Por Tânia A. Kuhnen (UFOB) e Daniela Rosendo (UFSC/PUCRS)
Françoise d’Eaubonne é frequentemente citada como a autora que introduziu o termo ecofemismo nas discussões sobre a opressão das mulheres e da natureza. Os movimentos de mulheres, em diferentes lugares do mundo, e, aos poucos, também na academia, estavam refletindo sobre os incômodos com o machismo nas lutas organizadas pelos direitos animais (Adams, Gruen, 2022) e sobre a ausência da voz das mulheres no movimento ambientalista (Warren, 2000). Em outros contextos, destacava-se o protagonismo de mulheres em diversas causas ambientais, a exemplo do caso de Chikpo, retratado e apoiado pela ecofeminista indiana Vandana Shiva (2024), no qual as mulheres se organizaram para enfrentar o avanço do capitalismo desenvolvimentista e colonialista, que ameaçava a reprodução de seus modos de vida.
É nesse contexto que surge o movimento ecofeminista francês e a publicação, em 1974, do livro Feminismo ou a morte, de Françoise d’Eaubonne, traduzido pela Bazar do Tempo. Na obra, tem-se o relato de uma autora engajada em uma proposta que, para ela, era a única saída para o futuro: a contestação de todo o sistema de poder centrado num certo modelo de masculinidade e reproduzido pelos homens, muitas vezes com a ajuda das mulheres, ao longo da história. Em contraposição, a derrocada do patriarcado cederia lugar ao ecofeminismo como um “novo humanismo”, com a “gestão igualitária de um mundo a renascer (e não mais a ‘proteger’ como ainda acreditam os doces ecologistas [...])” (p. 173).
Dos anos 1970 para cá, os ecofeminismos amplificaram os debates em torno de questões ambientais, animais e seu intercruzamento com as experiências e vivências de diferentes mulheres em distintos territórios, considerando também o desenvolvimento de diversas perspectivas feministas. Qual seria, então, a relevância atual da tradução de Feminismo ou a morte? Em primeiro lugar, trata-se de um resgate fundamental da história do pensamento (eco)feminista. A obra apresenta uma das primeiras formulações sistemáticas do ecofeminismo, conectando, de maneira pioneira, a opressão das mulheres e da natureza. Tornar esse texto acessível em português contribui para reconhecer o papel central de mulheres intelectuais na construção de campos teóricos e políticos, frequentemente invisibilizados, além de permitir que novas gerações entrem em contato com as origens e transformações desse pensamento.
Além do valor histórico, a obra permanece atual porque oferece ferramentas analíticas e conceituais que continuam a nos ajudar a compreender o presente. A crítica de d’Eaubonne à sociedade “falocrática” — estruturada pela centralidade do poder masculino e por uma lógica de dominação — continua pertinente para analisar as formas contemporâneas de organização social. Essa estrutura não apenas sustenta desigualdades de gênero, mas orienta práticas de exploração da natureza e de outros corpos considerados subalternos. Ao evidenciar que esse sistema é histórico e político, e não natural, a autora abre espaço para sua contestação e transformação.
A obra também dialoga diretamente com a atual crise socioambiental. O diagnóstico de que a continuidade de um modelo civilizatório baseado na dominação patriarcal pode levar à destruição das condições de vida no planeta ganha ainda mais força no contexto contemporâneo de intensificação das mudanças climáticas. A formulação provocativa de que se precisa escolher entre o ecofeminismo e a morte permanece potente, pois aponta para a necessidade de mudanças estruturais profundas, e não apenas de ajustes pontuais. A perspectiva ecofeminista, ao articular justiça ambiental e justiça social, mostra-se especialmente relevante para pensar alternativas diante de um cenário global marcado por desigualdades e pelo colapso ambiental e climático.
