Édouard Glissant e o mar sem margens do pensamento

Por Ana Kiffer e Edimilson de Almeida Pereira

Obras e lacunas

Quando atentamos para as conexões culturais dos territórios afrodiaspóricos, nos damos conta da circulação restrita da obra de pensadores caribenhos no Brasil. Salvo no espaço circunscrito das universidades, não se tem notícias de uma distribuição ampla, entre nós, de obras como Bonjour et adieu à la négritude, de René Depestre; La isla que se repite, de Antonio Benítez Rojo; Lettres créoles, de Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant; History of the voice, de Edward Kamau Brathwaite; ou de artigos como “Leo Frobenius et le problème des civilisations”, de Suzanne Césaire. Essas obras, a exemplo das grandes especulações de Édouard Glissant (1928-2011), conformam um viés crítico que contesta as amarras do colonialismo e ressalta o protagonismo do sujeito afrodiaspórico na análise de sua própria experiência estética e cultural.

No caso de Glissant, não se tem ao menos uma antologia de sua obra poética em circulação no país. Tampouco traduções de seus oito romances, alguns premiados internacionalmente, como é o caso já do seu primeiro romance, La Lézarde, de 1958, que ganhou o prestigioso Prêmio Renaudot. Menos mal no que se refere aos ensaios. Nesse sentido, louve-se o trabalho da professora Enilce do Carmo Albergaria Rocha, do programa de pós-graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É dela a tradução de Introdução a uma poética da diversidade, publicado em 2005 pela editora da UFJF. Pela mesma editora, em 2014, Enilce Albergaria e a também professora Lucy Magalhães traduziram O pensamento do tremor – La cohée du Lamentin.

Glissant foi um poeta e pensador incansável, e sua obra é composta de oito romances, quatorze ensaios, nove livros de poemas e uma peça de teatro – Monsieur Toussaint, que teve sua origem quando Glissant cria com os colegas o grupo Franc-Jeu, na cidade de Le Lamentin, na Martinica, inspirado no surrealismo e atento às questões políticas. Mas será com a sua chegada em Paris, em 1946, seu ingresso na Sorbonne, sua amizade com Frantz Fanon, que o jovem autor escreverá, em 1949, o seu primeiro livro de poemas, Un champ d’îles, publicado em 1953 pela Éditions du Seuil. A partir desse momento, vida literária e vida política entrelaçam-se em todas as suas atividades. Sem, no entanto, reduzir nem uma nem outra ao apelo pragmático ou determinista de uma ideia prévia do fazer político ou do fazer poético-crítico, que eventualmente traçava o horizonte de sua época. Numa posição singular, constrói cuidadosamente esse caminho, sem apartá-la, quando necessário, das posições contundentes, tampouco sem deixar de tecê-las no interior complexo onde se nota, já em gérmen e em ação, a sua ideia de Relação: um trajeto aberto à multiplicidade e à errância. Deslocando o que comumente buscamos fazer para aplainar as angústias diante do tempo presente, mas sem se furtar ao compromisso e ao convite que perpassa os traços emaranhados do seu caminho, Glissant assume a tarefa de (re)imaginar o mundo.

Em 1956 o livro de ensaios Soleil de la conscience (Poétique I)1 inaugura um programa denso e sem retorno, onde vem se alojar este livro, Poética da Relação (Poétique III), de 1990, que abraça densa e plenamente a reflexão sobre a noção de Relação, que já aparecia em outros de seus textos, notadamente em O discurso antilhano, de 1981,2 mas que aqui passa a determinar, de forma central, toda a obra por vir deste autor.

