Dez anos em movimento: memória, pensamento e abertura na trajetória da Bazar do Tempo

Por Eduardo Jardim

10 anos! Quanta coisa para se comemorar! Eu estava nos primórdios desta história. Lembro quando Ciça me contou que estava planejando abrir uma nova editora e do nosso entusiasmo. Isso foi em 2015, início de 2016. Os livros começaram a sair em 2016.

Nos primeiros tempos, não havia uma linha editorial previamente definida. Eram, em geral, ensaios, escolhidos por sua qualidade. Vale lembrar também dos livros de fotos. Dois deles merecem destaque: os cinquenta anos de trabalho de Evandro Teixeira e 1968, Paris – Rio, com fotos de Bruno Barbey e Pedro de Moraes, e texto de Paulo Antonio Paranaguá. O interesse por fotografia voltou nos anos recentes em uma coleção com três livros: História do Brasil em cem fotografias, História da Música Brasileira em cem fotografias e História da América Latina em cem fotografias.

Além da conversa constante que tenho com Ciça, minha participação nas publicações da Bazar do Tempo teve três etapas. A primeira foi com o lançamento de Tudo em volta está deserto, em 2017. O livro discutia a situação da literatura e da música no tempo da ditadura, com três partes: uma dedicada a Antonio Callado, outra ao show de Gal Costa, Gal a todo vapor, e a última à figura e obra de Ana Cristina Cesar.

A segunda etapa foi o lançamento de A doença e o tempo, que propunha uma visão nova sobre a aids. A terceira foi a organização de uma coleção de ensaios contemporâneos de diversos autores — Octavio Paz, Adorno, Paul Valéry e Hannah Arendt. A coleção permanece aberta a novas propostas.

Entre as várias publicações de Hannah Arendt pela editora, destaca-se Pensar sem corrimão – Compreender – 1953-1975 (2021), um conjunto de artigos, retratos de contemporâneos e intervenções nos debates da época, com tradução de Beatriz Andreiuolo, Daniela Cerdeira, Pedro Duarte e Virginia Starling.

Agora estou me aventurando em uma nova etapa, ainda sem tempo para concluí-la.

Em 2018, a coleção Pensamento Feminista, organizada por Heloisa Teixeira (à época Heloisa Buarque de Holanda), reuniu um grande número de autoras e acrescentou uma nova direção à Bazar do Tempo. A adoção dessa perspectiva deu outra fisionomia à editora, que se firmaria até hoje. O perfil feminista consolidou seu papel de destaque no cenário editorial brasileiro.

Isso não impediu a continuidade da publicação de ensaios brasileiros e estrangeiros, nem a abertura para poesia e ficção.

Em toda parte, os movimentos identitários têm grande importância. Grupos antes discriminados foram reconhecidos. A afirmação das identidades permite sua participação, como diferentes e como iguais, no debate político mais amplo. O que aparece com frequência, no entanto, é o risco de fechamento desses movimentos sobre si mesmos.

Certamente não é o que acontecerá com a Bazar do Tempo. A editora continua publicando em muitas direções, sempre com uma reflexão rica e crítica sobre o mundo contemporâneo. Política, gênero, raça — múltiplos temas, estilos e vozes, de autores brasileiros e estrangeiros, homens e mulheres — tudo isso contribui para evitar o enclausuramento e manter aberta a vocação plural da editora.


Eduardo Jardim é filósofo, professor e ensaísta, com destacada atuação no pensamento contemporâneo brasileiro. Doutor em Filosofia, lecionou por muitos anos na PUC-Rio, dedicando-se a temas como ética, estética, política e cultura. É autor de diversos livros, entre eles Tudo em volta está deserto e A doença e o tempo, nos quais articula reflexão filosófica e análise histórica. Também atua como organizador e curador de coleções de ensaios, contribuindo para a circulação de importantes autores do pensamento internacional no Brasil.

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