“As mulheres na política continuam sendo tratadas como histéricas.” Mar García Puig

Entrevista para El País
Por Álex Vicente
25 de março de 2023

Enquanto o país contava votos, Mar García Puig (Barcelona, 45 anos) contava contrações. Em uma noite de 2015, a filóloga catalã, então editora da Seix Barral, tornou-se ao mesmo tempo mãe de gêmeos e deputada pelo partido En Comú Podem. A alegria não durou muito. Na manhã seguinte, começou a sofrer um surto psicótico do qual ainda está se recuperando. Ela conta isso em sua impactante estreia como escritora, A história dos vertebrados, em que a atual porta-voz da comissão de Cultura no Congresso relata sua história e a de outras mulheres que sofreram de “loucura pós-parto”, da rainha Vitória à poeta Sylvia Plath.

Pergunta. Na manhã seguinte ao parto, você enlouqueceu. Como explica isso, quase oito anos depois?

Resposta. O mundo como você o conhecia desaparece. Como mãe, historicamente você tem o papel de ser a pessoa fundamental para aqueles dois seres, então não pode morrer. Meus filhos, que eram especialmente vulneráveis, que nasceram como se ainda estivessem pela metade, dependiam de mim: de eu ter leite ou não, de segurá-los nos braços ou não, de verem ou não um sorriso no meu rosto. Comecei a sentir ansiedade e hipocondria. Dizem que o rosto da mãe é a imagem do mundo da criança. E isso representa uma pressão incrível.

P. Você tinha algum antecedente?

R. Eu tinha todos os fatores para que isso acontecesse: alguns episódios de ansiedade, um tratamento de infertilidade, uma gravidez de risco e um histórico familiar, porque meu tio se suicidou e meu pai sofreu de depressão crônica. Era uma bomba-relógio. Acabou explodindo na minha cara.

P. Você evita chamar isso de “depressão pós-parto”.

R. Não gosto de rótulos, embora às vezes eles tranquilizem porque você percebe que é um mal compartilhado e que faz parte de uma certa normalidade. O rótulo pode confortar, mas também medicaliza males que não são apenas médicos, que também têm um componente humano, cultural, filosófico e histórico que se perde quando você os aprisiona na nomenclatura médica ou psiquiátrica.

P. Como conseguiu sair dessa?

R. Graças ao sistema público de saúde, a uma rede familiar e ao fato de pesquisar a vida de outras mulheres que viveram o mesmo nos últimos séculos. Senti que fazia parte de uma irmandade de loucas, que não puderam deixar testemunhos, mas sobrevivem em milhares de prontuários médicos. Isso aliviava um pouco minha culpa e dava algum sentido à minha experiência, embora eu preferisse não ter precisado viver isso.

“O papel de mãe implicava uma heroicidade que eu precisava cumprir. Se eu fraquejasse, as consequências poderiam ser trágicas para meus filhos.”

P. Você compara as parturientes supostamente histéricas do século XIX com os soldados enlouquecidos da Primeira Guerra Mundial. É a mesma coisa?

R. A teórica Elaine Showalter compara estar preso no espaço bélico com estar aprisionado no espaço doméstico. Na Primeira Guerra Mundial demorou para reconhecerem que os militares haviam enlouquecido. Acreditava-se que eles tinham microlesões cerebrais causadas pelos estilhaços, como se fossem feridas invisíveis para a ciência. Já as mulheres eram colocadas em manicômios.

P. Você se sentia em guerra?

R. Eu sentia que o papel de mãe implicava uma heroicidade que eu precisava cumprir, porque se eu falhasse por um segundo isso poderia ter consequências trágicas para meus filhos, da mesma forma que o descuido de um soldado pode ser catastrófico para sua nação. E, sejamos sinceros, também para a imagem que eu projetava como mãe, o que é outra pressão adicional.

P. Justamente, uma das perguntas mais vertiginosas que o livro faz é se a loucura feminina é fisiológica ou cultural, se se trata de uma questão de medicina ou misoginia.