Diante da grandeza e extensão desse projeto poético e conceitual ficamos de fato surpreendidos com a lacuna do seu pensamento no Brasil. Se levarmos em conta a acolhida de intelectuais afrodiaspóricos como W. E. B. Du Bois, Frantz Fanon, Angela Davis, Paul Gilroy, bell hooks e dos próprios africanos como Amadou Hampâté Bâ, Chinua Achebe, Achille Mbembe, entre outros nomes, a circulação restrita dos caribenhos mencionados ganha contornos mais dramáticos. A fronteira linguística não deveria ser um problema, uma vez que o inglês, o francês e o espanhol são línguas largamente traduzidas no Brasil. Não seria, portanto, o francês de Glissant um obstáculo intransponível. A questão, ao que parece, reside na originalidade do modelo ensaístico desenvolvido por ele.

Para além do estilo acadêmico reconhecível, por exemplo, nas articulações teóricas de Gilroy, ou do apelo engajado que nutre as análises sociais e políticas de Angela Davis, a obra ensaística de Glissant está radicada no tensionamento entre as áreas de sombra e luz que caracterizam por excelência a linguagem poética. Tal aspecto impõe desafios específicos à tradução: se por um lado há uma crítica à historiografia e às heranças do colonialismo (aspecto que funciona como um terreno firme para a tradução), por outro lado, o caráter movente e metafórico da linguagem poética resulta em conceitos que dificultam a entrada em outra língua. A professora Lilian Pestre de Almeida,3 por exemplo, elogiou as professoras Enilce Albergaria e Lucy Magalhães por juntarem “com muita razão e alguma astúcia, o título quase transparente O pensamento do tremor, ao título original, intraduzível (...)”, quando se ocuparam da tradução dessa obra de Glissant.

Esse enigma do título La cohée du Lamentin pode ser considerado como aspecto de um método glissantiano forjado com materiais da herança colonial e das matrizes culturais fragmentadas na diáspora negra. É a partir da fricção entre esses materiais, mais do que da oposição entre eles, que Glissant delineia um pensamento capaz de colher formas objetivas e subjetivas não consideradas pelo campo epistemológico das matrizes culturais do Ocidente. A necessidade primeira de decifrar esse método, antes mesmo de compreender como ele é aplicado, demanda uma vivência de larga duração com a história plurilíngue e multicultural dos territórios caribenhos, bem como com as interações entre o humano e o não humano das ilhas e arquipélagos tal como vislumbramos nas poéticas de Aimé Césaire, Derek Walcott e Edward Kamau Brathwaite, na prosa ficcional de Dany Laferrière e Patrick Chamoiseau e na prosa analítica de Suzanne Césaire.

Esse aspecto particular da ensaística de Glissant, como ressaltamos, perde terreno diante dos apelos de uma ensaística mais pragmática. Mas, ao mesmo tempo, se impõe, para quem a conhece, como um pensamento atento às distorções do real, dissonante em relação às fórmulas imediatistas de atuação estética e social e provocador pela ousadia de instaurar novos mecanismos de interpretação do real.

Da relação como poética viva

Em Édouard Glissant, em particular neste Poética da Relação, percebe-se uma narrativa que mantém o seu caráter dissertativo, encadeando acontecimentos e personagens, paralelamente a uma especulação sobre os dilemas que afetam os escravizados e, por conseguinte, suas culturas dentro e fora do continente africano e no exílio atribulado da escravidão. Dessa dupla face, delineia-se uma narrativa filosofante ou uma filosofia narrativa, que contempla a pulsão poética da linguagem e a dimensão política de denúncia da violência. Em Glissant, o pensamento sobre o social não é resolvido como um ato num drama partilhado pela sociedade, mas como uma narrativa em teia. Narrativa em teia é, por princípio, uma concomitância de vozes que se revelam nas arestas dos contatos sociais, menos afeitas às sínteses que favorecem políticas de dominação. Sob esse aspecto, a materialidade das relações sociais é considerada na articulação das poéticas de relação, mas não as determina. Pode-se considerar que em Glissant o pensamento extrai os princípios ativos da realidade para, mediante processos de reflexão e análise, propugnar outras realidades simbólicas. Esse modus pensante promove deslocamentos dentro da linguagem, condição prévia para que Glissant considere a realidade como deslocamento e não como fixação de fronteiras identitárias ou políticas.

