A literatura como ferramenta de reposição de imaginários

Por Sara Araújo

A Bazar do Tempo completa uma década de existência e concluiu sua primeira década de vida. Recebi um lindo convite para escrever um texto à aniversariante e, de pronto, aceitei o convite irrecusável, daqueles que sentimos orgulho e alegria em receber para poder retribuir todo afeto.

Tenho uma relação muito amorosa com a Bazar do Tempo. Ela entrou na minha vida através da grandiosa escritora nigeriana, a socióloga e pesquisadora Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, com seu livro seminal A invenção das mulheres. No campo dos estudos de gênero, há um antes e um depois de Oyèrónkẹ́. É leitura obrigatória para quem deseja avançar nos estudos feministas.

A segunda obra que tive a sorte de ler foi Entre nós mesmas, da grandiosa Audre Lorde, autora incontornável.

Em Perder a mãe, Saidiya Hartman nos brinda com uma obra fenomenal. “Fabular” é verbo-vida às pessoas que foram destituídas de humanidade dentro de um mundo marcado pela colonialidade; é o espaço da memória, do não esquecimento, é insurgir-se contra a árvore do não retorno.

Entrar na Bazar é transpor um portal entre mundos e encontrar Aimé Césaire, afirmando sua negritude, Édouard Glissant com sua poética dos afetos, Yanick Lahens evocando a memória do Haiti com Toussaint Louverture e sua luta por direitos humanos e alteridade, juntamente com a luta de todas as mulheres.

É encontrar Anne Lafont, autora de Uma africana no Louvre, e lembrar que a arte também é um gesto de humanização. Ao apresentar Madeleine, uma jovem negra que posa para a artista Marie-Guillemine Benoist em 1800, Lafont a desloca do lugar de subalternidade e a restitui como sujeito de sua própria presença e história.

Conhecemos as irmãs Nardal e o movimento de valorização da negritude que elas iniciaram muito antes de a célebre tríade formada por Césaire, Senghor e Damas ganhar projeção. Foram Paulette e Jane Nardal as pioneiras da Renascença Negra, lançando as bases intelectuais e políticas que dariam origem ao movimento da Negritude.

Evocar esses nomes é lutar contra o apagamento epistêmico, reposicionando esses sujeitos no tecido social. É assumir um compromisso anticolonial, fazendo ecoar as vozes e os pensamentos daqueles e daquelas que sempre produziram conhecimento e elaboraram o mundo, mas foram intencionalmente apagados da história.

E é com Você lembrará seus nomes, antologia de poetas negras estadunidenses do século XX organizada pela magistral Lubi Prates, que esse percurso se amplia. A obra reúne vozes fundamentais como June Jordan, Amina Baraka, Maya Angelou, Lucille Clifton, Sonia Sanchez, Jayne Cortez, Angelina Weld Grimké, Gwendolyn Bennett, Gwendolyn Brooks, Audre Lorde, Nikki Giovanni, Pat Parker, Alice Walker, Wanda Coleman, Cheryl Clarke, bell hooks, Rita Dove, Nikky Finney e Harryette Mullen. As traduções, assinadas pelas incríveis Desirée dos Santos, Luana Moreira, Nina Rizzi, Fernanda Bastos, Bruna Barros, Jess Oliveira, Floresta, Jade Medeiros, Marina Correia Santos, Lubi Prates, Tatiana Nascimento, Sara Ramos e Ana Meira, dialogam com as belíssimas ilustrações de Mayara Ferrão.

Tive a alegria de acompanhar o lançamento na Livraria Megafauna. Foi emocionante ver tantas mulheres potentes reunidas para celebrar e dar voz a outras mulheres igualmente potentes. Porque lembrar seus nomes é também enfrentar o apagamento e afirmar que nenhuma delas será esquecida.

O aniversário é da Bazar do Tempo, mas o presente é de todos nós, sobretudo das pessoas negras. Graças ao trabalho da editora, temos a oportunidade de acessar obras de autores e autoras negras que, talvez, demorassem muito mais para chegar até nós.

A Bazar coloca em prática o que a nossa grande “Orí-entadora” Conceição Evaristo nos exorta a fazer: “É preciso política de citação para combater política de apagamento”.

Um brinde à Bazar do Tempo, que ela continue sendo esse grande balcão de apresentação de ideias para buscarmos um mundo justo em que todos os corpos sejam acolhidos.

Até a próxima.


Sara Araújo nasceu em Salvador, na Bahia, e tem 48 anos. É mestranda em Ciências Sociais, bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica e analista jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico-Racial Lélia Gonzalez da Associação dos Servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidade da Defensoria Pública do Paraná, e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. É coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000), Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021), Mães pretas – maternidade solo e dororidade (2021), Expressinho poético (2022) e Quando o racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrá-la nos perfis @literaturanobar e @saraaraujo_______.

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