R. Existem fatores sociais que conduzem mais facilmente as mulheres à loucura, como maior precariedade, maus-tratos, incompreensão do entorno ou a obrigação de cuidar, essa responsabilidade sobre a vida dos idosos e das crianças, que faz você estar constantemente diante da doença e da morte. Mas as estatísticas também mostram que, quando o paciente é mulher, qualquer sintoma de mal-estar é mais interpretado sob o prisma do nervosismo ou da ansiedade do que quando é um homem. Há estudos que dizem que as mulheres são mais medicadas.

P. Você escreve que a medicação não teve nenhum efeito. Então, por que continua tomando?

R. Nunca senti um único efeito, mas eu não sou médica. Se um profissional me garante que pode me ajudar, nem que seja 1%, já vale a pena tentar. Não compartilho essa tendência antipsiquiátrica que nega qualquer validade aos antidepressivos. Eles ajudaram muita gente e não julgo ninguém por se medicar, mas eu estabeleci certos limites. A medicação emergencial, como Orfidal ou Trankimazin, acho válida. Os antipsicóticos, não.

“O trabalho foi superdimensionado nas últimas décadas. Me pergunto se trabalhar dez horas por dia é um sintoma de sanidade ou de loucura.”

P. Você chegou a sofrer de tricofagia, a comer o próprio cabelo, como os macacos em cativeiro. Foi sua experiência mais extrema?

R. Foi o que mais me animalizou, talvez a experiência mais irracional. Mas acho que o extremo foi levar meu filho repetidamente ao médico porque me convenci de que ele tinha manchas pelo corpo todo, quando não tinha nada. Senti que aquelas visitas desnecessárias poderiam ter consequências para ele, mesmo sendo um bebê e provavelmente sem perceber nada, e isso me preocupou. Já o fato de algo ter consequências para mim não me importava. Eu só sentia medo pela vida dos meus filhos.

P. Freud definiu saúde mental como “a capacidade de amar e trabalhar”. Concorda?

R. Tenho dúvidas. A funcionalidade na vida ainda é interpretada assim: ter um ambiente familiar e amoroso e ser capaz de manter uma rotina de trabalho. Mas aqui entra em jogo como o trabalho foi superdimensionado nas últimas décadas e todas as relações entre funcionalidade psiquiátrica e capitalismo. Me pergunto se trabalhar dez horas por dia é um sintoma de sanidade ou de loucura.

P. “Não há nada mais sujo do que a mente humana”, disse-lhe um psicólogo.

R. Essa frase me ajudou muito. Para uma mãe, sentir-se impura é o pior dos sacrilégios, ainda mais diante da inocência absoluta de um bebê. Entender que todos temos uma mente suja foi muito libertador. Passei a compreender que essa pureza não existe e que, em algum momento da vida, todos já flertamos com a loucura e nos sentimos como lixo.

P. Você tem medo de que o livro se volte contra você, de ser tratada como louca na esfera pública ou parlamentar?

R. Sim, muito. Aí está o famoso episódio de Iñigo Errejón quando falou sobre saúde mental. O fato de os políticos termos privilégios inegáveis não significa que não tenhamos direito de cuidar da nossa saúde emocional. É algo que me dizem quando me insultam nas redes sociais: “aguente, afinal você entrou para a política”. Não concordo. Tenho receio de falar sobre esse episódio porque sei que ainda existe um enorme estigma em relação à loucura. E, ao mesmo tempo, sinto que meu privilégio traz a responsabilidade de contar isso. Há anos escrevi um artigo sobre minha ansiedade e uma faxineira me respondeu agradecendo, porque ela não podia contar isso no trabalho nem ao seu entorno. Por um lado, tenho medo de dizer isso em voz alta. Por outro, sei que sou uma das poucas que podem se permitir fazê-lo.

“Os homens também estão cheios de emoções. Já vi dois homens no Congresso brigando para sentar na primeira fila. Não sei quem é mais emocional...”