Tratar a realidade como deslocamento e não como fixação caracteriza uma das linhas dessa teia em devir permanente, e ao mesmo tempo estruturante, daquilo que a poética pensante de Glissant toma como questão, método e convite: como se pode aumentar a potência e o desejo de (re)imaginarmos o mundo? Como imaginar o mundo pode se inscrever como método corpóreo movente, desalojando a imaginação do espaço mental, ali fixada como fantasia, fantasia ali enquadrada como algo menos sério, menos relevante, desprovido de ferramentas, mesmo quando móveis e cambiantes, para se refazer o desenho geopolítico e afetivo do mundo?

É no interior desse método emaranhado, de fios em devir, mobilizados e mobilizando a potência dos imaginários diversos das culturas, que o pensamento de Glissant, e mesmo o pensamento político subjacente às suas proposições e narrativas ensaísticas ou poéticas, pousa a noção seminal de Relação.

Compreendê-la exigiria, de alguma maneira, ingressar nos fios ali emaranhados. Irredutível à dialética que separa teses e antíteses, mesmo quando não resulta em nenhuma síntese, a Relação exige-nos um passo para o lado. Nesse passo convivem tanto o deslocamento da primazia do Ser (ocidental), em proveito de uma anterioridade do acontecimento da Relação, quanto o convite a uma opacidade permanente que, no jogo de luz e sombra de sua poética, vem emaranhar a fixação de uma ideia clara, e até mesmo da ideia do que é ou deve ser a Relação.

No campo do emaranhado é preciso certa sabedoria para andar sobre o fio, aquilo que Glissant chama de ser sendo. Ser sendo que vem balizando as metáforas das diversas sabedorias populares das Américas, que nos indicam desde muito que o caminho se faz caminhando. Que o Cruzeiro do Sul é quem guia o caminho, e que desnortear a lógica físico-mental, geográfica e política do Norte é fundamental para dar caminho,4 para criar rumos, para seguir caminhando. Mas o ser sendo, ou o caminho caminhante, não deixa de indicar paisagens-acontecimentos que esboçam ou desenham o espaço fundacional da primazia da Relação. Trata-se de uma aposta e de um convite ao porvir, de um imaginário poético-político e de um campo aberto e metafórico que, entretanto, se perfaz com os traços (esparsos ou devastados) das memórias da escravidão.5 Não por acaso o texto de abertura desta Poética da Relação intitula-se “A barca aberta”. Nele, Glissant evoca, por meio de uma constelação de imagens poéticas, o acontecimento do tráfico das pessoas escravizadas. De abismo em abismo ele faz insurgir o ventre da barca, o ventre do mar, o ventre vazio da terra sem mundo, do saque, do massacre, da rasura de todo e qualquer traço de origem ou de originário:

Os povos que então se constituíram, por mais que esquecessem o abismo, por mais que não soubessem imaginar a paixão daqueles que afundaram nele, teceram ainda assim uma vela (um véu) com a qual, sem retornar à Terra de Antes, cresceram nessa terra, repentina e estupefata. Ali encontraram os primeiros habitantes, também eles deportados por um saque estacionário. Ou então teriam farejado apenas seu rastro devastado. Terra do além tornada terra em si. E aquela vela insuspeita, que ao fim se desfralda, é irrigada pelo vento branco do abismo. E assim o desconhecido-absoluto, que era a projeção do abismo, e que trazia em eternidade o abismo-matriz e o abismo insondável, no fim tornou-se conhecimento.

