por Beatriz Accioly Lins
Minha relação com a Bazar do Tempo começou antes de imaginar que um dia faria parte do seu catálogo. Começou como leitora. E leitora apaixonada. Cheguei à editora pelos livros do Luiz Antonio Simas, especialmente pelo livro O Almanaque Brasilidades: Um Inventário do Brasil Popular (2018). Ali eu vi algo que me marcou profundamente: um modo de tratar a cultura popular com delicadeza intelectual, coragem estética e encantamento ao mesmo tempo. Um livro que fala de fé, festa, mito, comida, rezadeiras, heranças afro-indígenas, personagens anônimos e heróis improváveis, tudo com apuro visual e cuidado gráfico. Era um projeto editorial que não separava forma e conteúdo, pensamento e beleza. A cara do Simas. E eu viria a descobrir, também, a cara da Bazar.
Talvez eu pudesse dizer, evocando Goethe e depois Max Weber, que foi uma experiência de afinidade eletiva. Em Goethe, a expressão nasce da alquimia. Certas substâncias, quando se encontram, não se combinam por acaso ou imposição, mas porque se reconhecem e têm disposição à ligação. Weber transformou a ideia em categoria sociológica. Afinidades eletivas não são causalidade automática, mas correspondências profundas entre formas de pensar e formas de viver. São modos de vida que, ao se encontrarem, se reforçam mutuamente.
Foi assim que senti a Bazar. Não é apenas gostar de um catálogo, mas reconhecer nele uma combinação rara entre ousadia e precisão. E, ao mesmo tempo, se reconhecer.
Há algo na editora que combina com o que eu tento fazer: tratar temas densos, às vezes difíceis, como violência contra as mulheres, consentimento, desigualdade, conflitos morais e zonas cinzentas da intimidade, sem abrir mão da complexidade, mas também sem abrir mão da beleza, do cuidado, do projeto gráfico e da aposta na circulação pública de ideias. A Bazar não publica apenas livros. Constrói atmosferas intelectuais. E isso, para mim, sempre foi fundamental.
Gosto de pensar nossa relação quase como um encontro de carnaval. No carnaval, as escolas são coirmãs: competem, se desafiam, mas reconhecem umas nas outras a mesma devoção ao ofício, o mesmo rigor, o mesmo amor pelo detalhe. Carnaval é alquimia: mistura física e química, mas também social e afetiva. É uma combinação improvável que funciona porque há escolha recíproca.
A Bazar publica usinas de pensamento; eu trabalho com conflitos e tensões do presente. Nos reconhecemos nessa mistura que produz algo novo.
Vida longa a essa união, feita de escolha, atração, combinação e trabalho sério. Porque afinidades eletivas, quando acontecem, não são acaso. São encontro.

