Combo Grandes escritoras negras, livros premiados
Três livros premiados de três das mais importantes escritoras contemporâneas: a guadalupense Maryse Condé, a senegalesa Aminata Sow Fall e a haitiana Yanick Lahens.
Banho de Lua
Yanick Lahens
Tradução: Natalia Borges Polesso
A partir de um encontro improvável e atração recíproca entre dois membros dessas famílias rivais, Yanick Lahens, a mais célebre escritora haitiana da atualidade, constrói uma saga ao mesmo tempo familiar e nacional. Baía Azul torna-se, assim, o palco onde se condensa a história política do Haiti: fratrias dilaceradas, devastação sem limites, arbitrariedades de poder. Em meio à violência crescente, as divindades vodus e as vozes ancestrais ecoam como únicos bastiões da beleza e da resistência à crueldade inevitável de um mundo em profunda transformação.
Ganhador do Prêmio Femina 2014
A greve dos mendigos
Aminata Sow Fall
Tradução: Mirella Botaro
Mour Ndiaye, diretor da Saúde Pública em Dakar, sonha com uma carreira política brilhante. Para conquistar prestígio e se aproximar do poder, decide “higienizar” a cidade, afastando de vista a população de rua, considerada uma mancha na imagem de modernidade que deseja exibir. Diante das medidas de exclusão e bem organizados, os mendigos tomam uma decisão inesperada: declaram uma greve.
Essa ausência coletiva logo provoca um efeito em cadeia: sem os pobres para testemunhar sua generosidade, a elite urbana perde a possibilidade de praticar a caridade pública, fundamental para a vida religiosa e para a manutenção de sua imagem e respeitabilidade social. Assim, figuras invisíveis passam a ocupar o centro da cena, revelando como a sobrevivência simbólica e política dos poderosos depende justamente daqueles que eles procuram apagar.
Aminata Sow Fall, escritora pioneira em língua francesa na África, constrói uma narrativa incisiva, em que o sarcasmo e a ironia abrem espaço para refletir sobre dignidade, solidariedade e o lugar dos marginalizados na vida social.
Ganhador do Grande Prêmio Literário da África Negra ― Le Grand Prix littéraire d’Afrique noire (1980)
O coração que chora e que ri
Maryse Condé
Tradução: Heloisa Moreira
Neste que é um dos mais celebrados livros de Maryse Condé, as memórias de infância são também a narrativa de sua formação. Na Guadalupe dos anos 1940 e 1950, em um ambiente burguês, deve-se evitar falar a língua local, o créole. As convenções sociais se impõem sobre os sentimentos: não se chora diante do cadáver de um ente querido; não se comenta um divórcio na família. No contexto doméstico, cercado por mentiras, com uma mãe extremamente severa – com os outros e consigo mesma – e um pai reservado, a pequena Maryse segue o caminho da rebelião. A sua fuga para um mundo imaginário, a sede por conhecimento e por autonomia a guiam para o destino de escritora.
Ao retomar a sua história, Condé evoca a criança que percorre as paisagens caribenhas, a jovem que descobre em Paris a sua identidade negra, e revive o momento que lhe devolveu o amor pela sua família: “Eu deslizei a mão por entre seus seios que tinham amamentado oito filhos, agora inúteis, murchos, e ali passei toda a noite, ela grudada em mim, eu enrolada como uma bolinha contra seu flanco, sentindo seu cheiro de idosa e de arnica, sentindo seu calor”. Naquela noite, Maryse encontrou sua mãe ao perdê-la.
Ganhador do Prêmio Marguerite Yourcenar 1999




