Por Fabíola Machado
As mulheres sempre desempenharam papéis fundamentais no samba, nos ranchos, nos blocos e nos barracões. O Carnaval é uma expressão cultural que foi e continua sendo alicerçada pela presença feminina. Apesar do pouco reconhecimento e da invisibilidade fomentada ao longo dos tempos, a importância das mulheres no samba está marcada na história, na memória contada e cantada desde as tias abençoando os cortejos até as baianas que representam na roda a força da ancestralidade, a fé e a resistência na Avenida. Tudo tem mãos e espírito feminino.
O Carnaval de 2026 é, nesse sentido, especial, trazendo pela primeira vez na história uma diretora de carnaval à frente de uma escola do Grupo Especial: Elisa Fernandes, na Unidos da Tijuca. Na Série Ouro, destaca-se Laísa Lima, que se tornou a primeira mulher a assumir o posto de mestra de bateria solo em uma escola de samba na Marquês de Sapucaí, a Arranco do Engenho de Dentro.
Este é, portanto, um ano de muita emoção e vitória feminina, com sabor de reconhecimento e a certeza da luta de cada uma para chegar até aqui.
Cada vez mais, um número maior de mulheres chega com coragem para disputar e buscar o reconhecimento e a equidade de funções dentro da indústria carnavalesca. As mulheres participam em toda na cadeia produtiva do samba, seja nos barracões, na produção da folia nas quadras ou nas ruas da cidade, fomentando a arte e também a economia. São costureiras, aderecistas, diretoras, ritmistas, passistas, são a força motriz das escolas de sambas. Seja na quadra, na avenida ou nas ruas do Rio, há muitas mãos femininas construindo a festa.
Como exemplo, evoco três nomes femininos que fazem a diferença no Carnaval de rua do Rio de Janeiro, que estão nos bastidores guerreando o ano inteiro para levar alegria aos foliões. Para começar, Rosiete Marinho, presidenta da Liga de Blocos e Bandas da Zona Portuária, no Rio de Janeiro, que promove o carnaval de rua na região da Gamboa, Saúde, Santo Cristo e Centro, mantendo tradições com blocos charmosos e familiares. A liga organiza desfiles, incluindo blocos infantis e tradicionais, com destaques em 2025/2026 como Cordão do Prata Preta, Batuke de Ciata e Monobloco.
Destaco também Rita Fernandes, presidenta da Sebastiana, uma das principais associações de blocos de rua do Rio, que congrega agremiações tradicionais da Zona Sul, Centro e Santa Teresa, e a produtora Natália Guimarães, responsável pela Bendita Produções e idealizadora do circuito Carnabendita, com blocos e megablocos que desfilam do Centro do Rio de Janeiro até Caxias. Essas são três entre tantas outras mulheres que trabalham o carnaval com liderança e dedicação durante todo o ano para garantir os dias de festa.
Em 2026, teremos o maior espetáculo da Terra contando histórias de mulheres que contribuíram e mudaram a história do carnaval e da nossa cultura. A tradicional Salgueiro, a escola vermelha e branca, falará de Rosa Magalhães, a artista mais vitoriosa da história do Carnaval carioca e uma das maiores referências da cultura visual brasileira. Já a Mocidade Independente de Padre Miguel levará para a Marquês de Sapucaí uma homenagem histórica à Rainha do Rock, Rita Lee, em um enredo que exalta Rita como símbolo de transgressão e defesa da liberdade feminina. Ainda no Grupo Especial, a amarela e azul do Borel, Unidos da Tijuca, homenageará a escritora Carolina Maria de Jesus, mostrando a importância da escrita feminina e celebrando sua potência literária e resistência.
Na Série Ouro, a Império Serrano, tradicional escola de Madureira, faz história ao homenagear em vida uma das maiores escritoras contemporâneas do Brasil, criadora do conceito de “escrevivência”, a escrita que nasce da experiência de vida da mulher negra; trazendo desde a disputa do samba o protagonismo feminino, juntando escritoras e sambistas na composição de sambas lindos para a merecida homenagem a Conceição Evaristo. Também na Série Ouro, a escola da Zona Oeste Unidos de Bangu está apostando no enredo “As coisas que mamãe me ensinou”, celebrando a trajetória da cantora e compositora Leci Brandão, uma merecida homenagem à primeira mulher a compor uma ala de compositores de sua escola de coração, a Mangueira.
E encerrando brilhantemente essa sequência de homenagens no carnaval carioca, temos a Arranco do Engenho de Dentro apresentando o enredo “A gargalhada é o xamego da vida”, uma homenagem a Maria Eliza Alves dos Reis, reconhecida como a primeira palhaça negra do Brasil, que atuava sob o nome artístico de Palhaço Xamego.
Este carnaval está com um gosto especial na Avenida. Poder ouvir e viver as histórias de mulheres que nos nspiram a acreditar no fazer feminino, no legado e na importância de termos coragem — eis a palavra de 2026. Já que o ano só começa após o carnaval, que possamos nos inspirar a nunca desistir de escrever a nossa própria história.
Mais um ano estarei ao lado de Flávia Oliveira, Helena Theodoro, Jurema Werneck, Eliane Alves Cruz, Lúcia Xavier, Juliana Alves, Bia Onça – mulheres que me inspiram diariamente, desfilando na Ala “Carolinas”, celebrando a memória de Carolina Maria de Jesus, fechando esse histórico desfile da Unidos da Tijuca.
O carnaval continua sendo cultura, identidade, a nossa herança e o nosso sustento. O samba, essa nossa arte, ensina e leva o pão de cada dia aos foliões, alimentando o povo com a nossa cultura e pertencimento, na maior festa do Brasil!
Fabíola Machado é cantora, compositora, produtora e escritora, atuante na música desde 2012. Integra uma geração de mulheres que cantam e pesquisam ritmos brasileiros e produz os grupos Moça Prosa e Awurê. Em 2021, lançou o documentário Awurê na Bahia – A Rota do Samba de Roda, além de álbuns com seus grupos e o single “O que é bom cultuar”. Em março de 2026, lançará seu primeiro álbum solo, Caminho.


1 comentário
Georgia
Esse desfile já arrepia pelo samba enredo, essa ala tendo você @fabiola e outras tantas divas que nos encantam e representam, será pura magia no sambódromo.
Viva o carnaval🔥🎉🎊