Por Andreza Jorge
“Sei que a vida não pode ser vista só a olho nu, de muitas histórias já sei, pois vieram das entranhas do meu povo; o que está guardado na minha gente, em mim dorme um leve sono. E basta apenas um breve estalar de dedos para as incontidas águas da memória jorrarem os dias de ontem sobre os dias de hoje.”1
Conceição Evaristo
Em julho de 1985, um ônibus saiu do Rio de Janeiro em direção a Bertioga, no litoral de São Paulo. A viagem foi agenciada e planejada por mulheres ativistas, moradoras de favelas, que carregavam em suas esperanças a possibilidade de uma luta feminista plural e inclusiva. À frente do ônibus, uma faixa anunciava: “Abaixo o assistencialismo, queremos estar na Constituinte”. Era o grito do Centro de Mulheres de Favela e Periferia (CEMUFP), que partia rumo ao 3º Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho.
Essas mulheres faveladas em excursão não tinham dinheiro para pagar a taxa de inscrição para participar do encontro, mas ainda assim se organizaram e viajaram, levando consigo seus filhos, sua força comunitária e o desejo de autorrepresentação. O episódio aparece registrado em relatos jornalísticos da época e posteriormente em análises acadêmicas sobre o encontro.
Ao longo da minha trajetória como uma feminista favelada, essa é uma das histórias que vem “das entranhas do meu povo” e me ajuda na missão urgente em alargar compreensões que ainda hoje enclausuram experiências de mulheres em uma pressuposta universalidade, por isso, excludente, racista, classista e profundamente descontextualizada de território.
Quando aquelas mulheres chegaram ao Encontro Feminista tudo parecia desfavorável a suas presenças naquele espaço. Inclusive com acusações e desconfianças já conhecidas que recaem sobre pessoas que encarnam a intersecção de opressões que marcam diferenças sociais estruturais. Nos registros jornalísticos é possível ter noção do tipo de suspeitas que circularam na época. Uma delas era a certeza de que elas estavam sendo manipuladas para “queimar” o movimento feminista brasileiro.2 Para muitos, era praticamente impossível imaginar que essas mulheres das favelas cariocas, negras, pobres, nordestinas, teriam estofo político, ou mesmo experiência e autonomia para empreender tal ação.
Encontrei essa história muitas vezes ao longo da minha trajetória, seja durante a escrita do meu livro, durante minha pesquisa de doutorado e ao longo da minha vida na Maré. Entre esse grupo de mulheres havia uma moradora da Nova Holanda, minha favela, uma das lideranças mais lembradas na luta pelos direitos das mulheres faveladas da época, a dona Maria Amélia Belfort.
Filha de migrantes nordestinos, Maria Amélia foi removida ainda jovem da favela da Praia do Pinto, no Leblon, durante as políticas de remoção que marcaram o Rio de Janeiro na década de 1960. Como tantas outras famílias, foi jogada na recém-criada favela da Nova Holanda, na Maré. Ali construiu sua vida criando seis filhos, trabalhando como diarista na zona sul da cidade e se tornando uma liderança comunitária profundamente implicada nas lutas do território.
Sua trajetória foi marcada por uma intensidade difícil de resumir. Entre o trabalho, a maternidade e a organização política, Maria Amélia mobilizou vizinhas, participou da associação de moradores, organizou eventos culturais e articulou debates sobre direitos básicos dentro da favela. No entanto, sua história também foi atravessada pela violência estrutural que recai sobre os corpos de mulheres empobrecidas, racializadas e territorializadas. Maria Amélia foi submetida a uma violação de seus direitos reprodutivos ao ter um DIU de cobre implantado sem consentimento ou informação adequada, prática historicamente associada às políticas de controle reprodutivo dirigidas a mulheres faveladas e periféricas na América Latina, assim como a mulheres negras e indígenas na América do Norte.
Em função disso, ainda muito jovem, desenvolveu um câncer agressivo. Aos 33 anos passou por múltiplas cirurgias que resultaram na retirada de parte significativa de seu sistema reprodutivo e digestivo, passando a viver com uma bolsa de colostomia. Mesmo diante dessas adversidades, ela seguiu atuando politicamente. Essa foi a mulher que viajou horas dentro de um ônibus para reivindicar direitos, não apenas para si, mas para todas as mulheres faveladas.
Em uma entrevista concedida na época, ela explicou com clareza o motivo de sua presença naquele encontro, ao dizer que o empenho de seu grupo em participar das discussões fazia parte de um momento político em que mulheres faveladas buscavam conquistar espaço nas decisões que afetavam suas próprias vidas, afirmando que “não aceitavam mais um modelo pronto de vida, baseado em teses e teorias que nada tinham a ver com sua realidade, e que somente participando poderiam aprender, errar e construir caminhos próprios.”4
Em outra ocasião, ao ser perguntada sobre o significado do Dia Internacional da Mulher, respondeu de forma igualmente contundente que, para a mulher favelada, aquela data não significava nada.5 Foi justamente o uso do termo “favelada” que sempre me chamou atenção nessa afirmação. Ao adjetivar a palavra mulher dessa forma, Maria Amélia deslocou a ideia universal de “mulher”. Ser uma mulher favelada significava viver uma experiência atravessada simultaneamente por desigualdades de classe, raça e território. Viver sob um Estado de exceção que naturaliza a precarização do acesso aos direitos básicos que ela sentia todos os dias no corpo mutilado por ser mulher, por ser pobre, por ser favelada.
