Por Cecília Olliveira
Quando comecei a investigar como nasce um miliciano, eu não sabia que também estava aprendendo como nasce uma escritora.
Passei quase duas décadas cobrindo violência armada no Rio de Janeiro. Bati em portas que não se abriram, ouvi silêncios mais eloquentes que qualquer entrevista e acompanhei, ano após ano, a linha que separa o Estado do crime organizado se dissolver diante dos meus olhos. Eu já estava acostumada com investigações longas, difíceis, cheias de camadas. Mas escrever um livro é outra coisa. É atravessar o deserto sem o deadline da semana seguinte para te empurrar adiante.
Como nasce um miliciano começou com uma obsessão: entender o que transforma um policial militar em líder de uma franquia da maior milícia do Rio. A história de Cabo Bené — morto numa operação policial em Itaguaí, em outubro de 2020 — era, ao mesmo tempo, singular e estrutural. Singular porque cada vida tem seus próprios desvios, suas escolhas, seus medos. Estrutural porque a trajetória dele diz mais sobre o funcionamento do Estado brasileiro do que gostaríamos de admitir.
Foram milhares de folhas de processos e documentos. Milhares mesmo — não é exagero. Mais de cinquenta entrevistas. Meses acompanhando inquéritos, decisões judiciais, relatórios, laudos. Sola de sapato gasta em Itaguaí, na Baixada Fluminense, em Santa Cruz, em Campo Grande. E também na Barra da Tijuca, onde fui ao restaurante chique frequentado por milicianos — aquele onde há vinhos de até quinze mil reais. (Que eu não bebi, obviamente.)
Eu sabia investigar. Mas precisei aprender a escrever diferente.
O jornalismo nos ensina a ser concisos, a cortar adjetivos, a ir direto ao ponto. No livro, precisei desacelerar. O leitor não quer apenas a informação; ele quer caminhar com você. Quer ver a rua mal iluminada, ouvir o som da cadeira sendo arrastada no meio da entrevista interrompida, sentir o peso do silêncio quando alguém diz: “Cheguei ao limite do que posso te contar sem me comprometer”.
Escrever um livro exigiu que eu reaprendesse o tempo. Que eu aceitasse que vinte páginas não eram fracasso, mas processo. Que eu lidasse com perguntas que nenhum repórter faz em voz alta: as pessoas vão gostar? Eu sei fazer isso? E se eu não conseguir sustentar a narrativa? E se eu só souber escrever reportagem?
Nasceu uma escritora no meio desse medo.
E ela nasceu junto com uma convicção ainda mais profunda: milícia não é um poder paralelo. É o poder funcionando. É o Estado operando para beneficiar grupos criminosos formados, em sua maioria, por agentes públicos e políticos eleitos. Ao acompanhar a transformação de Bené — da academia da PM ao comando de uma franquia do Bonde do Ecko — eu estava, na verdade, acompanhando a anatomia de um modelo de negócios em expansão.
O Rio sempre foi laboratório. O que se testa aqui, mais cedo ou mais tarde, escala.
Durante a escrita, lembrei da minha mãe. Eu nunca explico muito o meu trabalho para ela. Não mando todas as minhas matérias. Não detalho ameaças ou processos judiciais. É uma forma de proteção — para mim e para ela. Mas aí eu escrevi um livro. E ela leu.
Quando terminou, comentou apenas: “Meio violento, né?”
Foi curto. E eu mantive a tradição de não aprofundar. O não dito também diz.
Ela tem razão. Investigar milícias é lidar com ameaças, exposição, medo. É saber que há lugares onde você não é bem-vinda. Que há nomes que incomodam. Que o silêncio protege. Mas o comentário da minha mãe me fez pensar que, se o livro soa “meio violento” para quem me ama, é porque a violência já ultrapassou todos os limites do razoável. O que eu fiz foi descrevê-la.
Escrever sobre milícia é duro. É desesperançoso. É arriscado. Mas é necessário. Porque o silêncio os fortalece — mas eu acredito na força da palavra escrita como instrumento de memória e de responsabilização.
Como autora estreante, eu tinha muitas dúvidas. Mas tinha também uma certeza: este livro precisava de uma casa que entendesse que contar essa história não era apenas publicar mais um título sobre crime. Era enfrentar uma estrutura. Era sustentar um texto que não faz concessões fáceis. Que não romantiza. Que não simplifica.
A Bazar do Tempo foi essa casa. Uma casa que publica majoritariamente mulheres e me escolheu para ser a primeira mulher a publicar um livro sobre as estruturas da milícia em um mercado predominantemente masculino. Tenho amigos escrevendo brilhantemente sobre o tema, muito bons, mas temos sempre esse “mas” quando abordamos coisas grandes e importantes — como é o livro para mim e para o mercado editorial brasileiro.
Desde o início, encontrei uma editora que compreendeu que este não é um livro só sobre bandidos. É um livro sobre instituições. Sobre política. Sobre economia. Sobre como o legal e o ilegal se entrelaçam a ponto de se tornarem indistinguíveis. Encontrei rigor editorial, cuidado com cada detalhe, respeito pelo processo — e coragem.
Lançar meu primeiro livro com a Bazar foi mais do que uma decisão profissional. Foi um encontro de propósitos. Em um mercado que tantas vezes prefere a superficialidade ou o sensacionalismo, apostar em uma investigação densa, fundamentada e incômoda é também um ato político.
Dez anos não se constroem por acaso. São fruto de uma curadoria que entende que livros não são apenas produtos: são intervenções no debate público. Como nasce um miliciano só é o que é porque teve uma editora disposta a bancar a complexidade.
Hoje, quando olho para trás, vejo que este livro me ensinou muito mais do que eu imaginava. Ele me ensinou que escrever é também se expor. Que há um tipo de coragem diferente entre investigar e narrar. Que transformar milhares de páginas de processo em uma história compreensível é um trabalho de responsabilidade ética — com as vítimas, com os leitores, com a própria cidade.
Se investigar como nasce um miliciano foi tentar entender como o Estado cria e nutre seus próprios algozes, escrever o livro foi entender como nasce uma autora: na insistência, na dúvida, na disciplina, no medo e na convicção de que contar certas histórias é uma obrigação.
Dez anos de Bazar do Tempo celebram também isso: a aposta na palavra como ferramenta de compreensão do nosso tempo.
E se hoje minha mãe se preocupa, é porque ela entendeu. Porque viu, nas páginas do livro, que essa violência não é ficção nem exagero. É realidade.
Cecília Olliveira é autora de Como nasce um miliciano e jornalista investigativa dedicada à cobertura do tráfico de drogas e de armas e à violência. É cofundadora do Intercept Brasil, diretora fundadora do Instituto Fogo Cruzado e ex-diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). É membro da The Global Initiative Against Transnational Organized Crime e do Latin America Regional Advisory Council – Institute for Integrated Transitions.










