteve em correspondência epistolar por muitos anos.
A oportunidade de consultar esses documentos surgiu a partir de uma investigação sobre a recepção no ambiente cultural do final da década de 1940 do bem-sucedido romance Dalla parte di lei (Na voz dela)5 (Mondadori, 1949), embora -- como muitas vezes acontece ao vasculhar arquivos -- em relação ao projeto original, eu tenha dado prioridade cronológica a uma troca de cartas que imediatamente chamou minha atenção, com o poeta e crítico de arte Libero de Libero, cujos documentos encontrei na Quadriennale de Roma.6 Isso permitiu-me reconstruir o intenso diálogo que animou a sua compreensão intelectual ao longo de mais de trinta anos.7
Foi, portanto, graças ao estudo do arquivo que o "caso Céspedes" recebeu, nos últimos vinte anos, um impulso decisivo. Depois de um prolongado período de desinteresse, os documentos foram revitalizados pela meritória atenção científica de estudiosas que, partindo de diferentes áreas disciplinares (literatura, crítica e arquivística), recuperaram, catalogaram e valorizaram aquele copioso material documental, dando assim impulso a múltiplas travessias e a uma renovada atenção para uma produção que foi "canonizada" com a publicação na série Meridiani Mondadori,8 editado em 2011 por Marina Zancan,9 contendo uma seleção de cinco romances (Nessuno torna indietro,10 Dalla parte di lei (Na voz dela), Quaderno proibito (Caderno proibido),11 Nel buio della notte, Con grande amore), e depois por uma ampla gama de intervenções científicas. Por fim, mais recentemente, seguiu-se a reedição de obras individuais pela Mondadori e também por outras editoras, com prefácios de escritoras (Melania Mazzucco e Nadia Terranova) que reavivam a leitura, reativando o diálogo entre de Céspedes e a atualidade.12 Ou seja, o estudo desses documentos vem contribuindo para esclarecer o processo de composição das obras de uma escritora que atravessou e animou o cenário intelectual italiano, especialmente entre a década de 1930 e meados da década de 1960, década esta que marca a sua mudança definitiva para Paris, como culminação de uma longa e dolorosa insatisfação com o ambiente romano.13 Porque, temos de reconhecer com honestidade intelectual, esses documentos não contam uma história positiva em todas as épocas: também nos contam momentos de crise, de inadequações, de fracassos e de projetos que não saíram da condição de esboço ou então trabalhados por muito tempo mas nunca concluídos (é o caso, central na poética da autora, do romance cubano Con gran amor, sobre o qual remeto ao recente volume de Cecilia Spaziani),14 que, juntamente com os numerosos e, por vezes, inesperados sucessos (como veremos em breve), reconstroem todo o quadro da personalidade intelectual de de Céspedes e do ambiente em que ela atuou.
Entre os múltiplos e quase infinitos itinerários possíveis através de uma série de resgates visados, pretendo iniciar nestas páginas (e expandir num futuro próximo) uma análise do romance breve (ou conto longo) Prima e dopo (Antes de depois) (Mondadori, 1955), correlacionando-o com hipóteses e projetos inacabados capazes de lançar uma nova luz numa obra que marca a superação de uma fase de crise profunda e de repensar radical da atividade anterior. Para esta reconstrução -- iniciada pelo empenho da jovem erudita Antonia Virone, autora do volume "Tante cose da dire e da scrivere". Alba de Céspedes e il laboratório creativo di Prima e dopo (1955)15 -- contribuem também as trocas epistolares que pretendo abordar numa segunda fase da pesquisa. Estas últimas revelam projetos pessoais e coletivos: formas diversificadas de compromisso com a reconstrução antifascista do tecido civil e cultural italiano, à luz de uma interligação contínua entre o público e o privado que permite redefinir uma rede intelectual empenhada na refundação do país após a Segunda Guerra Mundial.
Para compreender melhor, é preciso antes de tudo lembrar que os anos de 1950, época em que se situa a composição do romance, representaram para Alba de Céspedes um período de transição e crise profunda. A publicação de Na voz dela em 1949 havia sido um grande sucesso editorial e crítico, estabelecendo a autora como uma das principais vozes da literatura italiana do pós-guerra. No entanto, esse êxito não trouxe a tranquilidade esperada. Pelo contrário, gerou expectativas e pressões que a levaram a questionar profundamente sua trajetória como escritora e os rumos de sua produção literária.
Notas
Lucinda Spera é professora de Língua e Literatura Italiana na Università per Stranieri di Siena. Especialista na obra de Alba de Céspedes, é autora de diversos estudos sobre a escritora ítalo-cubana e sua produção literária.