Não somente conhecimento particular, apetite, sofrimento e gozo de um povo particular, mas o conhecimento do Todo, que aumenta com a frequentação do abismo e que no Todo libera o saber da Relação.6

É no tateio dessa frequentação do abismo, e mesmo quando esquecido, que se libera o saber da Relação. Esse conhecimento específico, mas não originário, vai sempre farejar o seu próprio rastro devastado. Glissant indica que tal saber se perfaz no encontro entre povos, culturas, línguas que até ali não necessariamente faziam trocas nem se comunicavam entre si. Esse contato partilhado, comprimido no espaço asfixiante da barca mortuária, ou no véu-vela que permite aos que sobreviveram à travessia o irromper numa terra, cujos povos originários encontravam-se também dela deportados in loco, indica que é no processo de contaminação de todas essas diferenças, ali reunidas sob as correntes da escravidão e do colonialismo, que se libera o saber da Relação. A Relação é o conhecer desse abismo, é o conhecimento mesmo dos rastros devastados, e é a abertura da imaginação, que mesmo através da incomunicabilidade, do silêncio e do aprisionamento traça o múltiplo da partilha de mundos unidos pela própria separação.

Na dinâmica da Relação, há uma contrapartida a ser considerada: aquela que reside nos sujeitos da recepção e sem a qual a lógica do movimento glissantiano perde o caráter de transformação por meio do qual inviabiliza a mera cópia e o mero acúmulo de matrizes culturais. Se na percepção de Glissant o mar do Caribe tem o descentramento e a passagem como fundamentação dos sentidos, há que se esperar um sujeito que não seja indiferente a essa vertente de produção do conhecimento. Esperar esse sujeito parece, como dizia Glissant, esperar pela palavra da paisagem. Uma espera que indica o tempo lento da transformação densa (o caramujo, a espiral), mas também um tanto da esperança, esse gesto inexplicável, insistente e delicado, mesmo quando claudicante. É desse modo que esse sujeito imediatamente se transforma nessa teia emaranhada, posto que a Relação, para Glissant, não é circunscrita pelo espaço interpessoal, alojada num e noutro sujeito humano. Ele a espera, poeticamente, quando percebe que o mundo-caos ou o Todo-Mundo poderá ser a teia do acontecimento relacional quando nos abrirmos à nossa capacidade para perceber que tudo entra em relação, inclusive vivos e não vivos, palavra e paisagem.

Até agora, como aponta o seu olhar generoso, é justo esse homem-sujeito centrado sobre si, que fez de sua própria imagem a ordem da semelhança, tingindo-a de um ente universal matizado de racismo e de colonialismo, quem vem recorrentemente impedindo o acontecimento da Relação. Tem-se aí, portanto, uma condição cognitiva que desafia os receptores a aprenderem a desaprender (sobre a história de si, sobre a própria constituição do si mesmo e de sua comunidade), ao mesmo tempo que percebem nesse paradoxo a iluminação para um mundo outro, onde se desloca um ser social em liberdade. Glissant delineia esse desafio de recepção no livro O pensamento do tremor7 quando escreve, na parte inicial intitulada “Como o pássaro inumerável”:

Imagine o voo de milhares de pássaros sobre um lago da África ou das Américas. O Tanganica ou o Erie, ou um desses lagos dos Trópicos do Sul que se aplanam e se fundem à terra. Veja essas revoadas de pássaros, esses enxames. Conceba a espiral que eles desenlaçam, e na qual o vento escorre. Mas não saberá enumerá-los verdadeiramente durante o seu lançar-se todo em crista e ravina, sobem e descem fora da vista, caem e enraízam-se, revoam em um só ímpeto, seu imprevisível é que os une e rodopiando aquém de toda ciência. Sua beleza golpeia e foge.

O traço poético do método de Glissant, associado à transformação como um fator inerente da Relação, se condensa numa poética da Relação que, à maneira da revoada de pássaros, cria uma paisagem cognitiva para precipitá-la imediatamente numa contrapaisagem. O imprevisível, como ressalta Glissant, é o elo comum dessas formas que se fazem e desfazem diante do e com o sujeito. Esse campo epistemológico vale-se do caráter espiralar dos movimentos, da fusão e da ruptura entre o céu e a terra à maneira dos pássaros inumeráveis.