Muitos dos problemas analisados por d’Eaubonne em Feminismo ou a morte permanecem sem solução. A autora aborda, por exemplo, a opressão estrutural das mulheres em múltiplas dimensões da vida, evidenciando como a “feminitude” é construída como um conjunto de restrições que limitam a autonomia, a liberdade e as condições materiais de existência. Questões como desigualdade salarial, divisão sexual do trabalho, controle sobre os corpos e a reprodução, bem como a desvalorização social das mulheres, continuam presentes, ainda que sob novas configurações. De modo semelhante, a discussão sobre a cultura do estupro e a culpabilização das vítimas revela a persistência de formas de violência que continuam a estruturar a experiência cotidiana de muitas mulheres. Para além desse diagnóstico crítico sobre como a sociedade patriarcal limita e explora a vida das mulheres, a autora identifica nelas, entendidas como uma “maioria tratada como minoria”, um potencial político transformador. Essa ideia continua relevante para pensar o papel dos feminismos na construção de alternativas sociais, especialmente quando articulada a perspectivas que reconhecem a diversidade de experiências e a interseccionalidade das opressões. Revisitar essa proposta hoje permite não apenas reafirmar a centralidade das lutas feministas, mas também expandi-las em diálogo com outros movimentos sociais e ambientalistas.
A publicação também é importante porque possibilita reler a obra à luz dos debates contemporâneos, reconhecendo tanto suas contribuições quanto seus limites. O posfácio que acompanha a tradução, assinado por Myriam Bahaffou e Julie Gorecki, cumpre um papel fundamental ao situar o pensamento de d’Eaubonne em seu contexto histórico e ao apontar suas insuficiências, especialmente no que diz respeito às perspectivas eurocêntricas e às leituras hierárquicas sobre outras realidades. Esse exercício crítico não diminui a relevância da autora, mas, ao contrário, permite ampliar o campo ecofeminista, incorporando vozes, experiências e epistemologias diversas, em especial as provenientes do Sul Global. Nesse contexto, a obra se torna também um ponto de partida para pensar a pluralidade dos ecofeminismos contemporâneos. Ao mesmo tempo em que oferece conceitos e diagnósticos ainda úteis, sua releitura evidencia a necessidade de construir perspectivas mais inclusivas, capazes de dialogar com sujeitos não hegemônicos, experiências limítrofes e saberes ancestrais. Essa abertura é fundamental para enfrentar os desafios atuais de forma mais complexa e situada, evitando reproduzir lógicas coloniais no próprio campo crítico.
Diante da importância de se pensar em um projeto ecofeminista inclusivo para se construir uma nova sociedade, a tradução da obra de d’Eaubonne inspira horizontes de transformação. A ideia de “mutação”, apresentada pela autora, pode ser mobilizada hoje como um chamado à construção de novas formas de organização social que rompam com estruturas de dominação. Ao mesmo tempo, a noção de “desaparecimento” das estruturas baseadas na centralidade do poder patriarcal aponta para a necessidade de desmantelar sistemas que sustentam desigualdades e destruição ambiental. Em um cenário de crise climática e do aprofundamento das desigualdades, o ecofeminismo aparece não apenas como uma crítica, mas também como uma proposta ético-política para reorganizar as relações entre humanos, a natureza e outras formas de vida.
A publicação de Feminismo ou a morte é relevante, em síntese, porque articula memória e urgência: tanto recupera uma obra fundadora, quanto oferece instrumentos para pensar e agir diante dos desafios contemporâneos. Trata-se de um convite a revisitar o passado para transformar o presente e imaginar futuros possíveis a partir de uma perspectiva ecofeminista crítica, plural e comprometida com a justiça social e ambiental.
Referências
ADAMS, Carol; GRUEN, Lori (ed.). Ecofeminism: Feminist Intersections with Other Animals and the Earth. 2 ed. New York: Bloomsbury, 2022.
D’EAUBONNE, Françoise. Feminismo ou morte. Trad. Anna Bracher. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025.
WARREN, Karen. Ecofeminist Philosophy: A Western Perspective on What It Is and Why It Matters. Lanham: Rowman & Littlefield, 2000.
SHIVA, Vandana. Terra viva: minha vida em uma biodiversidade de movimentos. Trad. Marina Kater. São Paulo: Boitempo, 2024.
Tânia A. Kuhnen é professora do Centro das Humanidades da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB). Coordena o grupo de pesquisa “Marginais: Grupo de Pesquisa Interdisciplinar sobre Minorias e Exclusões”. É autora do livro Ética do cuidado: diálogos necessários para a igualdade de gênero (ed. UFSC, 2021).
Daniela Rosendo é doutora e mestra em Filosofia (UFSC), e graduada em Direito (Univille). Em 2022, finalizou um estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina. É autora do livro Sensível ao Cuidado: Uma perspectiva ética ecofeminista (Ape'ku, 2022).











