Carnavalizar: método e invenção

por Daniela Avellar*

Em vez de partir do substantivo, esta mostra escolhe o verbo. Carnavalizar, no Brasil, é um gesto que implica um método, uma prática inventiva fundada na presença, no improviso e na alegria em seu sentido mais radical. Afastando-se da perspectiva documental, a presente exposição encena um carnaval quase abstrato, elaborando antes um repertório de estados e ações que podem se articular de forma direta ou indireta aos elementos da festa.

Segundo a historiografia, o carnaval chega ao Brasil importado da Europa e se estabiliza próximo ao formato que conhecemos hoje depois da Guerra do Paraguai, em torno de 1870. Seus antecedentes mais distantes remontam aos festejos dedicados a Dionísio, o deus grego do teatro e da alegria. No século XV, a Igreja Católica incorpora tais celebrações à sua liturgia. A primeira transfiguração ocorre com as procissões de flores na Espanha, os bailes de máscaras na França e na Itália e a fixação de datas cristãs para o evento. Em Portugal, soma-se outra modalidade, os festejos brincalhões e enérgicos, que chegam ao Brasil colônia.

Durante três séculos, assim se celebrou em terras brasileiras até que, no século XIX, a corte portuguesa impôs um carnaval “civilizado”, com desfiles de carruagens e bailes de máscaras importadas. No início do século XX, porém, a mudança decisiva surge das camadas populares, sobretudo das comunidades negras urbanas. Como sublinha Lélia Gonzalez1, povos afro-diaspóricos perceberam no carnaval um espaço possível para reconstruir referências culturais obliteradas pela escravidão. A resposta por meio da festa à violência colonial foi, segundo a autora, um “duplo ajustamento”: resguardar valores africanos enquanto se inventava uma linguagem nova. Nesse movimento, o carnaval europeu se desfaz e se recompõe: a herança cristã é reelaborada por ritmos vigorosos.

As escolas de samba, organizadas no Rio de Janeiro no fim dos anos 1920, são o exemplo mais contundente: organizações forjadas nos morros e subúrbios, onde o samba urbano se afirma como expressão coletiva e insurgente, ao mesmo tempo que cultivam uma dimensão profundamente comunitária. Paralelamente, florescem inúmeras formas de invenção: os bate-bolas dos subúrbios cariocas, com seus trajes exuberantes e as ruas transformadas em arena de brincadeira; os maracatus e clubes de frevo pernambucanos, cujas coreografias mesclam matrizes africanas, indígenas e europeias; os afoxés e blocos afro da Bahia, que desde os anos 1970 reivindicam explicitamente uma reafricanização da festa por meio de grupos como Ilê Aiyê e Olodum. Em cada canto do país, o carnaval assume feições próprias, sustentadas por uma mesma vontade inventiva.

Como lembra Luiz Antonio Simas2, o carnaval que triunfou não foi o dos salões elitizados, mas o das ruas, das comunidades negras que, no pós-abolição, afirmaram um modo de estar junto que recusava a normatividade disciplinadora. No ato de carnavalizar, podemos identificar uma espécie de manifesto: a defesa de um Brasil possível, diverso, solidário, inventivo. Assim, como diz Simas, não fomos nós que inventamos o carnaval; foi o carnaval que inventou uma ideia de Brasil que talvez só exista plenamente quando o país se permite carnavalizar.

Esta exposição apresenta obras que dialogam com esse verbo, pensando-o enquanto método e força inventiva, atravessando tempos distintos para lembrar que carnavalizar sempre foi mais do que celebrar: é reorganizar o espaço, o corpo, o ritmo e o cotidiano por meio de uma inteligência popular sofisticada. Essa inteligência também se manifesta nas arquiteturas vernaculares aqui presentes, cujos princípios se aproximam dos modos operados pela festa. A construção improvisada que vira estrutura, a organicidade dos interiores, o trânsito entre dentro e fora: tudo encontra ressonância nas espacialidades que o carnaval cria.

Ao reunir artistas de gerações diversas, a exposição articula temporalidades, referências e repertórios que vão da reflexão sobre o corpo coletivo à investigação das materialidades que sustentam tanto a festa quanto a vida em periferias urbanas. Na obra de Hélio Oiticica, por exemplo, a experiência com a Mangueira e a inteligência comunitária das escolas de samba foi decisiva para os parangolés. A mostra também amplia a compreensão de que carnaval não é apenas samba. A festa é atravessada por uma constelação de sonoridades afro-diaspóricas: pulsos que se entrelaçam ao funk, ao hip-hop e aos graves eletrônicos das festas de rua contemporâneas.

No centro disso tudo, há a dimensão do assombro evocada por Simas: um modo de percepção que permite se espantar com o cotidiano, que reconhece beleza no encontro fortuito, na voz que irrompe na rua, na escola de samba que entra na avenida como quem abre um mundo. É um assombro semelhante ao que o curador camaronês Bonaventure Ndikung identifica na arte ao afirmar que, mesmo em meio à violência, as pessoas cantam e dançam porque isso lhes devolve a certeza de que ainda estão vivas. A festa, nesse sentido, é uma tecnologia brasileira para espantar a tristeza.

Ao reunir trabalhos que se debruçam sobre essas camadas, esta exposição afirma que carnavalizar é uma forma de conhecimento. Um método que reorganiza o sensível, rompe dicotomias, redimensiona o coletivo e projeta futuros. Aqui, distintos tempos históricos se encontram para recordar que a festa nunca esteve dissociada da luta, e que a luta sem festa perde sua vitalidade. Carnavalizar, portanto, é insistir que política e poética podem andar juntas, e que talvez esse seja o gesto mais radical que a arte pode oferecer.

*Daniela Avellar é curadora da exposição "Carnavalizar: método e invenção", em cartaz na Flexa Galeria a partir de 11 de fevereiro. 

Heitor dos Prazeres — Sem título, s.d.

Heitor dos Prazeres
Sem título, s.d.
óleo sobre tela
50 x 61 cm

Mestre Didi — Sem título, s.d.

Mestre Didi
Sem título, s.d.
nervura de palmeira, couro, búzios e palha da costa
106 x 45 x 14 cm


1 Lélia Gonzales, Festas populares no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2024.
2 Luiz Antonio Simas, “A luta e a festa são irmãs”. Brasil de fato, 21 fev., 2023.

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