Rasura e rastro, Glissant entre nós

Por fim, o que subjaz à Poética da Relação e, por conseguinte, a toda a obra de Glissant, é uma espécie de rasura incorporada à formulação do próprio pensamento. Algo que, em termos políticos, denuncia a cristalização de modelos de governança e, em termos estéticos, não corrobora a hierarquização que distancia a escrita poética da histórica e/ou filosófica. Um exemplo estético dessa perspectiva, que permeia o Caribe-passagem vislumbrado por Glissant, pode ser observado nos seguintes versos de Derek Walcott: “There’s a fresh light that follows a storm/while the whole sea still havoc…” [“Há uma nova luz que vem após a tempestade/ no mar ainda em desordem...”].8 Em outros termos, entre “esse algo” dado pela realidade (“uma luz nova” – tal como a revoada de pássaros) pressupõe-se que “outro algo”, novo, mas não de todo revelado, se insinua entre os escombros da tempestade (tal como entre os “enxames” de asas).

Se considerarmos as cenas sociais do Brasil, enrijecidas por conta dos discursos fundamentalistas, da recusa em analisar a história como processo, da publicização de práticas conservadoras, modos, enfim, de controlar pela violência o livre pensamento, notaremos o quanto a Poética da Relação representa um arejamento de nossas vivências atuais. Para um país que, à maneira do Caribe, pode ser pensado como um continente de atravessamentos éticos, estéticos, econômicos, políticos e culturais há muito o que dialogar com as provocações epistemológicas de Glissant. A começar pela discussão, sob a perspectiva da abertura e não da síntese, de aspectos como a antropofagia e a carnavalização que, em momentos distintos, conduzem e acendem os debates sobre a vida política e cultural do país.

Essa conversa abre, no entanto, um conjunto grande de desafios. Acostumados e afeitos historicamente às grandes sínteses aglutinadoras, poderíamos dizer que o Brasil esqueceu que esqueceu de tudo aquilo que arranha, desafina e desafia, ainda hoje, o seu desejo de construção de hibridações e amálgamas tecidas sem zona de contato densa, larga e duradoura. O seu edifício letrado, o seu cânone, branco, e majoritariamente masculino, esqueceu de um conjunto imenso de vidas, modos de existir, vozes e corpos não brancos mesmo quando queria lembrar desse país de “base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a geometria (...)”.9 Hoje, e sobre isso a teia da poética da Relação alerta, nos vemos diante de uma dupla injunção: por um lado, já não somos mais apenas o país dividido em dois (a floresta e a escola), estamos divididos em muitos. Seria no mínimo ingênuo negar ou impedir que a multiplicidade trace a teia-território do mundo contemporâneo. Mas, entre nós, alerta-se para o fato de que os cortes foram desde muito adensando uma infinidade de carnes expostas, da crueza à crueldade, dos pássaros carbonizados aos corpos racializados, expropriados e assassinados cotidianamente neste país. Multiplicando exclusões, impedimentos, silenciamentos, e também insurgências e reivindicações antes pouco ou não ouvidas. Poderíamos ainda dizer esquecidas?

Por outro lado, essas vozes e corpos, modos de existir não brancos, ameríndios e afrodiaspóricos, entre outros, em sua maioria representados ou falados em voz baixa nos salões literários de outrora, vêm derrubando portas, criando pontes, inventando caminhos. Essa reconfiguração corpórea, material e simbólico-discursiva exige entender que a profundidade das estruturas racistas de uma sociedade não permite a criação de processos de crioulização (hibridações, antropofagias, carnavalizações) sem carregar o gosto amargo de suas imensas separações, como já alertava Glissant. Atravessamos, no convite à Relação, o desafio de compor com o nosso próprio desafino. Compor com o amargo, o rascante, com o que corta, rasga ou arde não é tarefa fácil, mas crucial. Composição esta que chama por diferentes processos alquímicos e pela rasura dos longos desenhos dos imaginários instituintes da própria linguagem-vida que vêm norteando a nossa imaginação de um Brasil alegre, capaz de tudo digerir. Compor com o amargo exigirá também rever as epistemes da melancolia, do azedume, da bílis negra, tais como pensados pela cultura hegemônica ocidental. Outras trilhas culturais que refaçam as nossas linguagens-vida urgem, seja para a reconstrução de outros modos de habitação do planeta, seja para continuarmos imaginando nele a criação da vida.