Ao ler essa afirmação, não consegui deixar de lembrar do famoso discurso que atravessou e formou nossos imaginários feministas amefricanos, proferido por Sojourner Truth em 1851 durante uma convenção sobre os direitos das mulheres nos Estados Unidos, ao questionar “E não sou eu uma mulher?”. Assim como Truth expunha os limites de uma categoria universal de mulher que excluía mulheres negras, Maria Amélia, ao dizer “mulher favelada”, partindo de sua própria experiência contextualizada, produziu outra fissura nesse universal.
Seu corpo, marcado pelas estruturas que tratam mulheres faveladas como “fábricas de marginais”,6 materializava essa crítica e revelava que as experiências de opressão e resistência não podem ser compreendidas fora dos contextos concretos e territorializados em que se produzem.
Assim continuo a embasar e fundamentar os feminismos favelados como uma teimosia ancestral herdada e partilhada na luta comunitária e no convívio que sustenta, ao mesmo tempo, o luto e a festa que emergem de cada beco, rua e viela na vida dos “crias”. A luta feminista nesta perspectiva intersecciona marcadores sociais da diferença, mas também amplia essas análises ao incorporar o território como dimensão fundamental da experiência social. Pois se existem opressões específicas, as respostas também são específicas e historicamente produzidas em primeira pessoa por quem vive essas realidades e precisa reinventar caminhos a cada dia.
O que precisamos é reconhecer “este rio de águas da memória, cheio de histórias que seguem jorrando nos dias de hoje”, e abrir espaço para que essas águas fluam, nos ensinando fluxos fundamentais para não secar com invisibilidade a luta histórica das mulheres diversas que nos sustentaram até aqui.
A favela não é apenas o lócus de pesquisa sobre a desigualdade. É também lugar de elaboração política, produção de conhecimento e organização coletiva contra a desigualdade, historicamente sustentada pelas redes comunitárias que a conformam. Reconhecer isso é fundamental para avançarmos na urgente pluralização de vozes no debate feminista. Questões sociais são sempre contextuais e, para que projetos coletivos não se tornem vazios ou meramente tokenizados, é preciso dar corpo e voz às experiências concretas de quem vive essas realidades.
Esses corpos individuais nunca estão sozinhos pois carregam essas histórias, redes comunitárias, processos políticos coletivos e tudo que não pode ser apenas visto a olho nu. Eu sou continuidade.
Durante a escrita de Feminismos favelados, fui me aproximando cada vez mais da história de Maria Amélia que, embora tenha falecido em 1987, um ano antes de eu nascer, esteve sempre presente como referência de luta na Nova Holanda, onde muitas vezes a conheci como a “referência das minhas referências”. Tive o prazer de aprofundar mais sobre sua história e de outras mulheres faveladas durante meu doutorado.7 Tornar visível seus feitos é manter esse compromisso com a luta das mulheres e sua ampliação representativa.
Aquele ônibus que saiu do Rio de Janeiro em direção a Bertioga em 1985 foi uma afronta, uma ousadia de quem tinha e ainda muito a dizer, reivindicar e somar na luta por um futuro possível para todas as mulheres. Aquelas mulheres faveladas estavam ali reivindicando o direito de participar, de falar e de decidir sobre os rumos de um movimento que também dizia respeito às suas vidas.
Publicar um livro como Feminismos favelados, décadas depois, é, sem dúvida, dar continuidade a essa empreitada. Projetos editoriais feministas desempenham um papel fundamental nesse processo, ao abrir espaço para narrativas que deslocam os centros tradicionais de produção de conhecimento. Tenho muito orgulho de ter a Bazar do Tempo como grande aliada na ampliação desse debate público, que torna visíveis trajetórias que, por muito tempo, permaneceram fora das páginas dos livros.
Escrevo porque muitas mulheres vieram antes de mim, como Maria Amélia e todas as companheiras que estavam junto a ela naquele ônibus, e como a grande e inesquecível companheira de luta da Maré, Marielle Franco, que sempre será lembrada, pois encarnava em sua trajetória política aquilo que afirmava como lema fundamental de quem entende sua missão: Eu sou porque nós somos.
Continuamos a fortalecer, difundir e alargar espaços que honrem a memória das que vieram antes enquanto celebramos juntas as mulheres de luta que estão e as que virão.
1 Evaristo, Conceição. Histórias de leves enganos e parecenças. Rio de Janeiro: Editora Malê, 2016, p. 15. ↑
2 Jornal Tribuna da Imprensa, 03 e 04 de agosto de 1985. ↑
4 Jornal Tribuna da Imprensa, 03 e 04 de agosto de 1985. ↑
5 Jornal O Favelão, março-abril de 1982. ↑
6 Em referência à afirmação proferida em 2007 pelo então governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral, sobre aborto e esterilização compulsória como medida de segurança pública nas favelas cariocas. Disponível em: extra.globo.com/noticias/rio/cabral-defende-aborto-como-forma-de-combate-violencia-no-pais-719993.html. ↑
7 JORGE, Andreza da Silveira. Mulheres do fim do mundo: performances, memórias e insurgências faveladas da Maré. Tese (Doutorado em Artes da Cena) — Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, Escola de Comunicação, Centro de Letras e Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2025. ↑









