No centro do reino de Ártemis - A viagem da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen ao Brasil

por Eucanaã Ferraz

"Tomando banho de mar em Copacabana a famosa poetisa portuguesa Sofia [sic] de Mello Breyner Andresen, ora no Brasil, a convite do Itamarati [sic]." A nota no diário carioca Tribuna da Imprensa, coluna Fatos e rumores, assinada pelo eminente jornalista Hélio Fernandes em 10 de junho de 1966, dá a ver algo bem mais prosaico do que as imagens extraordinárias de versos como: "As ondas quebravam uma a uma/ Eu estava só com a areia e com a espuma/ do mar que cantava só para mim." Em vez da solidão absoluta, ao mesmo tempo silenciosa e ritmada, desponta a orla ruidosa de Copacabana, nome inscrito no imaginário brasileiro e mundial como símbolo de urbanidade, com seu glamoroso hotel e sua calçada de pedras portuguesas. Sophia terá percebido que as ondas calcárias em preto e branco repetiam de Lisboa o desenho Mar Largo na Praça do Rossio? Não é difícil imaginá-la de maiô, chapéu, óculos escuros, a reservada poeta de Coral, que decerto se supunha anônima ali, mas cujo banho de mar convertera-se em carioquíssima nota social.

Tinha então 46 anos. Desembarcara no Rio de Janeiro havia aproximadamente um mês, no dia 12 de maio, convidada pelo Itamaraty. Um telegrama da Divisão de Difusão Cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa para a Secretaria de Estado das Relações Exteriores (sede do Itamaraty no Brasil), datado de 4 de maio de 1966, quarta-feira, e transmitido às 17h55, consigna que a escritora, atendendo ao convite que lhe fora feito, viajaria num voo da Varig para o Brasil, onde se demoraria um mês. Assina Aguinaldo Boulitreau Fragoso, na época embaixador do Brasil em Portugal. Segue-se um segundo telegrama, de 11 de maio, quarta-feira, 14h15, com idênticos remetente e destinatário (os documentos se encontram no arquivo do Itamaraty, em Brasília):



Escritora e poetisa Sophia Mello Breyner Andresen atendendo convite Governo brasileiro segue hoje onze de acordo com programa que vier a ser organizado pela Secretaria Estado. Senhora Andresen é figura primacial na vida intelectual portuguesa contemporânea sendo de destacar que mediante programação prévia seja posta em contato com seus colegas brasileiros e lhe seja facultada uma visita coordenada aos principais centros culturais e universitários do país. à noite pela Varig para o Rio. Encabeço significação dessa visita que deverá prolongar-se por um mês

Não havia, portanto, programa definido; datas, nomes, endereços seriam acertados depois da chegada. Mais importante era que a agenda correspondesse à estatura da "escritora e poetisa". Assim, a visita, ainda que encaminhada por vias diplomáticas, parece ter transcorrido desde o início de maneira muito livre.

Sei de apenas três comparecimentos aos "principais centros culturais e universitários do país". Os dois primeiros foram registrados pela própria Sophia num caderno que não chegou a ser uma agenda, tampouco um diário de viagem:1 no dia 1º de junho falou às 9 horas na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) sobre o tema "Poesia e realidade" e às 14 horas, na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), sobre "A poesia na unidade do homem".

Na PUC, o encontro foi no Departamento de Letras, onde conversou com os alunos de literatura portuguesa da professora Cleonice Berardinelli. A autora correspondeu perfeitamente à imagem que dela faziam os estudantes: "Idealizada à imagem e semelhança de seus versos, tinham diante de si uma bela figura feminina, harmoniosa e serena", lembra dona Cleo, acrescentando que Sophia, "sem se fazer rogar, falou sobre sua criação poética e disse poemas com uma voz quente e branda, musical e envolvente. Às perguntas curiosas dos jovens respondeu sem desvios, sem disfarces, lisa, livre, limpa, para usar adjetivos que habitam suas páginas e bem a definem".2

