Um diálogo entre Natalia Ginzburg e Alba de Céspedes

O texto de Natalia Ginzburg foi publicado na última edição da revista Mercurio, em março de 1948. Ao lê-lo, Alba de Céspedes resolveu publicar na mesma edição uma carta propondo um ponto de vista diferente sobre o assunto.

Tradução Francesca Cricelli

DISCURSO SOBRE AS MULHERES

Natalia Ginzburg

Outro dia caiu nas minhas mãos um artigo que escrevi logo após a libertação e fiquei um pouco mal. Era bem bobo: entretanto estava todo escrito com uma elegância afetada, frases bonitas, bem estudadas e bem desenvolvidas; já não quero mais escrever assim. E depois eu dizia com o calor e a convicção das coisas óbvias: além disso, aconteceu a todos um pouco, imediatamente após a libertação, exaltar-se muito para dizer coisas óbvias. De certo modo, estava até certo, porque em vinte anos de fascismo se perdera o sentido dos valores mais básicos e era preciso começar de novo, recomeçar a nomear as coisas com seus nomes, e escrever por escrever, para ver se ainda éramos pessoas vivas.

Aquele meu artigo falava das mulheres em geral, e afirmava coisas que são sabidas, afirmava que as mulheres não são tão piores do que os homens e que podem, elas também, fazer algo bom se se empenharam, se a sociedade as ajudar, e assim por diante. Mas era bobo porque não me preocupava em ver como as mulheres eram de verdade: as mulheres das quais eu estava falando eram mulheres inventadas, em nada parecidas comigo ou com as mulheres que conheci durante a vida. Do jeito que eu falava, parecia muito fácil tirá-las do estado de escravidão e torná-las seres libertos. Em vez disso, eu deixara de fora uma coisa muito importante: que as mulheres têm o péssimo hábito de cair, de vez em quando, num poço, de se deixarem levar por uma melancolia imensa e afogar-se nela, e dar braçadas até voltarem à tona.

É esse o verdadeiro problema das mulheres. Com frequência, as mulheres sentem vergonha de passar por este problema, e fingem não estar nunca passando por problema algum, que são livres e cheias de energia, e caminham com passos firmes pelas ruas com grandes chapéus, bem vestidas, com as bocas bem pintadas e um ar obstinado e desdenhoso. Mas nunca me ocorreu conhecer uma mulher sem descobrir nela, em seguida, algo de dolorido e piedoso que não existe nos homens, o perigo contínuo de cair num grande poço escuro, algo que provém do próprio temperamento feminino e talvez de uma tradição secular de sujeição e escravidão e que não será tão fácil derrotar.

Ocorreu-me descobrir, mesmo nas mulheres mais enérgicas e desdenhosas, algo que me induzia a me compadecer delas e entendia muito bem porque eu também padeço do mesmo sofrimento há tantos anos e só há pouco tempo entendi que isso provém do fato que sou mulher e que dificilmente me libertarei disso algum dia. De fato, duas mulheres se entendem muito bem quando começam a falar sobre o poço escuro em que caem e podem trocar diversas impressões sobre os poços e sobre a absoluta incapacidade de se comunicar com os outros e de fazer algo sério, sobre o que sentem naquele momento, e sobre as dificuldades para voltar à tona.

Conheci muitíssimas mulheres. Conheci mulheres com crianças e mulheres sem crianças, gosto mais das mulheres com crianças porque sei de imediato do que conversar com elas, até quantos meses amamentaram e depois disso o que lhes deram de comer e agora o que lhes dão. Juntas, duas mulheres podem falar até o infinito sobre este tema.

Conheci mulheres que podiam pegar o trem e deixar seus filhos por algum tempo sem sentir uma angústia terrível e a sensação de estar fazendo algo antinatural, viver tranquilamente por vários dias distante das crianças e não sentir aquele medo visceral e irrefletido de que algo ruim possa ter acontecido com elas, como acontece comigo todas as vezes; e não é que aquelas mulheres não amassem seus filhos, amavam tanto quanto eu amo os meus, mas simplesmente eram mais desenvoltas.

