Por Carolina Kasting
Esse é um texto de celebração dos dez anos da editora Bazar do Tempo que tem papel fundamental na minha trajetória e formação enquanto leitora, artista e poeta, portanto, não se espante com o começo — pode parecer poeticamente trágico — precisamos dele para chegar ao fim ou ao começo, não sei, vai depender da nossa perspectiva.
Em meio à iminência de uma Terceira Guerra Mundial, no inconcebível fim do capitalismo, vivendo nas ruínas do neoliberalismo, assistimos à autodestruição da espécie humana. Percebemos esse movimento suicidário, por exemplo, no desmatamento, que causa a perda massiva de biodiversidade e provoca o aumento do efeito estufa devido à liberação de CO2 que as árvores transformam em oxigênio, substância sem a qual não sobreviveremos. Esta é apenas uma das narrativas de aniquilamento do “homem” e nesse ponto — a fim de compreendermos melhor que sujeito é esse que tem o direito de narrar-se e ser narrado — convido a refletirmos com Adriana Cavarero (Olha-me e narra-me, 2025) que alerta: “escreveremos, portanto, o ‘Homem’, de maneira que seja a maiúscula a suportar o peso da universalidade”, este Homem com maiúscula, “que é ao mesmo tempo masculino e neutro, uma criatura híbrida gerada pelo pensamento, um produto universal (...); que é invisível e intangível mesmo ao se declarar o único porta-voz da verdade”. Ou seja, o universal é incapaz de refletir sobre si mesmo e colocar-se em relação com o mundo a partir das diferenças, estabelecendo uma hierarquia de poder onde quem não é como ele, está para ele.
Sofremos os efeitos e assistimos ao espetáculo nonsense do patriarcado, seja como vítimas ou algozes. Ao navegarmos nas redes, nos saltam aos olhos, vindo das profundezas do inferno, um eficiente mecanismo de exploração sexual, tráfico de pessoas, tortura e morte, orquestrado por homens da “elite” que se viram no topo dessa hierarquia de poder. Toda menina ou mulher reconhece, em algum momento de sua vida, essa violência implícita, que vem de cima. Sabemos que, quanto maior o poder, menor a chance de escapar dele; o poder é como um polvo com seus tentáculos, silencioso, alimentado, bajulado e alicerçado por uma rede condescendente de pessoas ao seu redor.
Essa revelação é algo nunca antes visto na história, com depoimentos de vítimas que sobreviveram para nos contar os detalhes da violência subjacente que sustenta a estrutura social, a podridão que emerge à superfície em momentos de convulsão. Ela própria se revela. E quem opera do alto do poder não é um monstro, é efeito dessa estrutura hierárquica; e porque detém o capital, pode tudo, pode qualquer coisa, aliás.
Então, chegamos ao exato momento em que vivemos: uma fissura liberou a passagem, aberta pela resistência das minorias, permitindo à luz entrar e à podridão se iluminar. O mundo põe-se horrorizado — na sua hipocrisia — com algo que acontece há séculos diante dos seus olhos, embaixo de seus tapetes luxuosos, em cima de tronos ornamentais, dentro de suítes presidenciais; é o horror circulando entre humanos, produzindo desumanidades.
As pessoas que resistem à margem do sistema não têm outra saída a não ser criar uma nova linguagem. Transmutar um meio de se aliançar, produzindo brechas no sistema, explodindo mecanismos, criando outras formas de sobrevivência e comunicação. O sistema, que tudo engole, não contava com isso. A resistência, na margem, produz re-existência, abre fissuras onde a verdade da história — frequentemente oculta pela narrativa dos vencedores — emerge, alarga os limites, estabelece novas linguagens, cria possibilidades através das alianças na precariedade.
Para derrotar o inimigo, não usamos a linguagem dele; por isso, para nós o amor é revolucionário, a amizade entre mulheres é um ato político, os feminismos se multiplicam e se somam num objetivo comum. As alianças personificam, no coletivo, a Lei do Retorno, onde: quem promove o mal recebe o mal de volta, você colhe o que planta, o feitiço se volta contra o feiticeiro — embora não exista nenhuma gota de ciência oculta nisso — é a prática pura, demonstrando que experiências pessoais são, intrinsecamente, políticas.