Não descubro informações sobre a palestra na Universidade do Brasil, mas sei que o terceiro encontro ocorreu no dia 8, já no final da estadia, quando Sophia discursou e leu poemas na Academia Brasileira de Letras. A sessão foi pouco concorrida, pois contou com a presença de apenas sete dos quarenta acadêmicos. O presidente da instituição, Austregésilo de Athayde, lamentou o baixo comparecimento e justificou-o, dizendo que a sessão fora antecipada devido a um feriado no dia seguinte, louvou a "maior poetisa de Portugal", queixou-se do fraco intercâmbio cultural entre os dois países, não sem observar que a academia era também uma casa lusitana, citou João Cabral de Melo Neto e Cecília Meireles, e, por fim, ao pedir que Sophia tomasse seu lugar, arrematou com a afirmação de que todos ali a admiravam e amavam -- referia-se aos pouquíssimos presentes e aos muitos ausentes. A homenageada fez um breve balanço de sua estadia no país e acrescentou:

Eu creio que a melhor maneira de me exprimir é ler dois poemas, um dedicado a Manuel Bandeira, onde está sintetizada a minha grande admiração, minha apaixonada admiração pela poesia brasileira; e outro poema que escrevi sobre Brasília, onde realmente tentei exprimir a emoção do meu encontro com Brasília. Vou ler estes dois poemas que trouxe, e esta será a minha maneira de agradecer a honra que me deram dentro desta academia.3

É possível que Sophia tenha visitado outros centros de ensino e cultura, interessada por aproximações que, suponho, fossem mais íntimas do que cerimoniosas. Também não é difícil conjecturar que os dias fluíram sem muitos planos, ao gosto das novidades, conforme a vontade da hora, ao acaso das conversas. Mas, se os jornais quase nada assinalaram das prováveis visitas a entidades educativo-culturais, não descuidaram do registro das homenagens festivas, daí resultando algumas notas de sabor especial.

No Correio da Manhã de 22 de maio, a seção Vamos Falar de Mulheres, assinada por Ylcléa, fez o seguinte registro sob o título Visita portuguesa:

Passando curta temporada no Rio, a poetisa Sophia de Mello Breyner tem sido imensamente festejada.

Domingo passado, José Paulo e Adalija Moreira da Fonseca reuniram para drinks em sua casa amigos brasileiros e portugueses da poetisa, em noite que se esticou até a madrugada com muita alegria e inteligência reunidas. E, na terça, foi Bob Cy Carvalho Silva quem homenageou Sophia com reunião íntima, promovendo encontro da poetisa com escritores brasileiros, entre estes Elsie Lessa, Millôr Fernandes e Flávio Rangel.

O colorido típico do estilo das colunas sociais dos anos 1960 aparecerá mais vibrante no dia 12 de junho, quando a mesma Ylcléa se refere a duas outras festas em torno de Sophia. A primeira nota, intitulada À moda portuguesa, assinala a homenagem prestada pelo decorador dom Fausto Albuquerque, que "recebeu para jantar -- feijão branco com pernil à moda portuguesa -- em seu bem decorado apartamento, reunindo poetas e escritores brasileiros e portugueses".

A segunda nota, com o título Um mergulho no passado, diz:

Também a senhora Anna Amélia Carneiro de Mendonça homenageou a poetisa portuguesa com uma recepção, terça-feira passada, reabrindo os portões do velho e tradicional casarão do Cosme Velho, em noite que lembrava uma página de Machado de Assis. Entre os presentes: Paulo Celso e Stella Moutinho, Lêdo Ivo, Stella Leonardos e a cantora Luiza de Albuquerque. Durante a reunião foram servidos doces típicos brasileiros e a dona da casa leu fragmentos de tradução que fez de Hamlet, sua filha Barbara Heliodora declamou outros trechos e Sophia leu alguns de seus poemas.

Retratos de nossos imperadores presidiram a recepção, que lembrava um delicioso sarau de outros tempos com poesias extremamente modernas.

