Combo Mulheres e debates raciais
Diferentes perspectivas sobre a escrita de mulheres negras como ferramenta de resistência.
Em busca dos jardins de nossas mães
Alice Walker
Tradução: Stephanie Borges
Primeira mulher afro-americana a receber o prestigioso prêmio Pulitzer de ficção, Alice Walker também foi pioneira ao tratar de diversos temas da cultura negra dos Estados Unidos. Ainda nos anos 1970, abordou pela primeira vez questões raciais como o colorismo, e passou a defender um ponto de vista mulherista, termo reivindicado pelo feminismo negro para expressar as particularidades de suas lutas.
Filha de trabalhadores rurais, Alice Walker experimentou a violência da segregação racial e as dificuldades de ser uma mulher negra no Sul do país, contexto que incorporou em seu romance A cor púrpura e que está presente em vários ensaios deste livro.
Entre perspectivas pessoais e políticas, a autora nos convida a acompanhá-la na busca da própria identidade e das referências afro-americanas, muitas delas apagadas pela história. Seguindo-a nesse caminho, nos deparamos com Zora Neale Hurston, Martin Luther King, Phillis Weathley, e chegamos ao jardim de uma casa modesta na Geórgia. Lá, em meio a uma rotina sem descanso, sua mãe encontrou a porção diária de vida cultivando dedicadamente suas flores – e Alice Walker, o sentido desse legado materno.
“Essa capacidade de persistir, ainda que das maneiras mais simples, é um trabalho que as mulheres negras realizam há muito tempo.”
Pão tirado de pedra
Dionne Brand
Tradução: Lubi Prates e Jade Medeiros
“Uma crítica cultural de coragem intransigente, uma artista na linguagem e nas ideias” - Adrienne Rich
Nesta coleção de ensaios, Dionne Brand, uma das mais importantes vozes do pensamento diaspórico contemporâneo, lança um olhar incisivo e poético para tratar questões que estão no centro de sua produção: sexo e sexismo; diáspora e imigração; violência colonial e liberdade; imaginação racial; e também música, arte e literatura. Publicado pela primeira vez em 1998, o livro, que conta com um prefácio atualizado da autora, evoca os debates que se mantêm atuais e com enorme ressonância na cultura contemporânea.
“Pão tirado de pedra: como tirar comida da pedra bruta. O pão de cada dia, alimento fundamental e cotidiano, em qualquer esquina. O que são, para pessoas na diáspora, as experiências de Brand: comuns, cotidianas, fundamentais. Tirar pão de pedra: firmar compromisso a partir de matéria estanque e transformá-la em coisa viva e nutritiva. Tornar alimento alguma coisa impossível, que se não transformada nos quebraria os dentes. E não é isso o mesmo que escrever para e com as nossas? Buscar gestos de metamorfosear a raiva e as distâncias, de fazer de tudo algo que se possa partilhar, que se possa tornar combustível, que se possa levar adiante” - Bruna Barros e Jess Oliveira, no posfácio.
O avesso da raça
Luciana da Cruz Brito
A partir de uma vasta pesquisa em acervos dos Estados Unidos e do Brasil, a historiadora Luciana da Cruz Brito apresenta neste livro uma interpretação surpreendente sobre o papel da sociedade brasileira nos debates raciais e políticos nos Estados Unidos do século XIX.
De um lado, viajantes e cientistas tomavam o Brasil como um “laboratório de raças” e uma experiência que deveria a todo custo ser evitada, destacando os males da mistura racial e alimentando as perspectivas racistas de então; por outro, abolicionistas estadunidenses, como Frederick Douglass, tinham na sociedade brasileira miscigenada, em que libertos podiam acessar direitos, a despeito de toda a violência do ambiente escravista, um modelo idealizado a ser seguido.
De uma maneira ou de outra, o que a autora revela é como o Brasil serviu de espelho – muitas vezes invertido – para os Estados Unidos na formação de ideias raciais e da própria nação.