Não é bruxaria, embora seja, ou macumba, embora seja. O que acontece é que o capitalismo come o próprio rabo e morre pela boca que devora a vida. Não há nenhuma metáfora nisso, há materialismo concreto. Estamos todos em posse de nossos corpos, mentes e sentimentos; estamos todos em funcionamento dentro dos organismos vivos, em interdependência com o planeta, vivendo um Mundo ao Revés (Silvia Rivera Cusicanqui, 2021). Não existe lado de fora, nem mesmo para os opressores.
O abusador da menina adolescente que fui é o mesmo torturador do vídeo que fez regozijar o bilionário, é o mesmo que desmatou a floresta para plantar soja, o mesmo que quer matar o rio, aquele que atropelou o gari e fugiu; que assassinou o ativista ambiental com sinais de tortura, o pai que mata os próprios filhos para punir a esposa que não quer mais ser propriedade privada; é exatamente o mesmo que o presidente que, em terras roubadas, prende um menino de cinco anos para usar de isca para os pais imigrantes.
Todos são um efeito, feitos pelo sistema. São exatos os mesmos que, nas ruínas do capitalismo tardio, alcançam um nível tamanho de desumanização que racha o solo, abre brechas; são a seca no Cerrado, são a causa da raposa se enrolar paralisada em volta da cria e deixar-se carbonizar, como única forma de fazê-la sobreviver.
A violência é devastadora, a ponto de possibilitar que a fissura aconteça e que dela nasça uma flor. Daí nascem múltiplos feminismos: trans, negro, originário, quilombola, jovem indígena e no íntimo de cada um/a/e de nós; da transfluência (Nêgo Bispo, 1959–2023) entre eles cresce a consciência da metamorfose, da necessidade de refazer um sistema de sobrevivência ancestral, mesmo que ainda não sejamos capazes de visualizar como.
A transformação acontece dentro de nós, assim como a flor nasce na rachadura. Pode parecer pequena quando estamos sozinhas, mas não é assim que se une a tantas outras. Essas sementes plantadas não germinam do verbo parecer, germinam no ser, constantes, esquivas, maleáveis, criam fortes raízes que voltam nosso olhar para o passado e nos fazem ver o tempo espiralar (Leda Maria Martins, 2024) das árvores ancestrais.
Reconhecemos a terra que nos alimenta, todos os dias, quando metamorfoseamos o alimento em célula: a cenoura, o caju, o abacate, o coco viram, em nós, humanos e nossos pés podem dançar a dança que dançávamos ao redor da fogueira.
Não existe tempo linear para nós. Confrontamos o horror e, com coragem, mergulhamos para atravessar o espelho de mercúrio que a arte nos proporciona e emergirmos na outra extremidade, para viver em um mundo onde meninos negros não são mais assassinados por saírem às ruas; em que meninas periféricas não têm suas vidas interrompidas ao tentarem acabar com o ciclo de violência que são tragadas; nesse mundo: estuprador não é pai e criança não é mãe; florestas não mais serão queimadas a mando de grandes corporações.
O rei ficou nu, com a bunda na janela; não dá mais para esconder os excrementos que agora se voltam para a sua cara. Não há mais como disfarçar, dissimular; de suas bocas sai o vômito da bílis do papel timbrado. Fomos alertados pelos povos que, desde antes da época do colonialismo clássico, vivem aqui: não se come ouro nem dinheiro.
E hoje assistimos ao espetáculo de homens brancos, cor de laranja, com cabelos ridículos, do alto do palanque, a dizerem mentiras; não são palavras que saem de suas bocas: eles assassinaram a linguagem. Mas nós não falamos a língua do inimigo, criamos a própria linguagem de re-existência, de possíveis existências.
Falamos a língua do resgate ancestral.
Para nós, o fim é o começo.
Carolina Kasting é atriz, multiartista e poeta. Com mais de 30 anos de trajetória, destacou-se na televisão em produções da TV Globo. Atualmente dedica-se à arte contemporânea, à performance e às artes visuais, integrando criação cênica e artes plásticas em seus projetos.








