Por Clarisse Escorel
Já cantei muito por aí “minha carne é de carnaval, o meu coração é igual”. Cigana, bruxa, havaiana, colombina e melindrosa: tive uma versão vermelha belíssima comprada durante o horário do almoço na Rua da Alfandega – a favorita, com suas franjas e meia arrastão. Quadra da mangueira, Bola preta, Monobloco, Boitatá, Sapucaí. Pipoquei bastante no que hoje me parece apenas uma alegria infernal: “Vem no Bola meu bem, uma alegria infernal, todos são de coração, foliões do carnaval, sensacional.”
Espio de longe, numa espécie de recuo prolongado da bateria, vejo a banda passar marcando o passo, tudo tão bonito, o samba no pé, os requebrados, as fantasias, a purpurina, a pulsação. Não tenho certeza, mas acho que é a obrigação de estar explodindo de alegria naquele exato momento sem um motivo concreto que me angustia. Talvez um pouco menos do que o ano novo, mas ainda assim. Adepta convicta do mandamento “é melhor ser alegre que ser triste” às vezes peco, sucumbo. Busco um sentido onde justamente não deve haver sentido algum.
Andei pensando em escrever sobre o carnaval sem conseguir formular nada de muito interessante. Foi aí que me veio à cabeça um encontro. E como eu gosto deles. Entrei no elevador e dei com um cara simpático. Carregava o que me pareceu uma maca dobrável e deduzi que era o massagista da vizinha. “Bom dia”, eu disse. “Tudo bem?” perguntei sem pensar. “Melhor do que eu mereço” foi a resposta que ouvi acompanhada por um amplo sorriso composto por dentes e uma generosa faixa de gengiva. Desconcertada, fiz alguma brincadeira e disse algo como “ah, então está tudo ótimo”, ele riu, eu ri, e chegamos ao térreo.
Há dias penso nessa frase: “Melhor do que eu mereço”. Lembro daquele senhor transpirando sob o verão implacável, capaz de arregalar um sorriso para uma desconhecida e achar que está tudo melhor do que deveria. Se eu abrisse a comporta da minha porção descompensada, contida a duras penas, diria a ele: “Veja bem amigo, acho admirável essa linha Poliana, mas você há de convir que as coisas não estão nada bem.” Me reprimi, claro, e segui meu caminho admirada com aquela positividade intoxicante.
Imaginem que antes do encontro no elevador eu vinha pensando em vulcões. Volta e meia penso sobre vulcões, erupção e lava, como ela pode se pulverizar alcançando lugares há quilômetros de distância, provocando incêndios, matando pessoas. Sobre erupções em geral e os estragos causados por elas. E vinha pensando no ICE, no Trump, no Epstein, no STF, no STM.
No dia seguinte ao encontro providencial no elevador saí de carro com meu filho logo cedo. Pegamos a Lagoa pela Fonte da Saudade e demos de cara com aquela imensidão tranquila e esverdeada. Perguntei se ele queria colocar uma música. Jokerman do Bob Dylan começou a tocar. Para nós e para aquele cenário iluminado por uma manhã azul anil. Uma dessas manhãs que não devem passar desapercebidas: Lagoa, Dois Irmãos, Pedra da Gávea. Eu e meu filho. Sim, está tudo melhor do que eu mereço, pensei, contagiada por uma alegria infernal daquelas de bailar por aí.
Clarisse Escorel é carioca, formada em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo (USP). Já publicou Depois da chuva (2023), Diamantes (2024). Em 2026 lançará seu primeiro romance O amor na sala escura pela Bazar do Tempo.