Encontrei mulheres tranquilas, mas poucas, a maior parte delas eram como eu e não conseguia derrotar aquele medo visceral e dilacerante e aquele sentido de fazer algo antinatural todas as vezes que se deitam numa cama de uma cidade estrangeira muitos quilômetros distantes dos filhos. Tentei ser o mais desenvolta possível nesse quesito, tentei dominar-me da melhor forma possível e, todas as vezes em que sai de trem sem as crianças, eu dizia a mim mesma: “Desta vez não terei medo”, mas o medo nasce em mim e o que ainda não entendi é se ele irá passar quando as crianças forem adultas, espero que sim, que passe.

E não consigo pensar tranquilamente em visitar os países como gostaria, para dizer a verdade penso sempre nisso, mas sei bem que, para mim, não será possível fazê-lo. Assim há mulheres canguru e mulheres não canguru, mas as mulheres canguru são bem mais numerosas.

Eu, portanto, conheci muitíssimas mulheres, mulheres tranquilas e não tranquilas, mas no poço até as mulheres tranquilas caem: todas, de vez em quando, caem.

Conheci mulheres que se acham muito feias e mulheres que se acham bem bonitas, mulheres que conseguem passear por países e mulheres que não conseguem, mulheres que têm dor de cabeça de vez em quando e mulheres que nunca têm dor de cabeça, mulheres que lavam seus pescoços e mulheres que não o fazem, mulheres que têm muitos lencinhos belos e brancos de linho e mulheres que nunca têm um lencinho ou se o carregam, sempre o perdem, mulheres que usam chapéu e mulheres que não usam, mulheres que têm medo de estarem gordas e outras de serem magras demais...

As mulheres são uma estirpe desgraçada e infeliz com muitos séculos de escravidão nas costas e o que precisam fazer é se defender com unhas e dentes do próprio hábito insalubre de cair no poço de vez em quando, porque um ser livre não cai quase nunca no poço e não pensa, assim, sempre em si mesmo, mas se ocupa com todas as coisas importantes e sérias que existem no mundo e se ocupa de si mesmo somente para se esforçar para ser cada dia mais livre.

Eu também preciso aprender a fazer isso, sobretudo porque do contrário não conseguirei realizar nada sério e o mundo não avançará direito enquanto for habitado por uma tropa de seres não libertos.

Alba De Céspedes

Carta a Natalia Ginzburg

Minha queridíssima,

queria escrever-lhe um par de palavras assim que terminei de ler o seu artigo. É tão bonito e sincero que toda mulher, refletindo-se nele, sente arrepios gelados nas costas. Contudo, por um momento, pensei em não publicá-lo, temendo cometer uma indiscrição com as mulheres ao revelar este segredo só delas.

Além disso, pensei que os homens o leriam distraidamente, ou com sua usual ironia, sem intuir o desespero aflito e o vigor desesperado contido nas suas palavras, e teriam assim um motivo a mais para não entender as mulheres e empurrá-las com ainda maior frequência para dentro do poço.

Mas depois pensei que os homens deveriam, enfim, tentar entender todos os problemas das mulheres; como nós, que há séculos, estamos sempre dispostas a entender os seus.

Vou lhe dizer que ao publicar o seu “discurso” tive que superar uma sensação instintiva de pudor: o mesmo, claro, que você deve ter tido que superar ao escrevê-lo. Pois eu também, como você e como todas as mulheres, tenho uma ampla e antiga prática com os poços...

Mas — ao contrário de você — eu acredito que estes poços sejam a nossa força. Pois todas as vezes que caímos neles descemos às raízes mais profundas do nosso ser humano, e ao voltar à tona trazemos conosco experiências tamanhas que nos permitem compreender tudo aquilo que os homens — que nunca caem no poço — jamais irão entender.

Peço desculpas, minha querida, por essa longa carta. Mas eu queria lhe dizer que, a meu ver, as mulheres são seres livres. E, além do mais, aceitam por vontade própria serem empurradas para dentro do poço...

E destas hoje não posso falar porque me encontro — como amiúde — no poço.

Um abraço, querida.

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