Por Alain Mabanckou
Eis um livro que nos fala sobre as “irmãs Nardal”, artesãs à sombra da tomada de consciência dos negros, sem as quais provavelmente o movimento da Negritude não teria existido no mundo francófono. Negritude, dizia eu? Quando a evocamos, os nomes de Aimé Césaire, Léon-Gontran Damas e Léopold Sédar Senghor são prontamente mencionados, com certeza. Eis o trio de intelectuais mais conhecido e celebrado do mundo negro. A Negritude encarna-se em seus nomes. Eles são ao mesmo tempo criadores e guardiões dela. É verdade, eles não inventaram a substância do movimento, uma vez que a negritude, nascida na França, se beneficiou dos ventos da América negra entre 1918 e 1928, e da contribuição do que então se chamou de “escola haitiana” entre 1928 e 1932...
Tais são as certezas oficiais acerca desse movimento que, na década de 1930, desafiou um sistema de assimilação no qual não havia espaço para a expressão do colonizado. Indiretamente, As irmãs Nardal: a vanguarda da causa negra questiona nossa responsabilidade pela ingratidão para com essas personagens femininas que estiveram na origem de nossa liberdade de pensamento, da reivindicação de nossa inclusão na civilização universal.
E, além disso, mesmo quando os renomados arautos da Negritude relembravam sua “aventura ideológica”, essas mulheres não eram mencionadas. Como quando Aimé Césaire contou o início de tudo:
Foi, eu me lembro, em um dia de outono parisiense. O cenário: a ladeira da rua Saint-Jacques e o austero edifício do liceu Louis-le-Grand. Eu tinha desembarcado havia apenas quinze dias, vindo da minha ilha natal... Um pouco perdido, um pouco confuso naquele ambiente severo, quase tétrico. E então, de repente, o mundo se ilumina como um sorriso, um jovem vem até mim, é um africano, um senegalês... Ele me pega pelos ombros e, com sua voz de uma melodia muito peculiar, me diz: "Então, meu irmão, de onde você vem?"1
Esse senegalês é Senghor, depois será a chegada do guianense Léon-Gontran Damas, e foi um caminho sem volta. Jacqueline Sorel resumirá essa gestação da seguinte maneira:
Aimé Césaire, natural de Fort-de-France, chegou em solo francês depois de Senghor. Ele é mais jovem, mais impetuoso, se ofende com mais facilidade, aprecia as grandes epopeias. Léon-Gontran Damas, vindo da Guiana, tem os nervos à flor da pele. Seu temperamento o leva à agressividade e aos conflitos. Ao lado deles, Senghor parece um pensador.2
Quando observamos, por exemplo, a foto do Primeiro Congresso de Escritores e Artistas Negros realizado na Sorbonne em 1956, há 52 homens e uma mulher: a esposa do escritor haitiano Jean Price-Mars. Notamos a ausência da artista guadalupense Moune de Rivel (1918-2014), grande dama da música crioula, a primeira artista francesa a se tornar engajada a partir de 1945, seguindo os passos de seu pai Jean Symphorien Henri Jean-Louis, pan-africanista, anticolonialista e independentista. Notamos também a ausência de Josephine Baker e de Christiane Yandé Diop, esposa de Alioune Diop, fundador da revista Présence africaine [Presença africana] e da editora de mesmo nome. Onde está Paulette Nardal, pensadora da “consciência racial”?
Onde está Suzanne Césaire, defensora de um surrealismo que explora a experiência particular de mistura e mestiçagem nas Antilhas? La Revue du monde Noir [A revista do mundo negro] (1931-1932) foi fundada por Paulette Nardal e outros; Suzanne Césaire teve um papel de primeira ordem, publicou a maior parte de seu trabalho em Tropiques [Trópicos] (1941-1945).
As irmãs Nardal: a vanguarda da causa negra vem reparar uma das maiores injustiças da história da causa negra, em geral apresentada como um “assunto de homem”. Léa Mormin-Chauvac regressa à fonte, nos apresenta a família Nardal, formada por sete filhas, cujo pai, Paul Nardal, foi “o primeiro negro na França a ganhar uma bolsa para estudar na Escola de Artes e Ofícios [École d’Arts et Métiers], em Paris, e se destacou por 45 anos no Serviço Colonial de Obras Públicas como o primeiro engenheiro de obras públicas da Martinica”.
Li a epopeia da família Nardal tendo a impressão de encontrar meus próprios vestígios, de varrer os clichês que eu havia herdado e que circulavam de geração em geração, distraindo-nos da história real que se descortina à luz do dia. É por isso que saúdo esta obra de Léa Mormin-Chauvac, fervilhante de detalhes, que nos fala de Paulette e Jeanne Nardal, mas também das outras irmãs Nardal, de uma sede coletiva de questionar sua identidade.
Este livro é uma reescrita argumentada da história da consciência negra, de sua gestação até sua apropriação por um grupo intelectual masculino, fato que não despertou a atenção da maioria dos pesquisadores. No entanto, não se trata aqui de um processo contra quem quer que seja, mas sim de uma nova abordagem que dará ainda mais visibilidade e humanidade à nossa história, trazendo um elo que nos faltava até agora.
Notas
- J. Sorel, Léopold Sédar Senghor: l’émotion et la raison [Léopold Sédar Senghor: a emoção e a razão], 1995, p. 44. ↩
- Ibid., p. 43-44. ↩
Alain Mabanckou é escritor franco-congolês, premiado diversas vezes por seus romances. É professor na França e nos Estados Unidos.
*Prefácio do livro As irmãs Nardal: a vanguarda da causa negra, de Léa Mormin-Chauvac.