Sob esse aspecto, ler Glissant a partir do Brasil significa atentar para a complexidade do seu emaranhado poético-político, irredutível aos manuais de condutas pragmáticas, mas também irredutível ao realocar da Relação no seio dos nossos longos processos feitos de mesclas aparentemente apaziguadoras, que eram, na maioria das vezes, indiferentes às diferenças e às multiplicidades concretas que nos constituem. Atentos à Relação estaremos convocados paradoxalmente a pensar sobre os nossos cortes, separações, muros e fronteiras internas. Como convite, talvez, ao necessário adensar das nossas bordas. Tornando-as quiçá mais espessas e, logo, capazes de redesenhar esse mar sem margens duras ou estreitas, entre a vida e a vida do pensamento.

Mar sem margens através do qual Glissant semeia em errância o gérmen, não o da união (fusão ou síntese), nem o da separação (murada ou enrijecida), mas o da possibilidade de imaginarmos de maneira diferente do que fizemos até aqui.10


Notas
  1. Quatro volumes fomentam, no escopo de suas obras ensaísticas, a composição do que Glissant nomeia a construção de uma poética. Depois de Sol da consciência (Poética I), de 1956, teremos A intenção poética (Poética II), de 1969, Poética da Relação (Poética III), de 1990, e o Tratado do todo-mundo (Poética IV), de 1997. Destaca-se o entrelaçamento de sua imaginação romanesca disseminada na forma ensaística desses volumes, assim como a consolidação da ideia poético-política de Relação, que acaba por encenar um dos arquipélagos fundamentais da construção de toda a sua obra. Não por acaso, em seu último ensaio, escrito em 2009, o autor retoma a questão, e após esse longo caminho, decide formular uma Filosofia da Relação, título e perspectiva que desenham o livro, em ligação direta com os traços que delinearam a sua Poética da Relação.
  2. Nesse programa tradutório de fôlego empreendido pela editora Bazar do Tempo, veremos a publicação de trechos selecionados por Ana Kiffer, Jacques Leenhardt e Sylvie Glissant, traduzidos por Thiago Florencio, desse livro monumental e ao mesmo tempo aberto e rizomático, que acabou atuando como sua Tese de Estado na França em 1981, mesmo ano em que Glissant assumia suas funções na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
  3. Lilian Pestre de Almeida lecionou na Universidade Federal Fluminense (UFF), traduziu Cahier d’un retour au pays natal, de Aimé Césaire, e é autora de O teatro negro de Aimé Césaire, publicado em 1978 pela editora da UFF.
  4. Dar caminho está na base da sabedoria oracular do candomblé. A palavra “odu”, que traça a leitura dos búzios, significa justamente “dar caminho”. Diferente da ideia de iluminação ou adivinhação do futuro, entende-se aí que o importante é nesse ser sendo da vida dar caminho ao caminhante.
  5. Título de uma das últimas obras de E. Glissant, Mémoires des esclavages. Paris: Gallimard/La Documentation Française, 2007.
  6. Poética da Relação, nesta edição, p. 32.
  7. E. Glissant, O pensamento do tremor, tradução de Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2014, p. 21.
  8. D. Walcott, The Star-Apple Kingdom, na edição francesa Le royaume du fruit-étoile, tradução de Claire Malroux. Saulxures: Éditions Circé, 1992, p. 36.
  9. O. de Andrade, A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 1995, p. 44.
  10. E. Glissant, Philosophie de la Relation. Paris: Gallimard, 2009, p. 117.

Ana Kiffer é escritora e professora do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Edimilson de Almeida Pereira é escritor, poeta e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

*Prefácio do livro Poética da relação, de Édouard Glissant.

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