Carnaval, alegria e direitos humanos

Por Luiz Antonio Simas

O Brasil é um país marcado por projetos históricos de exclusão, concentração da riqueza, aniquilação material e espiritual de saberes não brancos e esgarçamento do viver em comunidade. Nesse sentido, os folguedos populares são um contraponto ao horror e instâncias possíveis de reconstrução do ser a partir do pertencimento encantado ao comum.

Ao longo da nossa história, festejar foi afrontar o individualismo e a decadência da vida em grupo. Nas festas populares, fortaleceram-se laços contra a diluição comunitária, foram construídos pertencimentos e redes de proteção social e a vida foi afirmada nas frestas do desencanto.

Ao longo da história do Brasil, o Carnaval -- em toda a multiplicidade de suas manifestações -- constituiu-se como um espaço de celebração coletiva capaz de afrontar o individualismo e a decadência da vida em grupo.

Se o Brasil institucional, na maior parte do tempo, apostou na exclusão e na concentração da riqueza como um projeto de constituição do estado-nação, o povo brasileiro construiu, nas brechas da exclusão, sentidos de mundo manifestos na capacidade de resistir e, mais do que isso, reinventar a existência como experiência de soberania, alegria e liberdade. São estes sentidos que formam o campo simbólico das brasilidades, com nossas festas, cantos, danças, crenças, louvações, comidas, bebidas, brincadeiras, sortilégios etc.

É equivocada, portanto, a percepção de que o Carnaval é uma celebração escapista e alienada, destituída de sentidos mais profundos. A festa não contradiz a luta pela vida. Pelo contrário. No arrepiado das arrelias e na plenitude dos corpos fantasiados que sambam, pulam, rodopiam, desfilam; manifesta-se um dos direitos humanos fundamentais que precisam ser garantidos ao povo do Brasil: o direito à alegria!

Dentre as múltiplas facetas do Carnaval, esta é uma das mais relevantes e ignoradas. É evidente que a festa tem repercussões importantes no campo da economia, do turismo, da geração de emprego e de renda para os que trabalham na folia. Não podemos ignorar, entretanto, a dimensão simbólica implicada no exercício comunitário do folguedo como algo constituinte da experiência mais sensível do ser.

O poeta Hermínio Bello de Carvalho, em um samba em parceria com Paulinho da Viola, escreveu -- em homenagem à Estação Primeira de Mangueira -- que "a vida não é só isso que se vê; é um pouco mais". Bebendo na fonte do poeta, afirmamos que dentre os direitos fundamentais das pessoas, está também o de celebrar a vida -- mesmo quando é a mortandade que vigia - nos bailes, blocos, cordões, escolas de samba, fanfarras, clubes de frevo, maracatus, afoxés etc.

Em tempos cada vez mais marcados pelo esgarçamento do viver em comunidade, foram as festas populares que deram, e continuam dando, sentido a muitas vidas. Na costura das mais diversas fantasias, as agulhas e linhas bordam o direito que cada um tem de estar plenamente -- de forma alegre e festeira -- nas ruas e no mundo.


Luiz Antonio Simas é historiador, professor, escritor e compositor. É autor de diversos livros de história e cultura popular. Pela Bazar do Tempo, publicou "Almanaque Brasilidades: um inventário do Brasil popular" (2018), "Arruaças: uma filosofia popular brasileira" (com Luiz Rufino e Rafael Haddock-Lobo) (2020), "Santos de casa: fé, crenças e festas de cada dia" (2022) e "Bestiário brasileiro" (2024).

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