O que dizem esses registros da visita de Sophia? Dizem de uma recepção simpática, quente. Mas tudo se passou discretamente, sem estardalhaço, sem maiores alardes. Sophia veio ao Brasil num período tenso, sobretudo para quem militava no campo político das esquerdas e para quem, pelas mais variadas razões, fazia oposição ao regime militar. Estava-se em 1966, apenas dois anos depois do golpe. Falamos de uma intelectual cujas posições políticas eram conhecidas, mas Sophia de Mello Breyner Andresen precisava de visto do governo português. Ora, sua vinda, embora garantida por sua qualidade de poeta, é de todo modo um ato político. A esse respeito, uma matéria do jornal O Globo de 12 de maio, sob o título "Sophia de Melo Breyner Andresen chega hoje ao Rio", resulta esclarecedora. A matéria começa anunciando que a poeta chegaria ao Rio, "proveniente de Lisboa". Depois, repassa dados biográficos e caracteriza-a como "uma das figuras de maior relevo cultural português, que, ao lado de seu trabalho literário, tem dedicado atenção especial aos problemas sociais e econômicos de Portugal".

Sophia é apresentada por sua poesia, mas igualmente por seu engajamento social e político. Ao tratar da questão política na matéria, o jornal afirma que:

Sua posição progressista dentro dos círculos intelectuais portugueses tem-lhe valido algumas dificuldades por parte das autoridades do governo de Salazar e não raro tem visto a censura cortar trechos de suas reportagens ou artigos no jornal de Lisboa em que escreve regularmente. No último momento, quando se preparava para vir ao Brasil, teve de superar alguns obstáculos, e só com a intervenção da Embaixada do Brasil pôde obter o visto de saída.

Nada encontrei no Diário Oficial de 1966 que confirmasse algum impedimento do governo brasileiro à vinda da poeta. É certo, no entanto, que se ela precisou da intervenção da embaixada brasileira em Lisboa para vir ao Brasil, teve de enfrentar também dificuldades políticas do lado de lá. É provável, portanto, que o regime militar não tenha visto com bons olhos a chegada de uma intelectual de esquerda. Em que pese sua qualidade e importância como escritora, sem a qual certamente não teria obtido o visto, Sophia veio ao Brasil em condições limitadas e vigiadas, como presa em liberdade condicional. Seu desembarque no Rio ocorreu sob os olhos do SNI (Serviço Nacional de Informações), segundo informa uma "Informação" do organismo ao ministro das Relações Exteriores:

Assunto: SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (…) 1. Atendendo solicitação dessa Secretaria de Estado, informamos: a escritora e poetisa portuguesa, ora no Brasil a convite do Itamaraty, tem desenvolvido intensa atividade intelectual e, ao mesmo tempo, oposicionista ao regime salazarista. Devido a esta última atitude foi obrigada, em janeiro de 1966, a abandonar a redação do semanário "Tempo e Modo", tendo em vista o fato de as autoridades lisboetas terem fechado aquele órgão.

A informação acrescenta alguns dados que podem ser corroborados com fontes portuguesas, mas outros, não. Diz, por exemplo, que a poeta "pertence à Associação Nacional de Resistência Intelectual, uma organização que aglutina elementos oposicionistas ao regime português". Seria difícil comprovar essa militância, até porque tal organização parece não ter existido. A informação continua, dizendo que, "segundo fonte fidedigna, encontra-se em estágio de adiantada elaboração uma biografia sobre SOPHIA, da autoria de José Régio, onde se destaca a posição de esquerda da biografada". A informação é falsa e o regime de exceção brasileiro, sabedor disso ou não, valeu-se dela para armar sua rede de controle. José Régio jamais escreveu uma biografia de Sophia (morreu um ano depois, em 1969) e talvez jamais cogitasse fazê-la. A informação acrescenta ainda:

Encontra-se atualmente no Rio de Janeiro e permanecerá no país por cerca de 30 dias. Pretende viajar ainda para Recife, Brasília, São Paulo e Minas Gerais. Fará conferências em faculdades e outras entidades culturais. Está sendo recebida, segundo apuramos, por elementos da colônia portuguesa de tendências esquerdistas, bem como por escritores e intelectuais brasileiros de idêntica orientação.

