Combo Feminismos do caribe
A tradição do pensamento feminista caribenho a partir de mulheres que reivindicaram seu lugar como protagonistas da história intelectual e política da região.
As irmãs Nardal
Léa Mormin-Chauvac
Tradução: Ligia Fonseca Ferreira e Regina Salgado Campos
No coração do entre-guerras parisiense, sete irmãs vindas da Martinica — Paulette, Émillie, Alice, Jane, Cécile, Lucie e Andrée Nardal — abrem caminho para uma revolução silenciosa: a emergência de uma consciência negra global. Primeiras mulheres negras a entrar na prestigiada universidade Sorbonne, elas fazem de seu apartamento em Clamart, periferia de Paris, um dos grandes salões intelectuais da diáspora, onde circulam ideias, poetas e militantes vindos da África, do Caribe e dos Estados Unidos.
É ali que germina o pensamento da negritude, antes mesmo de Aimé Césaire ou Léopold Senghor lhe darem nome. Com erudição e sensibilidade, Léa Mormin-Chauvac restitui o lugar central das irmãs Nardal na história mundial das ideias — pioneiras do feminismo negro francófono, mediadoras entre culturas, e figuras decisivas da modernidade caribenha. As irmãs Nardal repara um silêncio histórico e ilumina a origem coletiva de um movimento que transformou a literatura e a política do século XX, retraçando a trajetória dessas mulheres pioneiras, símbolos das lutas feministas e antirracistas que mudaram os rumos do movimento negro mundial.
O coração que chora e que ri
Maryse Condé
Tradução: Heloisa Moreira
Neste que é um dos mais celebrados livros de Maryse Condé, as memórias de infância são também a narrativa de sua formação. Na Guadalupe dos anos 1940 e 1950, em um ambiente burguês, deve-se evitar falar a língua local, o créole. As convenções sociais se impõem sobre os sentimentos: não se chora diante do cadáver de um ente querido; não se comenta um divórcio na família. No contexto doméstico, cercado por mentiras, com uma mãe extremamente severa – com os outros e consigo mesma – e um pai reservado, a pequena Maryse segue o caminho da rebelião. A sua fuga para um mundo imaginário, a sede por conhecimento e por autonomia a guiam para o destino de escritora.
Ao retomar a sua história, Condé evoca a criança que percorre as paisagens caribenhas, a jovem que descobre em Paris a sua identidade negra, e revive o momento que lhe devolveu o amor pela sua família: “Eu deslizei a mão por entre seus seios que tinham amamentado oito filhos, agora inúteis, murchos, e ali passei toda a noite, ela grudada em mim, eu enrolada como uma bolinha contra seu flanco, sentindo seu cheiro de idosa e de arnica, sentindo seu calor”. Naquela noite, Maryse encontrou sua mãe ao perdê-la.



