Por Emanuela Siqueira
Escrevo esse texto num domingo, 8 de março de 2026, famigerado Dia Internacional das Mulheres. A essa altura do século XXI as taxas de feminicídio crescem em progressão geométrica e, em qualquer rede social que eu acesse, pulam na tela notícias de mulheres em situação de risco ou tendo seus corpos expostos por tecnologias de inteligência artificial. Parece que não há nenhum lugar em que possamos nos sentir seguras. Virginia Woolf escreveu tanto sobre andar pela cidade e ter um quarto para onde voltar, mas não articulou sobre os perigos que tanto o andar quanto o estar dentro de casa poderiam conter a quem simplesmente é lida e se reconhece como mulher.
Porém, me apego ao que podemos, e conseguimos, fazer diante do caos. Hoje cedo eu assisti ao documentário Rompendo Rochas — que, inclusive, está concorrendo à estatueta de Melhor Documentário no Oscar deste ano —, da diretora Sara Khaki e de Mohammad Reza Eyni, seu parceiro de empreitada e da vida. A dupla iraniana filmou Sarah Shahverdi, a primeira mulher eleita para conselheira municipal numa cidadezinha do Irã.
Sarah não está à frente do seu tempo, apesar do pioneirismo de tudo que tenta executar cada dia da sua vida. Assim como Virginia Woolf, Hélène Cixous, Heloísa Teixeira e Marguerite Duras — só para citar algumas —, ela faz o que pode dentro do seu tempo, pensando sim no futuro: articula a sua vida em coletivo, pois sabe que sua liberdade não é uma dádiva individual enquanto tantas outras vivem sem o básico.
Em uma família de quase só mulheres, o pai dela incentivou que fizesse “coisas de menino”. Aprendeu formas de autonomia na prática; cuidou da família depois da morte do patriarca; construiu uma coletividade no seu entorno sendo parteira; conseguiu ser eleita. Porém, com o poder, os avanços ganharam retaliação e Sarah teve que repensar rotas.
Sabemos como é isso no Ocidente e sabemos que acontece em qualquer lugar do mundo há décadas, séculos. Uma mulher com poder incomoda o patriarcado, e o mínimo de liberdade atiça a ira misógina. E o poder para as mulheres traz querências tão simples, não é mesmo? No caso de Sarah, ela queria coisas tão básicas: que meninas não casassem com 12 anos, que mulheres adultas pudessem ter direito a uma pequena parte dos bens do marido quando este falecesse e que meninas adolescentes pudessem sentir o vento no rosto, mesmo com o hijab, em cima de uma motocicleta pelo deserto.
A complexidade da história de Sarah Shahverdi — assim como o trabalho da dupla realizadora, de articular e construir essa história para nós — me fez pensar sobre o que podemos fazer com o que temos dentro de nossos espaços de atuação feminista. No nosso caso: traduzir, editar, revisar, preparar e fazer livros pararem de pé em estantes, com suas belas capas e conteúdos instigantes.
Sarah me fez pensar em todos os dias que não são fáceis, mas em todos aqueles que, não por acaso maioria, são de insistência e crença no que fazemos. Com fé naquilo que Cixous diz: escrevemos — e incluo aqui tudo que está no entorno da escrita — para o futuro, trabalhando para o que vem.
É assim que olho para trás — sem medo do que os mitos falam das nossas antepassadas, tantas vezes punidas por esse ato de se voltar — e articulo o que já construí junto com Ciça e todas as minhas parceiras de texto na Bazar do Tempo.
Há quase cinco anos, naquele ano 2 da pandemia, a minha história com a Bazar começou da melhor maneira: fui mediadora do lançamento online do livro que abria o Clube F., projeto ousado da editora em manter um clube do livro feminista, sem medo de usar a palavra com f. Nada menos que Um quarto só seu, o ensaio que é manifesto e teoria literária de Virginia Woolf, um dos textos mais famosos e importantes para a crítica feminista, campo ao qual dediquei minha vida de pós-graduanda e ao qual sigo ligada há quase uma década.