Até o momento, não disponho de informação precisa sobre a visita ao Recife e sobre os contatos realizados ali. Porém, soube que ela foi recebida pelo poeta João Cabral de Melo Neto.5 Não localizei quem foram os "elementos da colônia portuguesa de tendências esquerdistas", mas posso supor que José Paulo Moreira da Fonseca fosse um deles, pela referência da nota de Ylcléa. Ainda sobre os "escritores e intelectuais brasileiros de idêntica orientação", ao citar nomes retirados de publicações dos jornais, talvez seja mais prudente não arriscar identificações. De todo modo, o documento do SNI é transparente quanto ao regime de liberdade que vigorava entre nós.

Sophia foi vigiada, mas não parece ter sido assediada, tampouco que tenha havido censura direta ou indireta que a impedisse de falar, sobretudo de política. Ao menos isso é o que faz pensar a matéria que saiu no Jornal do Brasil de 2 de junho de 1966, versando sobre sua palestra na PUC-Rio. A matéria, assinada por Miriam Lemle, resume o encontro sob o título "O artista não tem direito de ser cúmplice", cita várias falas de Sophia e, logo no primeiro parágrafo, registra:

Segundo Sophia, a poesia está intimamente ligada à justiça e "nem mesmo o artista, como ser individual, em nome da sua liberdade ou da pureza da sua arte, tem o direito de ser cúmplice de uma injustiça ou de um erro". A sua conferência foi seguida de longa sessão de perguntas e respostas em que a poetisa desfez mal-entendidos e aprofundou alguns pontos.

Eram tempos difíceis para a fala livre. No entanto, aqui lá vai, tomando banho de mar, assistindo ao samba, à roda de capoeira, aos candomblés, Sophia deu suas mostras de coragem pessoal e intelectual. Há nisso alguma ingenuidade ou alguma imprudência? Não creio. Estamos diante de alguém que sabia muito bem o que fazia, sobretudo quando a matéria era política. Sua viagem ao Brasil no governo militar é ação que confirma tanto a resistência aberta ao salazarismo quanto a potência do fazer poético.

Brasília

Ao lado dos dois poemas dedicados a Manuel Bandeira (dos quais um chegou até nós e pode ser datado de 1966), Sophia compôs ainda mais um durante sua estadia no país, o belíssimo "Brasília", que leu na Academia Brasileira de Letras. "Brasília" é um dos mais poderosos testemunhos de sua viagem ao Brasil e infelizmente tem sido esquecido pelos comentadores. A cidade-capital criada sob a ordem de Juscelino Kubitschek em 1960, projeto de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, visitada pela poeta em junho de 1966, não tinha ainda seis anos de vida. Sophia admirou-se com a cidade e, decerto, com a ousadia do projeto, que compreendeu não apenas como urbanístico e arquitetônico, mas igualmente de consciência histórica e política. O poema resultou dessa experiência e foi publicado em Geografia (1967):

Brasília

As formas justas emergem
Do chão liberto
Como se cada uma das coisas
Proclamasse a sua própria evidência
A sua harmonia a sua verdade

As formas justas não são memórias
Nem projectos mas sim a presença
Pura do real: fiel ao homem e fiel ao espaço
Sem mentira nem nostalgia

Há os que querem voltar ao jardim
Há os que querem voltar à caverna
Porém tu ó cidade construída
No centro do reino de Ártemisa
És feita da substância do presente
Com que o tempo da terra se coroa

Por isso em ti resplandece
Tudo o que existe sem disfarce:
A pedra na nudez de pedra
A laje na nudez de laje
A coluna na nudez de coluna

A água sobe brilhante das bicas
Tudo reluz banhado
Na presença do espaço

Tudo vive à luz clara
Do planalto sem mancha

E em ti cidade se respira
A inspiração que emerge
Como um grito puro
Das formas naturais sem culpa

Ó cidade que dás as mãos ao espaço
E bebes a luz imensa do cerrado

Eu te saúdo ó cidade inventada
Eu te saúdo no esplendor da maresia
Ó mundo que começa
Limpo inaugural total

