Por Clarisse Escorel
“Era para ser” é uma expressão que se ouve por aí. Não sei ao certo se a crença procede, se a cosmologia poderia nos ajudar um embasamento científico, mas gosto de acreditar que a vida tem uma forma peculiar de acontecer e se desdobrar, de dar errado para, às vezes, depois dar certo. De nos afastar e nos aproximar de pessoas em determinados momentos por razões muitas vezes ocultas até que se revelem, lá adiante e façam todo sentido.
Ser editada pela Bazar do Tempo na minha estreia como romancista, é um exemplo clássico, não há dúvida, de uma dessas situações às quais o “era para ser” se aplica. Ao tomar coragem e me aventurar na escrita do meu primeiro romance e, não fosse isso o bastante, escrever uma história de amor, antevi riscos ao longo do árduo percurso em busca de uma editora. Ciente desses riscos, surpreendida por outros não vislumbrados, fui em frente.
Como leitora, noto que há livros que nos procuram e aparecem no momento chave em que precisam ser lidos por nós. Tem sido assim comigo nos últimos anos. É quase como se houvesse uma espécie de algoritmo na vida real fazendo uma curadoria individualizada e atirando livros na minha direção. Para a minha versão escritora, há histórias que se impõem. E ainda que em alguns casos eu lute contra elas, luta inglória, já adianto, as histórias ganham de lavada, mais cedo ou mais tarde escapolem e tomam a forma de texto.
No caso do livro O amor na sala escura, o que se deu foi mais ou menos o que relato a seguir. No início de 2021 fui aceita na oficina de escrita criativa do professor Luiz Antonio de Assis Brasil. Ao final do primeiro semestre, os alunos deviam apresentar um projeto de romance. Apresentei o projeto do que viria a ser O amor na sala escura, convicta de que seria incapaz de desenvolvê-lo. Terminado o semestre, reli o projeto e concluí que aquela história que eu vinha escrevendo mentalmente há décadas, devia ser um conto e não um romance. Afinal de contas, que interesse uma história de amor, tema tão fora de moda, poderia despertar?
Escrevi não um, mas vários contos que revolviam em torno de um mesmo eixo central até me dar conta de que, na verdade, não eram contos o que escrevia e, sim, capítulos. Precisei ouvir do Assis, ao ler um desses contos: “Esse é o seu romance”. Gelei. E agora? Se ele está dizendo, serei obrigada a levar isso adiante. Paralisada por aquela sentença, mandei o tal conto para uma amiga escritora sem revelar o que ouvira do mestre. As palavras dela foram praticamente as mesmas: “Amiga, esse é o seu romance. Você precisa escrever”. Eu ainda não tinha certeza se seria capaz, mas, pela primeira vez, me senti autorizada. A escrever um romance e a contar uma história de amor.
O início desse processo de escrita foi especialmente difícil. Ao resgatar e reler as inúmeras anotações e referências sobre a história que desejava colocar de pé, ao começar a escrevê-la sabendo por onde ela passaria, me senti fisicamente mal inúmeras vezes. Era preciso interromper a escrita e caminhar pela casa para, então, voltar para a frente do computador. À medida que o texto foi ganhando corpo e fluência, passei a respirar com mais facilidade, segura do que estava fazendo. Aprendera a andar de bicicleta sem rodinha, o medo de levar um tombo não me abandonara, mas eu pedalava a favor do vento.
Concluída a primeira versão, o título do projeto, Quem sabe a vida nos encontre, foi substituído por Sudoeste, uma referência ao vento que traz mau tempo e destrói tudo o que encontra pelo caminho. Foi com esse título que o manuscrito chegou às mãos da Ciça.
A notícia de que ela havia se interessado chegou rápido, entre o fim do inverno e o início da primavera, vejam só que coisa. Eu já conhecia e admirava a Bazar do Tempo e custei a acreditar. Compor um time de autoras como o reunido por essa editora, fez com que eu me enxergasse de outra forma como autora, mas não só isso. Me deu a segurança de ter feito a coisa certa ao encarar a escrita de uma história de amor com toda liberdade e força que esse enredo pedia.
Narrado por uma personagem mulher, O amor na sala escura trata de uma experiência amorosa sob o ponto de vista feminino. Que ele seja publicado por uma casa editorial feminista, que tem como propósito circular o pensamento e a escrita de mulheres, é ou não é o tipo do encontro escrito nas estrelas? Como se diz por aí, era para ser.
Na última semana de fevereiro, O amor na sala escura chegou às livrarias. Saber que agora o meu primeiro romance entrará na casa das pessoas, na vida delas, que será folheado, manuseado, lido, sublinhado, comentado, debatido, que tocará leitores, é um momento e tanto. Junte-se a isso o fato de que em março de 2026, a Bazar do Tempo completa dez anos. É tempo de festa. De celebrar o que foi construído até aqui, os bons encontros e tudo aquilo que está desenhado no horizonte.
Clarisse Escorel é carioca, formada em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo (USP). Já publicou Depois da chuva (2023), Diamantes (2024). O amor na sala escura (2026) é seu primeiro romance pela Bazar do Tempo.