Além do mais, o livro foi traduzido por uma das minhas favoritas quando se trata de séculos anteriores ao XX e seu início: Julia Romeu. A mesa também contava com a escritora Socorro Acioli, com quem tive outras oportunidades de troca de forma tão divertida, já que o riso é uma das melhores sacadas feministas.
Depois disso, passei a construir uma relação de parentesco com a editora, à la Donna Haraway: com as autoras que iam sendo publicadas, com as trabalhadoras da palavra nos projetos e a teia de leitoras assíduas e críticas que compõem a órbita dessa relação que, como descreveria também Haraway, é de fluxo multidirecional. Todas trocamos e construímos juntas.
Foi na Bazar que pude trabalhar em dois dos projetos de tradução de que mais me orgulho até hoje. Aprendi a dançar um tango dissidente com uma das grandes parceiras da minha vida, Julia Raiz. Com ela traduzi A beleza do marido, de Anne Carson, um projeto que selou um trabalho e parceria de anos, formador das nossas trajetórias enquanto tradutoras e amigas.
Chamo o projeto de dissidente porque a história do tango — conforme comentamos na nota das tradutoras, disponível aqui no blog — não prevê duas mulheres dançando juntas, ainda mais sendo uma dança que exige um homem fazendo a condução. Para nós, o tango era uma oportunidade de desenrolarmos cada um dos fragmentos que Carson articula naqueles tangos sobre a traição e a cafonice do amor.
Depois, graças ao parentesco que fazemos pela amizade — uma das minhas obsessões, a construção de uma intelectualidade feminista por essa via, que pode ser lida no texto que escrevi neste blog, em 2025, sobre as tradutoras escrevendo para o futuro —, Cláudia Lamego, que você leitora conhece pela mediação do Clube F., viu um story em que mostrei uma edição argentina de cartas trocadas entre Virginia Woolf e Victoria Ocampo: uma verdadeira relíquia editorial realizada pelas hermanas.
Em menos de dois anos tivemos a nossa própria edição em diálogo com a da Argentina. Num trio de tradutoras conseguimos dar conta de ampliar o belo projeto capitaneado por Manuela Barral e pela editora Avis Rara. Quando vou a eventos falar de práticas feministas de tradução coletiva, sempre menciono Victoria Ocampo & Virginia Woolf – Correspondência como uma verdadeira ação transnacional feminista: muitas mãos trabalhando para que duas edições tenham o mesmo ponto de partida, mas atuem em suas línguas de chegada como obras potentes e complementares.
Depois disso, ainda seguimos — sim, em ação contínua — trabalhando com a matéria bruta pela qual somos apaixonadas, a Bazar e nós, suas colaboradoras: a palavra e a criatividade feminista.
Há projetos em andamento e outros que virão por aí pois somos famintas, como diria Victoria Ocampo numa carta a Virginia Woolf, algo que corresponde à nossa verve latino-americana: queremos e fazemos do jeito que acreditamos.
Isso tudo não seria possível sem a Ciça sempre apostando nas nossas práticas criativas, como uma feminista que sabe que todas estamos tateando e construindo espaços para habitar e compartilhar. Não são poucas as mulheres com quem trabalhei na editora — em apenas cinco anos! — e que me trouxeram tanto: Meira, Cláudia, Taís, Joice, Bruna, Cris e Kathleen.
Agradeço imensamente as oportunidades de trabalhar coletivamente e colocar a palavra e o corpo para jogo. Não tenho dúvida de que estamos fazendo parentesco com a palavra e, assim, criando futuros.
Emanuela Siqueira é tradutora, mestre e doutora em Estudos Literários (UFPR), com pesquisa sobre estratégias feministas na tradução. Entre as traduções publicadas destacam-se A beleza do marido, de Anne Carson, com Julia Raiz, e Victoria Ocampo & Virginia Woolf – Correspondência, ambas publicadas pela Bazar do Tempo.