Trata-se de poema que celebra, respeitosamente, o advento de uma cidade moderna, e nele vemos a própria poeta celebrar também a beleza, a justiça, o presente, a América, o futuro, a liberdade. Brasília -- no poema e enquanto cidade -- é pensada a partir do modo como se relaciona com o espaço: "As formas justas emergem/ Do chão liberto". O que é emergir senão nascer, aparecer, ter início? "Emergir" é uma ação pontual e não contínua, ou seja, marca o aparecimento das formas, e não um processo de construção que as estabeleceria ao longo do tempo. As "formas justas" parecem ter sempre existido e se revelam subitamente, como se tivessem esperado esse momento oportuno para aflorarem.

O modo verbal revela outro aspecto importante do poema: a escolha pelo presente do indicativo. É o tempo que domina "Brasília" e que assinala a dimensão do real. As "formas justas" nascem do "chão liberto", ou seja, de uma terra livre. Como pode haver chão liberto? Não estará Sophia aludindo ao fato de que ali a terra teve usos outros que não o da exploração do trabalho escravo? Brasília foi erguida onde antes havia apenas cerrado. Erguê-la ali não constituiria a melhor maneira de dar corpo à utopia de um Brasil novo?

Brasília emerge e emerge proclamando "a sua própria evidência/ A sua harmonia a sua verdade". Não se trata de qualquer evidência, de qualquer harmonia e de qualquer verdade: essas formas proclamam sua própria evidência, sua própria harmonia, sua própria verdade, pois pertencem a um aqui e agora que é o das "formas justas".

Brasil 77

Se "Brasília" é um canto de celebração, "Brasil 77" é um canto de lamento e resistência. Escrito em 1977, onze anos depois da viagem de Sophia ao Brasil, o poema retoma alguns dos temas de "Brasília", mas os desloca para um registro de dor e denúncia. Entre 1966 e 1977, o Brasil viveu alguns dos momentos mais sombrios de sua história recente. A ditadura militar, que começara em 1964, endurecera-se com o AI-5 em 1968. A tortura tornara-se prática sistemática. A censura sufocava a imprensa, as artes, a cultura. Centenas de pessoas foram presas, torturadas, mortas, desaparecidas. Sophia, que conhecera o Brasil em 1966, antes do endurecimento do regime, viu de longe o país mergulhar na violência e na repressão.

O poema "Brasil 77" nasceu desse contexto. Foi escrito em resposta a um convite da revista portuguesa Loreto 13, publicação da Associação Portuguesa de Escritores, para que intelectuais e artistas manifestassem solidariedade ao povo brasileiro. Sophia escreveu então um poema que dialoga diretamente com Manuel Bandeira, retomando versos de "Espanha no coração", poema que Bandeira publicara em 1938, em solidariedade à República Espanhola durante a Guerra Civil. O poema de Bandeira foi escrito em plena ditadura de Franco e publicado dois anos depois em Belo belo, livro no qual, provavelmente, a poeta portuguesa teve acesso a ele. Cito um fragmento do início:

Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração. Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão.
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!47

Sophia retoma "No vosso e em meu coração" e escreve "Brasil 77". Nesse retorno, vê-se uma série de homenagens. Em primeiro lugar, ao próprio Manuel Bandeira e à luta pela liberdade e pela justiça por meio da poesia. Se a intertextualidade também evoca, em particular, escritores e artistas que se envolveram direta ou indiretamente na famigerada Guerra Civil Espanhola, "Brasil 77" é sobretudo uma reafirmação de laços com o país e com os brasileiros. Foi publicado na revista literária Loreto 13, periódico mensal da Associação Portuguesa de Escritores, na edição de janeiro de 1978:

Brasil dos Bandeirantes
E das gentes emigradas
Em tuas terras distantes
As palavras portuguesas
Ficaram mais silabadas
Como se nelas houvesse
Desejo de ser cantadas
Brasil espaço e lonjura
Em nossa recordação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não