P. Há 10 ou 15 anos teria sido possível publicar um livro como este sendo deputada?

R. Suspeito que não. Surgiu um interesse pela saúde mental que antes não existia. O feminismo provocou muitos avanços nesse sentido e também mudou a imagem do que é um parlamentar ou uma pessoa envolvida na política. Nós, deputados, fazemos política de muitos lugares, não apenas no plenário ou nas comissões, onde às vezes você tem uma influência bastante limitada.

P. Você cita um legislador de Massachusetts no século XIX: “As mulheres são nervosas demais para entrar na política”. Essa opinião sobreviveu?

R. Veja o discurso de Ramón Tamames durante a moção de censura desta semana… Outro dia, depois de uma intervenção um pouco tensa ao receber um ataque da extrema direita, um deputado do Ciudadanos se aproximou de mim para dizer que eu não devia me alterar tanto, que depois levaria o desgosto para casa, que não valia a pena. Continuam nos tratando como histéricas, esse estereótipo ainda existe. Minha resposta é lembrá-los de que eles também estão cheios de emoções. Já vi dois homens no Congresso brigando para sentar na primeira fila. Não sei quem é mais emocional…

P. Montserrat Roig escreveu que, nos sindicatos estudantis dos anos 1970, muitos só buscavam mulheres libertadas “em determinados momentos e a partir de determinadas horas”. Isso também continua atual?

R. Totalmente. E não apenas na parte sexual, mas também porque muitas vezes somos um número ou uma imagem. Nos colocam para falar em determinados dias porque o feminismo está na moda e isso convém. Mas depois as dinâmicas internas dos partidos estão muito longe de serem paritárias ou igualitárias…

“Às vezes, nós mulheres somos um número ou uma imagem. Nos colocam para falar porque convém, mas os partidos estão longe de ser igualitários.”

P. No livro você insinua sua decepção com o projeto do Podemos, que supostamente reinventaria a política, mas depois reproduziu certas desigualdades.

R. Isso acontece em todos os partidos. No nosso caso, soma-se o fato de que supostamente chegamos para fazer diferente, mas a política partidária acabou prevalecendo.

P. Você passou sua primeira sessão no Congresso procurando rostos de possíveis depressivos. Qual bancada concentra mais melancólicos?

R. Há vários. O Congresso representa o conjunto da população. Se não em outras coisas, pelo menos nisso...

P. 10% da população espanhola tem problemas de saúde mental. Você acha que esse percentual se reproduz no Congresso?

R. Se reproduz ou até aumenta, vendo determinados fenômenos. Refiro-me à megalomania de alguns, mas também ao idealismo excessivo que nós outros tivemos. Muitos entramos assim em 2015, gritando “Sim, é possível” diante dos leões do Congresso. Oito anos depois, é inevitável fazer um balanço: quantos de nós ainda estamos aqui daquela foto e quantas coisas conseguimos fazer? Não digo que tenha sido tudo em vão, porque não foi, mas não conseguimos mudar a dinâmica da política partidária, nem mesmo dentro da nossa própria formação.

“Nem tudo foi em vão, mas não conseguimos mudar a dinâmica da política partidária, nem mesmo dentro da nossa própria formação.”

P. “Há algo de loucura em querer exercer a política por vocação”, você escreve com evidente desencanto.

R. É duro dizer isso, mas se você quer permanecer na política precisa fazer muitas renúncias ideológicas. Precisa assumir contradições: aceitar uma política migratória com a qual não concorda em troca de aprovar uma lei que considera importante. Há pessoas que não conseguem lidar com isso. Eu mesma acho que não sou capaz. Aquela vocação tão inocente e idealista do começo não é sustentável ao longo do tempo.

P. O que fará quando sair?

R. Quero voltar ao mundo dos livros. Quero continuar fazendo política, mas a partir de outros lugares.

P. Por fim, você se sente curada?

R. Acho que ainda estou na corda bamba. O que aprendi é que a sanidade absoluta provavelmente não existe. Se alguém a possui, que aproveite. E também que nossa capacidade de interferir na morte é mínima. E que viver com medo talvez não seja a melhor forma de viver. Tudo isso eu já compreendi. Agora espero conseguir colocar em prática.


Entrevista publicada originalmente no jornal El País, em 25 de março de 2023, por Álex Vicente.

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