Dar vidas aos livros, receber outras vidas dos livros: no aniversário de Hélène Cixous, celebrar o décimo ano da Bazar do Tempo

Por Flavia Trocoli – UFRJ/CNPq/FAPERJ

“Tudo que nos acontecia: agradeço.
Em plena vida somos transportados para outra vida.”

Hélène Cixous

Como celebrar este 5 de junho, dia dos anos de Hélène Cixous, no ano em que se comemoram os dez anos de existência da Bazar do Tempo?

Para a comemoração, o primeiro convidado é o livro Jours de l’an [Dias de ano], publicado em 1990, pela editora des femmes (um outro capítulo a ser escrito seria contar a história das editoras e das mulheres que as recriam).

Em Jours de l’an, Cixous anuncia o retorno da escrita que inscreve o livro que falta, aquele que ela chama poema, chamado para o futuro, promessa, espera. E, também, encontro. Um dia de ano novo chega quando se encontra uma nova escrita, aquela que é abertura num céu de chumbo, e esta nova escrita Cixous encontra em Rembrandt, Thomas Bernhard, Marina Tsvetaeva, Paul Celan e Clarice Lispector, para citar alguns, sem nunca esquecer Shakespeare, Freud e Derrida.

Tais encontros podem ser ditos assim: “Em pleno dia começou um outro destino.” (Cixous, 1990, p. 15).

Em 2022, a Bazar do Tempo publicou O riso da Medusa, de 1975, com tradução de Natália Guerellus e Raísa França Bastos. Para comemorar a publicação e pensar o Dia Internacional da Mulher, Ana Cecilia Impellizieri Martins, Carla Rodrigues e eu conversamos com Hélène Cixous em encontro transmitido pelo canal da editora no YouTube.

Comecei a conversa pela expressão tarde demais (trop tard) para dizer que é neste tempo que a tradução de O riso da Medusa chegava ao Brasil. Tarde demais é um tempo da literatura de Hélène Cixous, um tempo em que tudo está perdido, quando parece que nada mais será escrito, e eis que uma porta se abre e se pode passar ao país literatura.

Foi, então, tarde demais, quando o ar estava impregnado de algas, que recebemos essa Medusa que é bela e ri. Em O riso da Medusa, Hélène Cixous escreve que a escrita feminina virá, como o amor-Outro, tal como a democracia e a desconstrução. E ela, a escrita, virá subvertendo a língua, imprimindo a marca da mulher na língua.

Em 2024, a Bazar do Tempo publicou A chegada da escrita, de 1976, com tradução coordenada por mim. No posfácio, relembrei o trabalho feito em conjunto.

Em 2020, estávamos no auge do confinamento provocado pela pandemia de covid-19 e, no Brasil, dos votos mortíferos de uma palavra sempre armada; confinamento e palavras de ordem e de censura do próprio movimento da linguagem são questões que se entrecruzam neste ensaio de Cixous.

Foi naquele momento que alguns ouvidos e algumas mãos aceitaram o meu convite de reunião para tentar soletrar o idioma Cixous — expressão recolhida do texto com que Jacques Derrida recebe o arquivo Cixous na Biblioteca Nacional da França.

Se em O riso da Medusa há o direito ao grito em tom de manifesto, em A chegada da escrita a revolta e a reviravolta passam pela proibição da escrita que, implícita ou explicitamente, uma mulher atravessa para escrever.

Em continuidade e renovação do Riso, A chegada entrelaça a revolta ao amor-Outro que chama para a cena da escrita as moléculas autobiográficas, a língua alemã da mãe que ritma a escrita, a morte do pai e a morte da criança que, em reviravolta, darão vida à leitora e à escritora.

Ao lado de A chegada da escrita, a Bazar do Tempo publicou também Hélène Cixous: a sobrevivência da literatura, de minha autoria, reunião de um trajeto de pesquisa que guarda a memória de aulas, orientações e eventos, com fomento de bolsas de pesquisa do CNPq e da FAPERJ.

O livro é o primeiro estudo publicado no Brasil dedicado inteiramente à leitura da escrita de Cixous. Nele, passo por Clarice, Proust, Freud, Derrida, pela criança, pela morte e pela ressuscitação para mostrar como Cixous ata a morte à vida na Literatura. E esta é uma de suas formas de Amor-Outro, modo feminino de ler e escrever, sempre em movimento, quando o fim pode escrever um novo começo.

Em 2025, demos um salto temporal na obra cixousiana e a Bazar do Tempo publicou Ayai! O grito da literatura, de 2013.

Numa vertente mais crítica e teórica, ao modo inventivo de Cixous, o livro chegou renovando associações imprevistas que perturbam conceitualizações, categorizações e hierarquizações já estabelecidas.

Assim, a conferência proferida na Universidade de Nova York chama e é chamada pelas vozes da Literatura Inglesa, mas não se circunscreve às fronteiras da língua inglesa. Volta ao herói grego Ájax, volta a um caso de matricídio que, segundo Cixous, contém a chave da obra proustiana, volta às 59 perífrases que são as bandagens que envolvem o corpo doente da mãe morrente de Derrida em Circonfissão, cifra um livro de Julio Cortázar e chama ao palco Celan, Akhmátova e Vesaas.

Cixous não deixou intocados nem o domínio de uma língua, nem o imenso arquivo assinado, à primeira vista, por nomes próprios lidos por tanto tempo do lado homem. Ela chamou, tocou, roubou e escavou, nessa noite eterna, de Homero a Woolf, passagens que as palavras criam para irmos do grito à literatura, da dor que mata à dor escrita.

Em um ensaio intitulado “Felicidade clandestina”, em que pensa as diferenças entre o lado masculino e o lado feminino, entre Freud e Clarice, nos caminhos para receber, doar, não se apropriar, para ler como amar, Cixous recorda o momento em que lhe foi ofertado Água viva.

Ela não o lê imediatamente, demora para gozar do êxtase puríssimo das possibilidades infinitas de leitura que um livro guarda. Se o soubermos receber, sem apropriação, ele nos redoará a própria vida das palavras com que tecemos nossas horas, nossos dias, nossas práticas.

Penso que é essa infinitude que a Bazar do Tempo, ao publicar Hélène Cixous, coloca em cena e que comemoramos hoje virtualmente, mas também nas salas de aula, nas universidades, nos clubes de leitura, nas livrarias e bibliotecas, nas pesquisas que têm florescido, nas novas traduções gestadas.

No coração de cada nova leitora.

Comemoramos esses aniversários em que cabem os renascimentos com duas palavras que parecem abafadas hoje: amor e futuro.

Deixemos que o amor e o futuro nos levem em direção ao sul, à rosa, ao mar, que são as verdadeiras direções de Hélène Cixous. E que ela continue a ter essa vida intensa, e sempre outra porque escrita, na Bazar do Tempo.


Flavia Trocoli é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisadora do CNPq e da FAPERJ. É autora de Hélène Cixous: a sobrevivência da literatura e coordenadora da tradução de A chegada da escrita, de Hélène Cixous, publicados pela Bazar do Tempo.

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