Brasil de Manuel Bandeira
Que ao franquismo disse não
E cujo verso se inscreve
Neste poema invocado
Em vosso e meu coração
Brasil de Jorge de Lima
Bruma sonho e mutação
Brasil de Murilo Mendes
Novo mundo mas romano
E o Brasil açoriano
De Cecília a tão secreta
Atlântida encoberta
Sob o véu dos olhos verdes
Brasil de Carlos Drummond
Brasil do pernambucano
João Cabral de Melo que
Deu à fala portuguesa
Novo corte e agudeza
Brasil da arquitetura
Com nitidez de coqueiro
Gente que fez da ternura
Nova forma de cultura
País da transformação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não

Brasil de D. Hélder Câmara
Que nos mostra e nos ensina
A raiz de ser cristão
Brasil imensa aventura
Em nossa imaginação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não48

Versos de musicalidade flagrante, construídos com a popular metrificação em sete sílabas poéticas, pleiteiam um colóquio direto, ou seja, a transparência de uma intervenção no debate sobre a política brasileira. A palavra de ordem bandeiriana -- "A Espanha de Franco, não!" -- ecoa e mantém-se com o mesmo propósito, o de concluir as estrofes estruturalmente como refrão, que as arremata com o incitamento à luta contra a tortura, chamado que equivale, por contiguidade, à confrontação com a ditadura militar.

Brasil e Brasília são nomes que se confundem, como ecos, espelhamentos, e, inseparáveis, guardam um mesmo destino. No terror dos tempos -- que a data, no título, situa e restringe -- o poema de Sophia de Mello Breyner Andresen trouxe a primeiro plano algo bem mais permanente: "Gente que fez da ternura/ Nova forma de cultura/ País da transformação." Assim, "Brasil 77" não é só a triste imagem invertida de "Brasília", e faz ver, antes, o lúcido amor pela "aventura" de construir "no centro do reino de Ártemis" um território justo, de "formas justas".49

*Texto publicado no livro Sena e Sofia — Centenários, publicado pela Bazar do Tempo em 2020.

 

 


Eucanaã Ferraz é poeta, publicou entre outros, Desassombro (2002, Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional) e Sentimental (2012, Prêmio Portugal Telecom de Melhor Livro de Poesia). Seus livros de poemas, oito ao todo, foram reunidos em 2016 em um único volume pela Casa da Moeda/Imprensa Nacional de Lisboa. Também escreve poesia para criança, podendo-se destacar Palhaço, macaco, passarinho (2010, Prêmio Ofélia Fontes, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Melhor Livro para a Criança) e Cada coisa (2016, Prêmio de Melhor Livro de Poesia e de Melhor Projeto Editorial pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Organizou, entre outros, dois livros de Caetano Veloso, Letra só (2003) e O mundo não é chato (2005); de Vinicius de Moraes, Música, poesia, prosa teatro (2017), obra compilada em dois volumes. Seu mais recente trabalho foi a organização de Coral e outros poemas, antologia de Sophia de Mello Breyner Andresen (2018). Também é professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e atua como consultor de literatura do Instituto Moreira Salles.


Notas de Rodapé
1. O documento se encontra no espólio da autora, depositado na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa.
2. "Um encontro com Sophia de Mello Breyner Andresen", Relâmpago, nº 9, p. 88, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, out. 2001.
3. Revista Brasileira, nº 111, p. 84, Rio de Janeiro: ABL, jan-jun, 1966.
4. Sophia de Mello Breyner Andresen refere-se a "Morte no avião", poema de A rosa do povo, de 1945. O verso correto (o último do poema) é: Caio verticalmente e me transformo em notícia (destaque meu).
5. As palavras significariam: foi numerado, foi calculado, foi removido. Daniel interpreta-as assim: "Este é o sentido da escrita: o tempo do teu reino foi calculado; o teu reino chega ao fim. Foi cerceado; e acabou. Aos medos e aos persas está a ser dado." Bíblia, v. iii, Antigo Testamento; os livros proféticos. Trad. do grego, Frederico Lourenço, Lisboa: Quetzal, 2017, p. 965.
6. Ibid., p. 963.
7. Todas as citações de poemas terão por base o volume Obra poética, Lisboa, Assírio & Alvim, 2015. Aqui, p. 509.
8. Idem, p. 816.
9. Ibid.
10. "Sophia Fala a Eduardo Prado Coelho", icalp Revista, nº 6, p. 64, ago./dez., 1986.
11. Sophia de Mello Breyner Andresen, Relâmpago, n. 6, 2001, p. 8.
12. Entrevista a Walmir Ayala, Correio da Manhã, Segundo Caderno, 28 mai 1966.
13. A carta está depositada no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa, no espólio de João Cabral de Melo Neto.
14. Obra poética, 2015, p. 193
15. Idem, p. 397.
16. Ibid., p. 421.
17. Ibid. p. 475
18. Ibid., p. 436.
19. Ibid., p. 556.
20. Ibid., p. 498.
21. Ibid., p. 872.
22. Sophia de Mello Breyner; Jorge de Sena, Correspondência 1959-1978, Lisboa: Guerra & Paz, 2006, p. 83.
23. Ibid., p. 85.
24. Ibid., p. 89.
25. Eduardo Prado Coelho, A mecânica dos fluidos: literatura, cinema, teoria, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p. 119.
26. Obra poética, 2015, p. 74.
27. O texto foi fixado por Maria Andresen, escritora e filha de Sophia.
28. "Viagem de automóvel do Rio a Brasília", Revista Ler, dez. 2012, p. 42. As próximas citações são extraídas do mesmo texto.
29. O documento está depositado no espólio da autora.
30. Obra poética, 2015, p. 734.
31. Idem, p. 488.
32. "Portas da vila" (Geografia): "Com um barulho de papel o vento range na palmeira"; "Homenagem a Ricardo Reis" (Dual, de 1972): "Palmeiras nas ruínas de Palmira"; "Em Hydra, evocando Fernando Pessoa" (Dual): "Desde a praia onde se erguia uma palmeira chamada Nausikaa"; "Para Árpád Szenes" (O nome das coisas, de 1977): "Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira." Árpád Szenes (1897-1985), artista plástico húngaro, foi casado com a pintora Maria Helena Vieira da Silva. O casal viveu no Rio de Janeiro de 1940 a 1947.
33. Obra poética, 2015, p. 540.
34. A carta está depositada no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, no espólio de João Cabral de Melo Neto.
35. Obra poética, 2015, p. 567.
36. A educação pela pedra, in. Poesia completa. Lisboa: Glaciar; Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2014, p. 461.
37. icalp Revista, n. 6, p. 65, ago-dez, 1986.
38. Felipe Recondo, Tanques e togas: O StF e a ditadura militar, São Paulo: Compahia das Letras, 2018, p. 31.
39. Revista Brasileira, v. 111, Rio de Janeiro: ABL, jan-jun, 1966.
40. Graça Almeida Rodrigues, Breve história da censura literária em Portugal, Lisboa: ICLP, 1980.
41. O manifesto encontra-se reproduzido no site da Biblioteca Nacional de Portugal, em sua parte dedicada a Sophia de Mello Breyner Andresen.
42. Obra poética, Lisboa, 2015, p. 566.
43. Entrevista a Walmir Ayala, op. cit.
44. Este trecho da carta foi publicado pelo jornalista Ézio Pires no Correio Braziliense, em 12 de junho de 1966.
45. P. 355.
46. Obra poética, 2015, p. 668.
47. Estrela da vida inteira; poesias reunidas, 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, INL, 1970, p. 190.
48. Obra poética, 2015, p. 912.
49. Agradeço a Maria de Sousa Andresen, Rafaela Cardeal, Alexandre Vidal Porto, Ana Cristina Moreira da Fonseca, Sérgio Ribeiro da Costa, Federico Bertolazzi, Antonio Carlos Secchin, Pedro Correia do Lago, José Mário Pereira, Carlos Mendes de Sousa, Jorge Reis-Sá, Nicolas Behr, Fábio Frohwein, Gilda Santos, Gastão Cruz e Alcino Leite Neto. Esse texto -- numa versão ligeiramente diversa -- foi publicado na revista Piauí, nº 159, dezembro de 2019.

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